Por todo o apoio e conforto espiritual, a trilha sonora para momentos difíceis - nas batalhas vencidas ou mesmo nas que infelizmente perdemos (perdi meu pai para o covid-19 - e in memoriam (foi tambémuma das vítimas do covid-19, aos 76 anos), o melhor disco do ano vai para Rev. John Wilkins, com o disco Trouble.
Procure a playlist do FilhodoBlues-2020 no Spotify para ouvir os destaques de cada álbum.
O
primeiro disco da enxurrada de que falei no post anterior finalmente saiu e já
podemos adiantar que cumpriu todas as promessas. John Primer e Bob Corritore,
pela terceira vez, fazem justiça à fama e à posição que conquistaram no mundo
do blues. John Primer, guitarrista e um dos maiores representantes
contemporâneos do Chicago Blues, que já tocou com Muddy Waters, Junior Wells e
Magic Slim, e Bob Corritore, o incansável especialista e super produtivo mestre
da gaita, seguem a fórmula de sucesso anterior e dividem as atenções no novo
disco, The Gypsy Woman Told Me, lançado hoje nas plataformas de stream. Além da
dupla, o álbum conta com uma lista de colaboradores de primeira: Billy Flynn,
Bob Welsh, Kid Andersen são apenas alguns desses nomes.
O
álbum é empolgante do início ao fim e o repertório também é incrível, mesclando
músicas novas, como “Little Bitty Woman” e “Walked So Long”, com versões a
maior parte delas tiradas do fundo do baú e desconhecidas, como a faixa que
abre o disco, “Keep-A-Driving”, de Chick Willis’ e “I Got The Same Blues”, de
J.J. Cale. Mas também tem Jimmy Reed, “Let’s Get Together” e Sonny Boy
Williamson, “My Imagination”, que serve perfeitamente para a gaita de Corritore
brilhar. Mas a mais conhecida certamente é a música que dá título ao álbum, “The
Gypsy Woman Told Me”, clássico de Muddy Waters. Tem músicas pra dançar batendo
com os pés no chão, tem músicas para ficar soprando o ar lentamente com a gaita
imaginária e também muitos temas já tradicionais no imaginário do blues, como o
errante jogador que perde tudo, em “Gambling Blues”, o solitário de coração
partido, o azarado, enfim, todos os ingredientes para compor um disco de blues
completo.
Normalmente,
um disco crava duas ou três músicas na playlist do Filho do Blues. Aqueles
discos que no final do ano vão brigar pelo topo da lista dos melhores do ano chegam
a levar umas cinco a seis faixas para a playlist. Bem, esse é o caso de The
Gypsy Woman Told Me, um disco para fazer vibrar tanto fãs novos quanto fãs mais
puristas de blues.
No
auge do isolamento social ao redor do mundo, que impede os familiares, amigos e
trabalhadores de diversos setores, inclusive o artístico, de se reunirem e
tocarem suas próprias vidas, o mundo do blues se preparou para tomar o mundo de
inveja em meio à pandemia de coronavírus. Enquanto nós só podemos fazer lives
solo, por coincidência ou não, nos próximos meses vem uma sequência de
lançamentos de artistas que usaram e abusaram da reunião de amigos fazendo e
compartilhando aquilo que amam: o blues.
O
primeiro desses projetos é encabeçado por uma dupla já bastante conhecida no
cenário do blues: o guitarrista John Primer e o incansável gaitista Bob
Corritore. Dois grandes nomes contemporâneos do Chicago Blues, eles lançam no
início de maio mais um álbum juntos (o terceiro), com o título de The Gypse
Woman Told Me, claramente inspirada pela música de Muddy Waters. Outros nomes
que integram a banda colaborativa são Billy Flynn, Kid Andersen, Bob Welsh,
Jimi “Primetime” Smith, dentre outros. Eles liberaram a faixa título como um
aperitivo do que vem pela frente.
Outro
lançamento que promete é o novo trabalho do cantor, compositor e guitarrista,
Dion, membro do Hall da fama do Rock. Apesar de não ser um artista estritamente
do blues, Dion possui alguns álbuns muito bons, inteiramente dirigidos ao
gênero, como Bronx In Blue (2006), Son of Skip James (2007), Tank Full of Blues
(2011) e New York is My Home (2016). O novo trabalho é chamado Blues With
Friends e é bem ambicioso em relação aos colaboradores, que vão do novo ao
antigo: Joe Bonamassa, Jeff Beck, Billy Gibbons, Sonny Landreth, Paul Simon,
Samantha Fish, Rory Block, Bruce Springsteen, entre outros. “Eu precisava pegar
os melhores guitarristas e músicos vivos de cada geração, de toda variação do
blues”, diz Dion. E não se trata de um álbum de covers de blues, mas sim de
músicas autorais compostas por Dion entre o final de 2019 e início de 2020. Duas coisas para deixar mais na
vontade; a primeira, a nota escrita pelo próprio Bob Dylan sobre o álbum: “Dion
knows how to sing and he knows just the right way to craft these songs, these
blues songs. He’s got some friends here to help him out,
some true luminaries. But in the end, it’s Dion by himself alone, and that
masterful voice of his that will keep you returning to share these blues songs
with him.” Em seguida, ficamos com a primeira música do disco, “Blues
Comin’ On”, com Joe Bonamassa.
O
terceiro lançamento da lista de reunião entre amigos e colegas é Blues Comin’
On (mesmo nome da nova música de Dion, mas aparentemente sem relação entre
elas), do guitarrista de blues-rock Joe Louis Waker. O disco será lançado em junho, mas já
tem um aperitivo. Louis Walker
divulgou “Old Time Used To Be”, acompanhado por Keb’ Mo’. Outros nomes
que se juntam a Joe Louis Walker são Eric Gales, Albert Lee, Mitch Ryder, Lee
Oskar, dentre outros.
Depois de um
longo ostracismo, o blog está de volta! E a época de final de ano é bem
sugestiva. Já retornamos com as listas de melhores músicas e álbuns de 2017.
Nesse ano, a predominância do blues foi absoluta. A morte de David Bowie, em
2016 e a queda de bandas heroicas, como Queens of The Stone Age e Arcade Fire
(que lançaram álbuns pífios em 2017) foram duros golpes no rock para mim.
Enfim, razões à parte, vamos à lista.
A lista de
músicas do ano selecionadas pelo Filho do Blues foi mais gorda do que a do ano
passado: temos 130 músicas, escolhidas a partir dos melhores álbuns do ano, dos
quais eram selecionadas duas ou três faixas por disco. (algumas músicas infelizmente não puderam fazer parte da lista, pois o Spotify não disponibilizou o álbum na sua plataforma, como Guy Davis & Fabrizio Poggy, The Blind Boys of Alabama e Eric Bibb)
De um lado, John Primer, um renomado guitarrista no meio do Blues que carrega a honra de ter integrado a última banda do lendário Muddy Watters, pouco antes da morte deste, em 1983. Além disso, conta com uma sequência de vigorosos discos solos, sempre fiéis ao tradicional estilo do Blues de Chicago e guarda o Blues Award de 2016, na categoria de Best Traditional Male Artist. Do outro lado, Bob Corritore, um dos grandes gaitistas da atualidade, que também é vencedor de um Blues Award, em 2011, na categoria Historical Album, com o álbum Harmonica Blues. Para juntar o talento dos dois está, mais uma vez, a gravadora Delta Groove Music, altamente influenciada pelo som puro e tradicional do Blues da cidade do vento. Em 2013 foi o disco de estreia dessa parceria, "Knockin' Around These Blues". Agora o catálogo da dupla é acrescida por "Ain't Nothing You Can Do", no qual a dupla mantém a pegada do Blues nostálgico e original que era tocado pelos clássicos décadas atrás. O disco ainda conta com a presença do pianista de Blues Barrelhouse Chuck em sete faixas, que infelizmente nos deixou no ano passado, aos 58 anos, e ainda com Henry Gary, pianista de Howlin' Wolf, aos incríveis 91 anos, tocando nas três outras faixas. O guitarrista Big Jon Atkinson, com quem Corritore lançou um disco no ano passado, "House Party At Big Jon's", também toca em três músicas.
A faixa de abertura é "Poor Man Blues", uma aclamação para ajudarmos aqueles que estão necessitando, que não tem um prato de comida. Cada música aqui parece construída para que todos os músicos disponham de momentos de mostrarem seus talentos de forma mais livre e solta. Incrível como há momentos em que a voz de John Primer parece bastante com a de Muddy Waters. Em "Elevate Me Mama", de Sonny Boy Williamson, a guitarra de Primer também canta demais, enquanto "Harmonica Boogalo" é simplesmente uma das melhores Jam de gaita que você escutará este ano.
Um dos destaques é a sensual "Big Legged Woman", que prova como existem músicas que podem ser sensuais sem ser ofensivas às mulheres. Nenhum assédio, apenas admiração. "Gambling Blues", de Magic Slim, também conta entre os destaques. É o momento da jogatina, hobby favorito dessa turma da pesada. O disco ainda conta com "May I Have a Talk With You", de Howlin' Wolf. O disco chega ao fim com "When I Leave Home", em torno de sete minutos, com tempo suficiente para guitarristas, gaitista e pianistas.
A experiência de John Primer mesclada com a técnica e o vigor de Bob Corritore, contando ainda com uma ótima banda de músicos, faz com que "Ain't Nothing You Can Do" seja um dos melhores discos de blues puro e tradicional lançados no ano.