segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Resenha de Corey Harris - Fulton Blues


Cada descoberta vinda do blues sempre renova as esperanças acerca nesse estilo musical secular e que definitivamente deu sua contribuição essencial para os fundamentos de como a música foi feita durante o século XX e que continuará a ser feita ainda por muito tempo. Gera ainda mais prazer ao ver um novo artista cuja proposta é resgatar o sentimento e a emoção do blues puro e rural, aquele do Delta do Mississipi, sem a intromissão do rock, que, embora seja também maravilhoso, transformou esse estilo para o mainstream urbano e desenvolvido. Esse artista contemporâneo que se dá a missão de fazer essa conexão com o passado, sem deixar de incluir elementos mais modernos na equação, é o músico, professor, pesquisador e estudioso Corey Harris. No entanto, não se deve confundir aqui com pura idolatria e preservação do passado, numa obsessão de autenticidade para soar idêntico ao blues que era tocado no início do século passado no Sul dos Estados Unidos. Harris não apenas recria esse estilo, como também o funde com outros estilos, sempre focados nos ritmos de raiz, principalmente os africanos e afros americanos.

A carreira desse bluesman é a prova disso. Corey Harris iniciou sua carreira em meados da década passada, pelo lançamento do seu disco de estreia Between Midnight and Day, de 1995, com a proposta clara de basicamente recriar o Delta Blues, sozinho com seu violão mostrando suas habilidades nas variações do delta blues, recebendo uma calorosa e empolgante recepção. Em 1997, Harris manteve seu estilo com Fish Ain’t Bitin’, mas realmente conquistou de vez a crítica com o Greens from the Garden, de 1999, aprofundando na riqueza do estilo e ampliando seu campo sonoro, atingindo outros estilos do blues, do jazz e do soul, cuja mistura ele foi desenvolvendo cada vez mais nos trabalhos seguintes, Vu-Du Menz, com o pianista Henry Butler. No início da década de 2000, Harris participou com Martin Scorsese na produção do filme Feel Like Home, o primeiro da série de Scorsese chamada The Blues, pela PBS. Essa produção acabou propiciando para Harris viajar do Mississipi para o oeste da África, onde ampliou seus estudos sobre os ritmos africanos e lançou mais um grande disco, Mississipi to Mali, de 2003, fazendo uma ponte entre os estilos mais africanos e o blues do Mississipi. A partir de então, Harris passa a dar mais espaço a outros ritmos nos seus discos seguintes, como o reage, mas nunca abandonando o seu pé no blues. É nesse contexto que chegamos a mais um lançamento de Corey Harris, Fulton Blues, recebido como um retorno à forma, mais enraizado no blues e nas suas variações, deixando um pouco de fora suas explorações pelo reagge.




Fulton Blues, inclusive, é conceitual, com uma história real por trás de sua concepção. No vídeo oficial de “Fulton Blues”, Harris faz um resumo da situação que ocorreu na comunidade Fulton, em Richmond, na Virginia, uma grande comunidade afro americana, onde abrigava gerações de antigos escravos. No entanto, segundo os líderes de Richmond, a localização de Fulton era perfeita para a construção de uma indústria privada. Resultado: mais de 3 mil pessoas se viram forçadas a se retirar, com uma indenização de 15 mil dólares. De uma hora pra outra, famílias se despedaçaram e Fulton foi destruída para se tornar uma indústria que nunca veio a se realizar, tornando-se uma cidade fantasma, com campos vazios, tijolos quebrados, onde antes havia histórias em cada casa que existia ali. E é com esse plano de fundo que Harris desenvolve o disco, misturando com regravações maravilhosas de clássicas faixas do blues, com destaque para “Catfish Blues”, de Robert Petway e “Devil Got My Woman”, de Skip James.




Uma das provas que este é, até a presente data, o melhor álbum de blues do ano, é que não há uma música fraca neste álbum de 14 faixas, magistralmente distribuídas e desenvolvidas de forma equilibrada e emocionante, a começar pela faixa de abertura “Crying Blues”, com sensacional banda completa, construindo belos arranjos nos instrumentos de sopro e teclado. Em “Underground” Harris assume com seu violão no melhor do seu estilo delta blues acústico, que é o tom que dará mais ao álbum, com algumas exceções. Uma das marcas registradas de Harris são as letras mais desenvolvidas, algumas até mesmo com teor político. E em todas as faixas não se deve deixar de lado o contexto da comunidade Fulton. “J. Gilly Blues” permanece acústica, mas nela é adicionada a gaita para fazer duelo com o violão e conta a história de J. Gilly. Essa combinação com gaita, inclusive, sempre chega a lembrar um pouco de Sonny Terry e Brownie McGhee. “Black Woman Gate” traz a conotação sexual sobre o portão da morena.

Em “Tallahatchie” Harris volta a ser acompanhado pela banda completa, com um refrão bem melódico e arranjos que remetem ao soul e R&B, reservando espaço para uns solos interessantes de guitarra. “Fulton Blues” não podia deixar de ser por si mesma um dos grandes destaques do álbum, sendo Harris acompanhado mais uma vez pela gaita e com a letra relata a tragédia na comunidade de Richmond, como bem retrata o seu belíssimo vídeo clipe. “Devil Got My Woman”, um dos grandes destaques do repertório de Skip James, é aqui reforçada na fiel versão de Harris. “House Negro Blues”, num ritmo sensacional, é uma das melhores faixas do disco, emocionante e empolgante, quase como um lamento, acompanhado da banda completa, em conexão com a história base de Fulton Blues. “Black Rag” surpreende com um divertido banjo bem country e uns solos de trompete. Aí finalmente chega a versão sensacional de “Catfish Blues”, que tem de tudo, saxofone, guitarra, piano, enfim, a banda completa hipnotizada pelo blues, assim como nós ficamos. 

Fulton Blues vai caminhando para o final com a divertida e bela “That Will Never Happen No More”, dessa vez apenas Harris detonando com seu violão, enquanto que “Lynch Blues” e “Maggie Walker Blues” resumem o melhor do delta blues. O álbum termina com a instrumental com a banda completa e cheia de solos, “Fat Duck’s Groove”.

Fulton Blues é um maravilhoso álbum de um artista genioso e sincero para com as suas raízes, que usa uma trágica história como plano de fundo para dar margem à sua música se desenvolver. Corey Harris é, definitivamente, um dos nomes mais fortes na cena blues, tendo construído uma carreira sólida e versátil, a qual é enriquecida por mais este lançamento. Infelizmente o youtube não dispõe de muitos vídeos de Fulton Blues, mas, confie em mim, se você é fã de blues, vale a pena dar uma olhada aqui



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