segunda-feira, 20 de julho de 2015

Resenha de Wilco - Star Wars


                Em 2013, nós vimos como é o espetáculo midiático para o lançamento de um novo álbum. Em todos os lugares, em todas as mídias, sejam elas tradicionais como outdoors ou digitais, como as redes sociais, estavam estampadas propagandas antecipando o novo lançamento de Arcade Fire, Reflektor. Foi um sucesso. Também em 2013, uma das grandes lendas da música, David Bowie, anunciava subitamente o seu retorno com um novo álbum, The Next Day, gravado totalmente em segredo. O mundo da música ficou em polvorosa na espera do conteúdo do disco. Agora vemos o oposto. Isso porque ontem (19), a banda norte-americana Wilco, uma das maiores do novo milênio, foi além, lançou de surpresa e colocou disponível ontem mesmo para download grátis em seu site o nono disco da banda, Star Wars – nenhuma relação com o gato fofinho na capa. Sem um ou dois meses divulgando singles, fazendo programas de TV, nem nada disso. É música e pronto. E o resultado é igualmente renovador.

                Uma das bandas mais festejadas das últimas duas décadas, com clássicos como Being There (1996) e Yankee Hotel Foxtrot (2002) na bagagem, Wilco encontrava-se claramente na meia-idade: fazendo discos seguros, mas na zona de conforto. Os três últimos discos (Sky Blue Sky, de 2007, Wilco, de 2009 e The Whole Love, de 2011) são todos bons trabalhos, nos quais a banda, no entanto, não se arrisca tanto, não tenta experimentar novos sons. Com Star Wars, o espírito aventureiro e ambicioso – apesar da estratégia de lançamento indicar o contrário – parecem ter retornado. No decorrer de 11 músicas e pouco mais de trinta e três minutos, Jeff Tweedy e companhia apresentam um som barulhento e construído em novas texturas, com experimentos sonoros muito interessantes. A sonoridade vai desde o glam rock de David Bowie, o psicodélico dos Beatles até o alternativo dos anos noventa. Uma mixórdia que empolga em todos os momentos.

                E os indícios estão presentes já no primeiro minuto, na barulhenta faixa instrumental “EKG” e se consolidam na faixa seguinte, “More...”, com guitarras intergalácticas em um mar de distorções para todos os lugares do ouvido. “Random Name Generator” é rock guiado por um riff coeso e bem marcado. A banda está funcionando como um organismo musical vivo e cada pedaço das músicas são, com certeza, resultado de um trabalho detalhado de ensaios e pura criatividade musical. “The Joke Explained” segue uma construção lírica dúbia e que soa improvisada e enigmática – talvez a razão da capa do álbum ter sido um gatinho peludo esteja em algum lugar por aí.

                “Your Satellite”, de longe a mais longa de Star Wars (passa da casa dos cinco minutos), tem uma guitarra que soa como o motor de uma viagem espacial, num ritmo cada vez mais forte e crescente, com o final parecendo uma turbulência durante o percurso. Depois de tanta guitarra, a acústica “Taste The Ceiling” apresenta uma sonoridade mais próxima ao Wilco adulto dos últimos três discos. “Picked Ginger” tem umas reviravoltas bem interessantes e inesperadas, misturando um riff fixo com solos desconcertados. A primeira balada propriamente dita “Where Do I Begin” mostra, como sempre, a proeza de uma banda acostumada a fazer belíssimas baladas, ao menos até, mais uma vez, a música tomar um caminho inesperado em uma efusão de sons – pena que dura pouco. Mais uma vez Wilco opta pelo caminho da surpresa, do inesperado. “Cold Slope” tem um ritmo sensual e dançante bem cadenciado no glam rock dos anos 70. “King of You” serve praticamente como uma sequência, dando seguimento à cadência da faixa anterior. A banda finaliza com a bela “Magnetized”, na qual, por um momento, a guitarra é deixada de lado em favor dos teclados e pianos.  

                Star Wars é recebido com aquele ar atordoado, confuso, mas ao mesmo tempo extasiado, desvendando os mistérios pouco a pouco de um artefato recém-descoberto, afinal, fomos dormir um dia sem nada e acordamos no seguinte com um dos melhores álbuns do ano à nossa disposição. 




domingo, 12 de julho de 2015

Resenha: Daddy Mack Blues Band - A Bluesman Looks At Seventy


                Algumas decisões importantes normalmente são tomadas até certo ponto da vida. Nos chamados anos formativos é que as pessoas decidem o que vão fazer da vida e a partir daí seus esforços são feitos em torno dessa escolha. No mundo da música é comum vermos nas biografias que os artistas começaram a aprender guitarra na mais tenra infância. A maior parte dos bluesman começou dessa forma; ainda criança alguém da própria família comprava-lhes uma guitarra e eles aprendiam a tocá-la ouvindo outros bluesman no rádio ou em disco. Esse roteiro não serve, no entanto, para “Daddy” Mack Orr, natural de Como, Mississipi, que completa 70 anos com o lançamento do novo álbum de sua banda, Daddy Mack Blues Band, chamado A Bluesman Looks at Seventy.

Mack Orr aprendeu a tocar guitarra apenas aos quarenta e cinco anos e, nos últimos 25 anos de sua vida, tem se dedicado a tocar blues pelo mundo afora (antes de iniciar a carreira de bluesman, Mack Orr apenas conhecia quatro lugares – Wisconsin, Kansas City, Chicago e Jackson). A Bluesman Looks At Seventy é o sétimo disco da banda e, sem dúvida, um dos mais vigorosos. Mack Orr chega aos setenta com uma voz expressiva, acompanhando a energia nostálgica que flui de sua banda. Antigo coletor de algodão, que passou a trabalhar como mecânico de carro, Mack Orr possui aquela experiência de vida no duro e cruel Sul rural, o Deep South. É quase como uma lei; aqueles que possuem essa ligação tocam um blues autêntico e honesto, ou seja, sabem exatamente do que falam – preocupação com dinheiro, mulheres, trabalho, os assuntos preferidos do blues. As músicas são compostas por Eddie Dattel, fundador da Inside Sounds, e Wally Ford, mas Mack Orr consegue torná-las suas pela autenticidade.



Os destaques, dentre as 14 faixas do disco, ficam com a festeira “Champagne Fantasy”, que abre o disco, já que Orr afirma que “everyday is Friday and everyday is New Year’s Eve”. “Muddy Waters”, mostra situações de injustiças raciais, como passar vinte anos na prisão por um crime que não cometeu, dentre outras, nas quais Orr afirma “if that ain’t blues, my friend, then Muddy Waters wasn’t black”. “Fix it When I Can”, mais funky, foi inspirada no trabalho de Mack Orr como mecânico de carros. Engana-se quem acha que aos setenta não se pense mais em sexo casual, como em “You Don’t Have to Love Me”. A jogatina e o blues estão totalmente interligados e “Gambling House” representa essa relação de jogar até o dinheiro acabar.. “Hoodoo Blues” resgata a magia, as superstições e feitiços da comunidade afro-americana do Sul dos Estados Unidos. Os compositores Dattel e Ford entregaram de presente para Orr “I Like Fishin’”, já que este é o seu hobby favorito. “Pocketful of Blues” é, como o próprio título já sugere, puro blues de uma pessoa que sabe onde está se metendo.

A autenticidade é tudo na tradição do blues. Quando encontramos um álbum como A Bluesman Looks At Seventy, vemos que o blues está forte e seguro, tal qual Daddy Mack Orr com seus setenta anos – e contando. 


sexta-feira, 3 de julho de 2015

Resenha do documentário What Happened, Miss Simone?



                O mundo da música e do entretenimento de forma geral tende a criar herois, vilões ou, em alguns casos, vende a imagem pronta e única de um artista. Uma das formas de eternizar essas versões é através da biografia, seja ela na forma de livro, filme ou documentário. Mas uma boa biografia não é aquela que eterniza uma versão única de determinada pessoa; a boa biografia, na verdade, é aquela que apresenta o biografado(a) em toda sua complexidade humana, afinal, foi através dela que seu gênio foi aflorado e ele(a) alcançou o sucesso; uma boa biografia deve, enfim, como diria Chimamanda Adichie, desviar-se do “perigo de uma única história”. E é exatamente isso que acontece com What Happaned, Miss Simone? (2015), documentário dirigido por Liz Garbus que conta, com um extenso material original e inédito, a vida da cantora, pianista e ativista Nina Simone (1933-2003), disponível agora também pelo Netflix. Afinal,  Nina Simone, além de uma das maiores cantoras de todos os tempos, dificilmente caberia numa narrativa única.

                A diva do blues, do jazz e do soul (o que já evidencia o seu ecletismo musical) é filha de uma época turbulenta e sua vida é um reflexo disso. Desde cedo, ela foi testemunha ocular da opressão e exploração que ela própria e seu povo sofriam; ela viveu sob Jim Crow, as leis segregacionistas; ela viu a violência sistêmica contra os negros, especialmente no Sul, por grupos radicais brancos; ela sentiu o racismo ao ser rejeitada em uma entrevista por causa da cor de sua pele. Nascida no segregado Estados Unidos, na Carolina do Norte, no seio de uma família bastante religiosa, Nina Simone participou também da Grande Migração, movimento migratório dos negros do sul dos Estados Unidos em direção às cidades do norte em busca de empregos industriais. Nina Simone foi para Nova York e passou a tocar à noite em bares locais e a trabalhar durante o dia. Mais uma vez ela foi testemunha das condições dos trabalhadores negros que, após fugir do pesadelo sulista, agora possuíam um emprego, mas aos quais ainda era negada uma vida digna e em iguais condições com os brancos. Ainda assim, no final da década de 50, ela também conheceu o sucesso instantâneo com seu primeiro hit “I Loves You, Porgy” e do álbum Little Girl Blue, com outro hit "My Baby Just Cares for Me". 


            

A partir daí sua vida mudou. À vida social turbulenta somou-se uma personalidade forte, irascível e um casamento complicado com Don Ross, também seu empresário. À violência coletiva da sociedade somou-se a violência doméstica de um marido que a forçava a trabalhar além dos limites e que a espancava. Como que alheia a todos esses desmoronamentos, seu sucesso só aumentava com a sequência de álbuns de estúdio e ao vivo de extrema qualidade que transitava não só pelo blues ou jazz, mas também pelo soul, pop e clássico. Apesar de em alguns momentos utilizar-se de sua música para uma atuação política específica e críticas ao sistema social vigente, foi no auge de sua popularidade, que Nina Simone decidiu-se que não existia mais meio termo e não poderia mais ser apenas testemunha ocular do seu tempo, mas refleti-lo e atuar diretamente na sociedade pela causa de seu povo. Em 1964 ela tornou-se uma ferrenha ativista dos direitos civis dos negros americanos e compôs canções fortíssimas denunciando as condições injustas sociais aos quais os negros estavam submetidos. “Mississipi Goddam”, por exemplo, (traduzido como Mississipi Puta que pariu), banida em vários Estados sulistas, inspirada pelo assassinato de Medgar Evers e a explosão de uma Igreja no Alabama, foi revolucionária. “To Be Young, Gifted and Black” tornou-se quase um hino do movimento dos direitos civis.





         A sua atuação não ficou no campo da música e Nina Simone participou pessoalmente na luta pelos direitos civis, marchando na marcha de Selma a Montgomery com Dr. Martin Luther King. Apesar de não ser muito adepta da não violência (forma de atuação e revolta utilizada por King) e ser mais próxima do espírito mais incendiário de Malcom X, o assassinato de Dr. King atingiu-a profundamente. O álbum Nuff Said! foi gravado ao vivo no Westbury Music Fair e foi dedicado inteiramente ao ativista assassinado. O documentário apresenta a radicalização de Nina Simone, mostrando-a defendendo ideias bastante fortes em relação ao momento que estava vivendo, como criação de um Estado separado, violência e morte aos brancos. Apesar de ter sido um período intenso para sua vida, de bastante instrução, dedicação e aprendizado, deixou uma imagem polêmica e bastante manchada devido a suas ideias revolucionárias. Nina Simone acabou deixando os Estados Unidos em 1970 e passou a viver períodos na Libéria, Suíça, Holanda e França até o fim de sua vida.



O documentário mostra o outro lado; Depois da luta coletiva pelos direitos civis agora sua luta era individual e contra si mesma, o que a fez perder tudo e chegar ao fundo do poço, tendo que apresentar-se por 300 dólares em cafés e bares locais, na França. Diagnosticada como bipolar, com a ajuda de amigos passou a se restabelecer e tomar medicamentos que a ajudaram a controlar seu temperamento imprevisível, retomando a carreira para apresentações ao vivo e alguns álbuns de estúdio na década de 80. 

Nina Simone faleceu em 2003, no sul da França. Suas cinzas foram espalhadas por vários países africanos, o que indica de forma bastante categórica um dos principais alicerces de sua vida. Nina Simone construiu uma das biografias mais intensas, passionais e fascinantes do mundo da música e o grande mérito de What Happened, Miss Simone? é ter conseguido retratar exatamente isso: intensidade, paixão, gênio e, como não poderia deixar de ser, música. A atualidade do tema, trazido à tona com as recentes tensões raciais de violência policial nos Estados Unidos, dizem que essa é uma cicatriz que está longe de estar curada. 


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Ouça "Born To Play Guitar", do disco homônimo de Buddy Guy


Finalmente saiu a faixa homônima do novo álbum de Buddy Guy, Born To Play Guitar, a ser lançado no dia 31 de julho e já se pode dizer: sensacional. Acompanhado inicialmente por delicadas notas na sua guitarra e com a letra autobiográfica, do nascimento em Louisiana ao reconhecimento mundial, Buddy Guy declara seu autêntico amor pelo blues, ao qual dedicou toda sua vida, afinal, “my mama told my papa, our little boy got the blues”. É uma música bela, honesta e emocionante, tudo o que se espera do melhor do blues. Coisa de quem, como a própria letra diz, tem blues correndo pelas veias. Um grande candidato a faturar o título de melhor música do ano. 


sexta-feira, 12 de junho de 2015

Buddy Guy anuncia novo álbum, Born To Play Guitar


               

Depois de receber o Grammy Lifetime Achievement Award, no começo do ano, pelas cinco décadas tocando e pregando o blues mundo afora, Buddy Guy não dá indícios de que esteja saciado. Isso porque o ícone do blues acaba de anunciar seu novo disco de estúdio, chamado Born To Play Guitar, que será lançado no dia 31 de julho, pela RCA Records, e que está sendo produzido pelo amigo e colaborador Tommy Hambridge. O último trabalho de estúdio de Buddy Guy foi o disco duplo Rhythm & Blues, lançado em 2013, produzido pelo mesmo Hambridge e que contou com a participação de vários convidados especiais, como Gary Clark Jr., Beth Hart, Keith Urban, entre outros. Depois de um grande baque sofrido pelo blues como um todo quando da morte de B. B. King, é importante para reafirmar que a vida segue, assim como o blues. Deixo vocês com “Blues Don’t Care”, com Glary Clark Jr: 



  

sexta-feira, 15 de maio de 2015

B.B. King morre aos 89 anos e faz show secreto hoje repleto de convidados especiais.



Quando você muda o curso de algo significante no mundo, como você deve estar na hora de partir? Quando você nasce como um "zé ninguém", invisível socialmente, numa plantação de algodão no extremamente violento e segregado sul dos Estados Unidos, regido pela lei do Jim Crow, colhendo algodão dia a dia para sustentar a si e a sua família e morre, 89 anos depois, como o "Rei do Blues", conhecido mundialmente? Você vai querer largar o osso? Ninguém vai. Por isso que o rei fazia questão de estar em cima de um palco enquanto tivesse saúde para isso. Infelizmente, não tem mais. E a tristeza de hoje é por isso. Não pela limitação da alma humana em toda sua magnitude. Mas pela limitação física e corporal, que fez deixar esse plano um dos últimos remanescentes da segunda geração legendária do blues.

B.B. King nos deixa o legado não só de sua música em quase 60 anos de carreira, seu estilo de tocar a sua guitarra Lucille, mas de sua própria vida. Dono de 16 Grammy’s, mais de 50 discos e clássicos que moldaram o rumo do blues e do rock, B. B. King parte hoje para ver sua obra sob um novo plano, uma nova perspectiva. E com certeza, onde quer que esteja, ele está observando sentado em cima de um palco, com vários convidados especiais ao seu lado, Lucille nos braços, e sorrindo. Orgulhoso. 



quarta-feira, 13 de maio de 2015

Baixe o novo disco de Siba, De Baile Solto



                Depois do grande sucesso alcançado com o último disco, Avante, Siba dá continuidade à sua carreira com o lançamento do seu novo trabalho, De Baile Solto, lançado hoje – e disponibilizado para baixar – através do seu site oficial (http://www.mundosiba.com.br/). Para quem acompanha as postagens de Siba pelo facebook percebe uma preocupação muito grande com a forma com que manifestações culturais, como o Maracatu de Baque Solto, é tratado pelas autoridades e às vezes pelo público. É por isso que, em De Baile Solto, Siba volta às raízes rítmicas da música de rua pernambucana.

Em suas palavras “O texto deste De Baile Solto pode ser lido como uma tentativa – às vezes frustrante – de expressar a grandeza absoluta de uma ave de rapina ante a arrogância dos senhores quê se arrastam pela terra, exaltar a potência criativa e social de formas de expressão forjadas coletivamente por pessoas marginalizadas e excluídas, reafirmar a crença tola na embriaguês do verso, dizer de um amor só possível em laço de família de qualquer tipo, levantar a voz contra fantasmas de carne e osso, reafirmar o valor da amizade e camaradagem, negar ao dinheiro o lugar central que o permitimos ocupar em nossas vidas, forjar uma fuga imaginária para um mundo em que caiba o poeta e, por que não, seus inimigos também, aceitar que a vida é muito mais curta do que os desenhos, que a água e o fogo forjam com o tempo e que talvez, de eterno, só mesmo o canto que o pássaro deixou guardado no escuro da árvore antiga”.

Com uma nota dessa, o que nos resta é curtir o som e a poesia de Siba mais uma vez.