quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Melhores Álbuns de 2015 - Parte IV





10. Deerhunter - Fading Frontier




Em Fading Frontier, Bradford Cox tenta pacificar sua mente conflituosa e o resultado alcançado é maravilhoso. Diferente do intenso e frenético Monomania, Fading Frontier mostra uma banda mais certeira, acessível e com outro tipo de intensidade, como se pode ver na faixa “Carrion”. Com isso, Fading Frontier torna-se o melhor trabalho lançado por Deerhunter até o momento.





11. Adele – 25



Com o sucesso astronômico do último disco, 21, de 2011, já era bastante claro que quando Adele finalmente lançasse um trabalho novo, imediatamente iria bater todos os recordes da indústria fonográfica. Essa cantora britânica é um fenômeno e 25 só comprova esse mais uma vez, diante de uma indústria ainda em crise diante da adaptação às novas tecnologias. Entre baladas no piano e algumas mais agitadas que remete a Florence And The Machine, Adele faz uma das coisas mais difíceis para um artista que parece já ter alcançado o topo: manter-se nele. E se você acha que a música escolhida seria “Hello”, umas das músicas mais tocadas do ano, está muito enganado. “MillionYearsAgo” pode facilmente ser escolhida a música mais linda do ano.









1 Hopeful Rd é o disco de uma banda com um pé no passado e outra no futuro. É uma daquelas pouquíssimas bandas que tocam um som antigo, tradicional, e ainda assim soa novo e moderno. Mas o prato não está fincado apenas no rock clássico, no soul clássico ou no blues clássico, mas sim em uma mistura, cujo tempero agrada fãs de cada um dos estilos separadamente.








Pode-se dizer sem dúvidas que Father`s Day é um álbum de blues completo. Respeita e reverencia o passado com covers executadas excepcionalmente, seguidas de novas canções originais para manter a tradição viva. Ainda por cima, como um bônus, ainda deixa uma boa lição de vida. Como Earl falouna nota de lançamento do disco: “This album is made for my beautiful father, and we came to peace in the end. Don’t ever give up on your family and don’t quit until the miracle happens.”









É impressionante como, depois de dez anos estando separada, com suas integrantes experimentando novos caminhos e novos sons, uma banda volte em tão grande estilo como Sleater-Kinney voltou em No CitiesTo Love. Sem dúvida, é algo a celebrar. Não é todo mundo que consegue captar o zeitgeist do seu tempo e desenvolver suas manifestações culturais de uma forma tão crua, direta e ainda assim, tão natural, tão simples.





15. Alabama Shakes - Sound & Color




Depois de uma estréia avassaladora com Boys and Girls, de 2012, a expectativa era grande para saber qual seria a escolha da direção sonora da banda, se iam se aprofundar como representantes do Southern rock, pegando um pouco do blues e do soul, ou se a banda iria se aventurar mais para campos mais amplos. Brittany Howard e companhia escolheram correr o risco na segunda opção, decepcionando os mais tradicionalistas, como eu mesmo. Mas, depois de algumas ouvidas, Sound& Color torna-se, de fato, um álbum muito forte e cheio de ótimas composições. Valeu à pena correr o risco.









O veterano guitarrista de Nova Iorque lançou mais um ótimo disco de blues. Apaixonado pelo estilo desde os 13 anos quando ouviu Jimmy Reed, Earl Walker mantém um som do blues tradicional, direto e simples. Um blues puro e de primeiríssima qualidade. As dez faixas de seu sexto disco solo, Mustang Blues, são todas originais e o trabalho foi todo produzido pelo próprio Earl Walker, executadas por uma banda enxuta e muito à vontade, deixando espaço seguro para o talento de Walker na guitarra brilhar.John Earl Walker mostra que às vezes o que é preciso para fazer um bom álbum do blues é ter simplesmente... blues.





17. Leon Bridges - Coming Home



Leon Bridges foi uma das grandes surpresas do ano. Dono de uma voz espetacular, Bridges revive o melhor do que o passado pode oferecer, especialmente no campo do soul, inspirado por Sam Cook e Otis Redding.  Se há algum pecado, é ter se prendido muito ao passado. Mas, na verdade, para mim isso não é nenhum pecado. O clima “vintage” pode ser visto mesmo no clipe de “Better Man”, um dos destaques do disco.





18. Will Butler – Policy



Logo após um ano intenso com Arcade Fire, o líder da banda, Will Butler, estreia sua carreira solo com Policy, um disco singelo, simples, sem muita produção e refinamento, mas sem dúvida muito interessante. Relativamente curto, com apenas oito faixas, o álbum condensa um pouco de cada face do espírito criativo de Butler presente no trabalho principal de Arcade Fire. 





19. Siba - De Baile Solto




No último disco solo, o ótimo Avante, de 2012, Siba flertou bem mais com elementos da cultura pop do que os trabalhos anteriores, seja com o Mestre Ambrósio ou com a Fuloresta. De Baile Solto representa duas rupturas: a primeira é que ele retorna à música de raiz, ao Maracatu da Zona da Mata e também as letras se afastam um pouco do contador tradicional de histórias e surgem com um teor de crítica política bem mais intensa, como é o caso da ótima “Quem e Ninguém”.



br />
Parte I 50 a 40
Parte II 39 a 30
Parte III 29 a 20



quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Melhores Álbuns de 2015 - Parte III





20. Built To Spill - Unetethered Moon



Uma das melhores bandas alternativas dos anos 2000 e 90, Built To Spill, estava fora do circuito já há vários anos (o último disco da banda havia sido There Is No Enemy, de 2009). Para o retorno, em Unetethered Moon, Doug Martsch mostra toda a energia e a habilidade com a guitarra que fez falta durante esse tempo. Embora deslocado no tempo, já que a relevância do estilo alternativo não é mais o mesmo que era na década de noventa, Built To Spill prova que não se deve importar para isso.  








Tocando blues há 70 anos – e profissionalmente há 50 -, John Mayall, o “Godfather of The British Blues”, –, apenas um ano após o último álbum, A Special Life, mostra que, aos 82 anos, ainda permanece com um fôlego interminável e lança seu mais novo disco, chamado Find a Way To Care.  Tal qual Leo “Bud” Welch, dois álbuns em dois anos para um músico com mais de 80 anos é algo extraordinário. No caso de John Mayall é ainda mais surpreendente pelo fato do músico já estar há mais de 50 anos no ramo profissionalmente. Não é um álbum que se equipare aos clássicos da década de 60 e 70, tanto pela sua importância musical e histórica, mas para quem acompanha e é fã da extensa carreira de John Mayall é com certeza uma ótima pedida.







Diferentemente do novo filme de Star Wars, com anos de antecipação, o Star Wars, novo álbum do Wilco, foi lançado literalmente do dia para a noite. Star Wars é recebido com aquele ar atordoado, confuso, mas ao mesmo tempo extasiado, desvendando os mistérios pouco a pouco de um artefato recém-descoberto. Diferente dos trabalhos anteriores do Wilco, sempre meticulosamente planejado e executado, Star Wars é um tanto desleixado e improvisado, com canções curtas e diretas. A única que foge à regra é “Your Satellite”, que também é a melhor canção do disco.





23. Christopher Owens - Chrissybaby Forever




Christopher Owens está trilhando sozinho o seu caminho na música com o seu terceiro disco solo em três ano, Chrissybaby Forever. Se ele ainda não conseguiu alcançar o mesmo patamar de quando participava da banda Girls, que acabou no auge, logo depois do lançamento do perfeito Father, Son, Holy Ghost, este novo álbum indica que, ao menos, Owens está se aproximando desse nível, com um álbum mais maduro, conciso, o que é um ótimo sinal. Aguardemos ansiosamente então os próximos passos desse irrequieto e jovem compositor.





24. Charlie Musselwhite - I Ain't Lying




O gaitista Charlie Musselwhite é um dos poucos que ainda fazem a conexão do presente com o auge do blues na década de sessenta e que continua dando passos firmes na carreira. I Ain’t Lying, apesar de ter várias músicas já gravadas pelo próprio Musselwhite no decorrer de sua carreira, é uma seleção incrível de blues, tocada por uma banda enxuta e impecável, formada pelo mais básico que tem, guitarra, bateria, baixo e gaita, o que torna possível esticar as músicas para que cada um brilhe à sua maneira.  





25. Father John Misty - I Love You Honeybear



Depois do lançamento de I Love You Honeybear, Father John Misty, ou Joshua Tillman, está sendo um dos herois da cena indie do ano, aclamado praticamente por todas as revistas especializadas. A explicação talvez resida na sua contradição. As músicas, a maioria de uma beleza incrível, são acompanhadas por letras misteriosas, beirando o nonsense, ou até mesmo doses elevadas de ironia e crítica sobre o modo de vida americano. Ou talvez seja só a sinceridade em nível máximo. O certo é que nunca temos certeza e é isso que intriga e chama a atenção em Father John Misty.






26. Guy Davis - Kokomo Kidd



Guy Davis faz parte da última grande geração de novos bluesmen que surgiu na década de 90, junto com Correy Harris e Eric Bibb. Além de tocar blues acústico e de raiz como poucos, e ser dono de uma voz que está ali entre Tom Waits e Howlin’ Wolf, Davis é também um grande contador de estórias, o que favorece a adoção de outros estilos, principalmente o folk, tendo em vista a inspiração, já declarada, que sente por Bob Dylan, mas tem também espaço para um reggae, por exemplo. Entre originais e regravações (inclusive uma cover de “Lay Lady Lay”, de Dylan, e clássicas do blues como “Little Red Rooster” e “Cool Drink Of Water”), Guy Davis nos dá mais uma vez acesso ao seu rico universo musical.  








Mack Orr chega aos setenta com uma voz expressiva, acompanhando a energia nostálgica que flui de sua banda. Antigo coletor de algodão, que passou a trabalhar como mecânico de carro, Mack Orr possui aquela experiência de vida no duro e cruel Sul rural, o Deep South.  A autenticidade é tudo na tradição do blues. Quando encontramos um álbum como A Bluesman Looks At Seventy, vemos que o blues está forte e seguro, tal qual Daddy Mack Orr com seus setenta anos – e contando.





28. Blur - The Magic Whip



Blur foi uma das bandas mais influentes da década de 90, um dos maiores representantes do do chamado britpop. Em The Magic Whip, além de ser o primeiro álbum da banda depois de 12 anos, o líder Damon Albarn tenta condensar toda sua (variada) experiência musical durante esse tempo com o som já tradicional e moderno de Blur. O resultado é um álbum eclético e repleto de músicas interessantes e referências orientais, da capa ao título de canções como “My Terracotta Heart”, “Ong Ong” e “Pyongyang” (o álbum foi gravado em um estúdio em Hong Kong entre datas de shows no Sul da China e Indonésia). Décadas após o auge, Blur retorna para afirmar que ainda é relevante. Talvez, na longa duração, eles tenham se saído melhor do que seus rivais do Oasis nessa.





29. Andy T Nick Nixon Band - Numbers Man




A parceria entre Andy T e Nick Nixon está chegando ao terceiro disco por uma grande gravadora e à cada novo lançamento eles vão um pouco além. O vocal de Nick, um músico de Memphis e a guitarra de Andy T estão ainda mais entrosados. O gaitista Kim Wilson também faz uma participação no álbum, junto com alguns outros convidados. Numbers Man é um álbum gostoso de ouvir do início ao fim.




Parte I 50 a 40
Parte II 39 a 30



terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Melhores Álbuns de 2015 - Parte II


Segunda parte da lista do Filho do Blues de melhores álbuns de 2015, do 39 ao 30:


30. Keith Richards - Crosseyed Heart


Que Keith Richards é um sobrevivente do mundo do rock não é novidade para ninguém, mas que ele consegue lançar um disco solo tão bom quanto Crosseyed Heart certamente vai pegar muita gente de surpresa. O primeiro trabalho solo depois de 23 anos, Keith Richards se apresenta totalmente à vontade, com os seus riffs característicos de Rolling Stones, belos blues e até uma cover de reggae. Um álbum digno de um dos fundadores vivos do rock e um testemunho de sua sobrevivência.





31. Seasick Steve - Sonic Soul Surfer



Seasick Steve lançou seu sétimo álbum nesse ano, Sonic Soul Surfer, mantendo a mesma linha do blues-rock cru com muita guitarra dos anteriores, mesclando em alguns momentos com folk e country. Seasick Steve mostra que ainda tem muito vigor e vontade de fazer muito mais (no clipe de “Summertime Boy” ainda sobre energia para dar uma surfada).




32. Igor Prado Band And Delta Groove All Stars - Way Down South



Pra quem acha que a cena nacional de blues é fraca, Way Down South, novo álbum de Igor Prado e sua banda, Delta Groove All Stars, é uma resposta bastante eloqüente. Muito elogiado mundo a fora e que conta ainda com algumas participações especiais, como o filho de Muddy Waters, Mud Morganfield, Mike Welch e Sugar Rayford (só para citar alguns), Igor Prado é talvez o maior representante brasileiro do blues. A distância é grande (como mostra a capa do disco, 6.162 de São Paulo até a lendária Highway 61, mas essa distância foi reduzida bastante com Way Down South. 





33. Mercury Rev - The Light In You



Outra banda que retornou com estilo foi Mercury Rev, que lançou The Light In You depois de sete anos do último trabalho, que funciona como um retorno ao lar, apresentando o som sob o qual construíram sua carreira.






Esse é o único disco ao vivo da lista, mas tem um motivo especial. O ótimo guitarrista Joe Bonamassa quis homenagear as duas maiores lendas do Blues, Muddy Waters e Howlin’ Wolf, em um show que foi gravado para ser lançado em disco e DVD. O resultado é Muddy Wolf At Red Rocks. Muddy Wolf, além de ser, portanto, uma delícia para quem já é fã do blues, acaba caracterizando-se também como uma ótima entrada para quem deseja conhecer um pouco mais da obra desses dois maiores gênios do blues.





35. Beirut - No No No


O novo álbum de Beirut, No No No, está um pouco aquém dos trabalhos anteriores, mas, através do gênio do seu líder Zach Condon, como sempre, dispõe de momentos suficientes para chamar atenção, um trabalho curto e composto baseado em uma série de experiências traumáticas para Condon que ele, de certa forma, consegue transformar em luz como em um processo de reabilitação.   





36. The Jon Spencer Blues Explosion - Freedom Tower No Wave Dance Party



The Jon Spencer Blues Explosion é uma amálgama de sons que conectam os elementos mais dissonantes, mas que se encontram ligados através do elo da história mesmo que muitos pareçam esquecer. Fazem a conexão entre Little Richards e toda a tradição do R&B, que vai do blues ao rap e hip-hop, com punk de Iggy Pop e Stooges e o hardcore dos anos 90 com um senso de rebeldia muito forte. Por isso, muitas vezes os trabalhos da banda não alcançam o grande público, mas em Freeder Tower No Wave Dance Party eles fizeram um dos álbuns mais acessíveis de sua carreira, depois de seis anos de hiato.





37. Cidadão Instigado – Fortaleza


Cidadão Instigado é uma das bandas nacionais mais interessantes, com sua sonoridade bem peculiar, buscando sempre realizar misturas diferentes. Em Fortaleza, a cidade que é o quartel general de praticamente toda a banda, mesmo emergindo algumas experimentações, eles decidiram ir mais direto ao ponto, uma banda madura. No geral, é mais um trabalho que credencia Cidadão Instigado para um lugar de destaque no cenário musical brasileiro. 






The Mississippi Blues Child aparece como uma balança na qual Mr. Sipp ainda não está totalmente certo para qual lado pender e busca manter-se equilibrado entre um e outro. É mais uma etapa que o jovem Mr. Sipp terá que ultrapassar. Mas a verdade é simples: o lado bluesman e guitar hero lhe cai bem melhor. Mr. Sipp é um músico, jovem, cheio de energia e com sonhos de tornar-se relevante.





39. Kurt Vile - B'lieve I'm Goin Down


No seu novo album, B’lieve I’m Goin Down, Kurt Vile assume exatamente o personagem que aparece na capa, ou seja, tem aquele clima hipster rural, desleixado, que permanece durante todo o álbum, com misturas de new wave. O ponto forte são as construções melódicas e harmonias na guitarra. O ponto fraco é que o disco acaba ficando um pouco repetitivo, mas nos reservar momentos especiais, como “Pretty Pimpin’”.  




Parte I: : 50 a 40


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Melhores Álbuns de 2015 - Parte I



Iniciaremos hoje a já tradicional lista de Melhores Álbuns do Ano. Você verá que, pela primeira vez, o protagonismo que antes era do rock/indie, representado sempre pelo grande número de álbuns escolhidos na lista, foi compartilhado esse ano com o blues. Como sempre, a lista reflete tudo de mais interessante que foi lançado e ouvido no ano e mesmo que tenha sido um ano corrido, muitas vezes sem dispor de tempo suficiente para escrever todas as resenhas que gostaria ter escrito, foi o bastante para fechar a lista de 50 melhores álbuns. Com certeza, desde o início da lista, em 2011, a lista de 2015 será a mais heterogênea de todas, já que neste ano eu transitei mais confortavelmente por vários estilos. Não podia deixar de recordar da morte do Rei do Blues, B. B. King, em 14 de maio, que sem dúvida marcou profundamente o mundo musical em 2015. Então vamos parar de enrolação e comecemos logo com a lista.

O Filho do Blues apresenta, por fim, a vocês, a Lista de Melhores Álbuns de 2015:

40. Neil Young And Promise of the Real - The Monsanto Years


O ano chegou ao fim com uma boa notícia para os ativistas do meio ambiente. O acordo fechado na COP21, na França, na última semana, traz momentos de esperança de que os líderes mundiais realmente estão vendo a mudança climática como um problema sério. Um dos ativistas mais ferrenhos e “chatos” nessa luta é o velho-jovem Neil Young, que decidiu direcionar toda sua “chatice” e raiva para um único inimigo no álbum The Monsanto Years: o agronegócio, alteração genética, e empresas como Wal-Mart, Chevron, Citizens United e outras. Juntando-se a uma nova banda, a Promise of The Real, musicalmente Neil Young viajou tanto pelo rock cru de Crazy Horse quanto pelo folk melódico solo. Mas o que sobressai mesmo de Monsanto Years é a mensagem e a relevância dessa mensagem para o mundo. É a denúncia do sistema corporativo global, que compromete a democracia e os sistemas políticos em nome dos interesses econômicos e a degradação do meio ambiente. É Neil Young raivoso e mordaz.




41. Steve Earle – Terraplane



Não dá pra chamar Steve Earle exatamente de um cantor de blues, mas em Terraplane é basicamente isso que ele faz, mesclando um pouco ainda com outros gêneros da música americana. Mas claramente o foco é o blues e Steve Earle, apoiado pela banda The Dukes, consegue ser bem convincente nessa aventura musical.




42. Jackie Payne - I Saw The Blues


Jackie Payne tem moral suficiente para dizer “I Saw The Blues”. E esse testemunho, de quem começou a cantar com treze anos, é o que ele faz no novo álbum, com um blues refinado, cheio de metais, e de qualidade, cheio de referências clássicas da temática do blues, como  festas, bebidas, mulheres, etc. Blues autêntico e de primeira.





43. Tinsley Ellis - Tough Love




Tinsley Ellis é mais um guitarrista que dialoga com o pop/rock, R&B, soul e o blues, criando um som profundamente enraizado na música americana. Cada música apresenta uma variação interessante, dentre de um gênero específico. Um dos destaques sem dúvida é “Midnight Ride”, um blues no qual Ellis mostra todo seu talento na guitarra.





44. Hans Theessink & Terry Evans - True & Blue



Essa dupla fez um ótimo trabalho em True & Blue, nos entregando um blues acústico e do Delta de primeira qualidade, cheio de covers com versões bem diferentes das originais, como “Glory Of Love”, “Bourgeois Blues”,  “Maybellene” e composições originais.





45. Sufjan Stevens - Carrie & Lowell




O novo album de Sufjan Stevens, Carrie & Lowell, é emoção do início ao fim. Trata da relação familiar entre Stevens e sua mãe, que faleceu em 2012 e com seu padrasto. As músicas, num folk simples e melódico, conseguem representar um sentimento de amor, perda, conflito, de uma relação conturbada, mas profunda. Um dos mais belos e genuínos trabalhos do ano.




46. Shemekia Copeland - Outskirts Of Love




A filha do guitarrista de blues Johnny Copeland, Shemekia Copeland vem construindo independentemente uma carreira sólida e com álbuns interessantes sem precisar se valer do nome que carrega. Com uma voz poderosa, Shemekia viaja entre o soul, gospel e o blues de forma natural como poucas.  Outskirts of Love é mais um forte registro dessa ótima cantora.





47. Belle & Sebastian - Girls in Peacetime Want to Dance




A cada novo lançamento Belle And Sebastian dá mais um passo adiante no eletrônico e dance. Mas, em Girls In Peacetime Want to Dance, a banda brilha exatamente quando se parece mais com ela mesma, como na maravilhosa “Nobody’s Empire”.




48. Robben Ford - Into The Sun




Eclético álbum de Robbert Ford, Into The Sun traz vários convidados especiais que transitam pelo blues, soul, pop e rock. Um deles é Keb Mo’, que canta com Ford na faixa “Justified”






49. Bernard Allison - In The Mix




O filho de Luther Allison mostra em alguns momentos de In The Mix que herdou no sangue o talento para a guitarra. Entre covers, inclusive de seu pai, e originais, os melhores momentos do álbum é quando ele deixa fluir todo esse talento no blues direto e sem muitas maquiagens modernas, como “Set Me Free”.





50. The Decemberists - What A Terrible World What A Beautiful World




Abrindo a lista com The Decemberists, que, embora um pouco aquém do nível dos trabalhos anteriores, ainda tem What a Terrible World What a Beautiful World ainda dispõe de alguns traços épicos clássicos da banda, como em “This is Why We Fight”.




sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Resenha de Elza Soares - A Mulher do Fim do Mundo




O mundo da música é bastante surpreendente e escolher escrever sobre ele é uma tarefa pode à qualquer momento nos colocar em algumas situações inimagináveis. Explico: se me perguntassem quando iniciei o Filho do Blues que escreveria uma resenha entusiasmada de um álbum de Elza Soares eu provavelmente, incrédulo, iria sorrir desdenhosamente (mais por ignorância minha do que por falta de méritos da sambista de 78 anos, mas como não fazia parte da minha esfera musical, nunca cheguei a dar muito valor ou atenção). Pois o mundo da música, amigos, nos prega peças (ou lições) deveras curiosas. É com uma satisfação redobrada que escrevo hoje a resenha do último trabalho da cantora Elza Soares, chamado A Mulher do Mundo. Diante da correria de fim de ano, tentando organizar a lista de melhores álbuns do ano e fazendo uma derradeira busca por novidades que possa ter deixado passar, um amigo me indicou este álbum com ótimas referências. Como nos últimos anos ampliei bastante meu nicho musical, fui conferir. E mais uma surpresa: A Mulher do Fim do Mundo é um dos discos mais interessantes do ano em diversas esferas; musicalmente, o álbum transita de forma muito natural e elegante entre diversos gêneros musicais, como o samba, claro, o rock, o eletrônico, dentre outros; e, principalmente, o âmbito lírico não fica submisso ao campo sonoro e, por isso, A Mulher do Fim do Mundo é um excepcional fruto do seu próprio tempo, com letras bastantes críticas sobre as transformações, desafios, problemas e retrocessos que testemunhamos diariamente na sociedade brasileira. As temáticas são amplas e vão desde a violência doméstica, a violência policial nas periferias, questões de gênero como feminismo e sexualidade. Ou seja, Elza ainda tem muito o que dizer!



A história do disco já inicia de forma curiosa, pois mesmo com décadas de carreiras e discos lançados, A Mulher do Fim do Mundo é o primeiro disco de Elza Soares com músicas totalmente inéditas (de outros compositores). E o álbum já começa em grande estilo, com o poema “Coração do Mar”, de Oswald de Andrade, cantada à capela, que já é emendada com o samba tradicional que dá título ao álbum, “A Última Mulher do Mundo”, uma Ode à Avenida, em que Elza confirma: “Mulher do fim do mundo eu sou e vou até o fim cantar”. De fato, a música vai entrando num fade out e ela continua cantando até o fim. A faixa seguinte, “Maria da Vila Matilde” retrata a violência doméstica e os esforços para escapar deste ciclo pernicioso, com Elza dizendo várias formas de manter afastado o agressor, como ligar para o 180, colocar o cachorro pra cima dele, e, por fim, Elza canta, quase como um alívio, uma libertação: “cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”.




“Luz Vermelha” também tem uma letra reflexiva e cheia de imagens de periferia, tiroteios, que remetem a solidão e ao enclausuramento de uma metrópole como São Paulo, e aqui o samba já se encontra com a guitarra elétrica, fazendo uma mistura bem interessante, com rap e algo parecido com punk. O tom apocalíptico é resumido quando Elza, ou o anão, atesta: “bem que o anão me contou que o mundo vai terminar num poço cheio de merda”. Inclusive, papas na língua é coisa que Elza Soares realmente não tem, a começar pelo título da faixa seguinte, “Pra Fuder”, com imagens, por sua vez, bem luxuriosas, como “unhas cravadas induzem latejo”.

Em “Benedita” a temática volta a ficar séria, com a sonoridade migrando frequentemente, indo e voltando, enquanto Elza fala das frequentes vítimas de balas perdidas pelas periferias Brasil afora e do tráfico de drogas. “Benedito é uma fera ferida, traz na carne uma bala perdida”.




Na faixa “Firmeza?!”, enquanto retrata um diálogo típico da periferia, o destaque vai para Elza se aventurando um pouco mais no rap com um saxofone no fundo bem interessante. O tango mórbido e póstumo de “Dança” mantém o ritmo interessante, bem como “Canal”, com traços meio que orientais e referências históricas interessantes, como o “brilho do Farol de Alexandre”. O caminho é mais solitário em “Solto”, que contém uma orquestra, enquanto Elza mais fala do que canta. Para finalizar, “Comigo” resgata inicialmente o barulho de guitarras, mas de súbito tudo some e Elza volta a cantar à capela, tal qual o início, soltando um dos mais belos versos do disco: “levo minha mãe comigo pois deu-me seu próprio ser”.

E é assim que finaliza A Mulher do Fim do Mundo, um silêncio, seguido de mais silêncio, e, depois, lá no fundo, ainda ressoando a voz de Elza Soares, afinal, como ela mesma disse: “eu vou cantar até o fim”. Sinta-se à vontade. E perdão pela injustiça.





terça-feira, 24 de novembro de 2015

Informações complementares do novo álbum de David Bowie, Blackstar


Sempre envolto em mistérios, aos poucos as informações complementares começam a surgir sobre Blackstar, o novo álbum de David Bowie, através de coletas e fragmentos de entrevistas de alguns dos envolvidos no processo de composição do disco. Segundo a revista Rolling Stone, James Murphy foi um dos colaboradores de Blackstar, tocando percussões em duas faixas, segundo Visconti, produtor e amigo de longa data de Bowie, além de trazer alguns sintetizadores e uma tonelada de ideias, de acordo com Mark Guiliana, baterista da banda. Essa não é a primeira vez que Murphy trabalha com David Bowie. Em 2013, ele criou uma nova versão para “Love is Lost”, do então novo álbum The Next Day. Outra informação relevante de Tony Visconti coletada da matéria da Rolling Stone é a influência sonora que inspirou a mistura de ritmos e sons presentes em Blackstar. Uma delas é o jazz livre e improvisado presente na faixa título, “Blackstar”. A matéria conta como foi a operação para recrutar alguns músicos de jazz, como Donny McCaslin, que se viu surpreendido com Bowie assistindo a uma apresentação sua em Nova York. Segundo Visconti, “ele jogou tudo lá e isso foi exatamente o que queríamos fazer. O objetivo, de várias formas, foi evitar o rock & roll”. Tem de Krautrock a hip hop, e de pop ao jazz.  O cantor de hip hop Kendrick Lamar foi uma das inspirações para essa mistura, apesar de não ter nada de hip hop, mas Visconti explica que o fato de Lamar ter sido tão mente aberta foi muito inspirador.

Sobre a faixa título “Blackstar”, que teve seu vídeo lançado na semana passada, era originalmente duas canções (como se pode perceber em dado momento), mas que Bowie e Visconti conseguiram juntá-las. Visconti diz ainda que ela teve que ser cortada para poder ser o primeiro single do novo disco, já que o Itunes não cabe singles com mais de 10 minutos de duração. Como Bowie estava decidido a ser “Blackstar” o single e não queria também que houvesse duas versões da música, ele fez o corte para os 9:57s. Segundo o membro da banda, Donny McCaslin, a letra de “Blackstar” é sobre o Estado Islâmico.

Títulos de outras faixas também foram divulgados, como “Girl Loves Me”, uma  balada chamada “Dollar Days”, que David compôs no estúdio, “I Can’t Give Everthing Away” e “Tis a Pity She Was a Whore”, que já havia sido lançada como B-Side de “Sue (In A Season Of Crime”, em 2014.

A capa de Blackstar foi desenhada pelo designer Jonathan Barnbrook, que já fez as capas de The Next Day, Heathen e Reality e é a primeira que não traz a imagem de Bowie na capa. Resumindo seu trabalho em Blackstar, Jonathan diz: “Blackstar é um álbum sombrio sobre tempos sombrios. Eu espero que no que eu fiz tenha algo que ressoe com a escuridão das músicas de alguma forma”.

A empolgação com o trabalho realizado transborda de Tony Visconti quando ele fala de Blackstar: “Quando ele lançou álbuns como Heroes e Low, ninguém estava fazendo algo assim. E então ele fez nascer uma Nova Era Romântica. Ele é um destruidor de gêneros e eu mal posso esperar para os álbuns de imitações de Blackstar começarem a sair”. Pelo visto, Tony está apostando alto! 



quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Confira a nova música de David Bowie, Blackstar


                No imaginário de David Bowie uma coisa é certa: aventurar-se pela sonoridade eletrônica está vinculado a uma escolha estética bastante sombria e lúdica. Foi assim nos discos Outside, de 1995 e Earthling, de 1997, onde Bowie viajou bastante pelo rock industrial  eletrônico. Para o novo disco, programado para janeiro, chamado Blackstar, David Bowie já avisou que ele é construído inspirado na eletrônica do final dos anos 70. Hoje, com o lançamento da épica faixa título “Blackstar” , com dez minutos de duração, Bowie realizou mais uma transformação completa: dessa vez ele faz o papel de um profeta cego e amaldiçoado. Uma letra apocalíptica e profética completam o tom sombrio."On the day of execution, on the day of execution, lonely women kneel and smile". Uau. Medo. Caveiras, astronautas mortos em planetas distantes, mulheres com rabos e rapazes frenéticos dançando e rituais junto com um Bowie vendado com apenas dois pontos negros nos olhos, fecham a cena. Musicalmente, as batidas eletrônicas viajam juntos com sintetizadores e saxofones em uma viagem interplanetária jazzística. No meio da música, há uma ponte completamente diferente, só no piano, que recomeça com outro ritmo, completamente diferente, com vozes em tonalidades diferentes. Algo que só Bowie poderia construir, imaginar e, sem dúvida, realizar. Após quatro álbuns sem arriscar muito, em Blackstar parece que Bowie dá mais um grande salto em sua carreira e completa mais uma transformação. Clique em play no vídeo abaixo e prepare-se para o êxtase.