O Filho do
Blues, em teoria, é apenas um blog de música; mas dissociar a música,
especialmente músicas de resistências como o blues, o jazz e muito do rock (que
são os gêneros mais comentados por aqui), do mundo da política, do ativismo
político, é totalmente impossível para mim. No próximo domingo, dia 17 de
abril, o Brasil estará passando por um momento histórico muito sério, que
poderá ter consequências profundas no desenvolvimento e na qualidade da
democracia brasileira. No domingo, dia 17, estará sendo votado na Câmara dos
Deputados o processo de impeachment da Presidente da República, Dilma Rousseff.
Diante disso, o Filho do Blues assume claramente a posição contrário ao
impeachment, que ao meu ver é um Golpe de Estado, por não estar caracterizado
nenhum crime de responsabilidade cometido diretamente pela pessoa da Presidente
da República; vejo o processo com profunda preocupação para a estabilidade da
democracia brasileira, pois um precedente como esse (um impeachment sem crime)
é perigoso e não oferece a segurança institucional que a democracia precisa
para florescer e melhorar; vejo, ainda, o processo como um movimento
oportunista da oposição que não aceitou o resultado das urnas das eleições de
2014 e, aliado aos setores da mídia, passaram ao “tudo ou nada” para voltar ao
poder sem ser pelas vias do sufrágio universal; vejo um movimento de golpistas,
aproveitadores e corruptos que, organizados corporativamente, buscam salvar as
próprias peles e impedir o combate à corrupção que tem acontecido no país nos
últimos anos; vejo, por fim, esse movimento ilegítimo como uma ameaça aos
direitos e conquistas sociais alcançados nos últimos 13 anos, pois representam
a visão de mundo retrógrada, conservadora, mesquinha e cerceadora de direitos,
bem como a concepção de Estado, que sempre buscou a liquidação do patrimônio
nacional para interesses estrangeiros, que sempre buscou enxugar o Estado a um
mínimo possível, deixando as pessoas menos favorecidas à sua própria sorte.
Atesto minha posição nesse momento único da história brasileira como forma de
dizer para o futuro que não me abstive, não fiquei em cima do muro, não fugi ao
debate, não cedi aos discursos de ódio, bem como não me entreguei ao
radicalismo burro de acusações infrutíferas para o lado contrário, considerando
as pessoas que pensam diferente de mim como “inimigos” que devem ser
eliminados. Dificilmente, independente do resultado da votação no próximo
domingo, dia 17, o Brasil sairá desse processo sem profundas cicatrizes. E
todos nós, sem exceção, somos os responsáveis pelo que vier.
terça-feira, 12 de abril de 2016
sábado, 12 de março de 2016
Resenha de Mavis Staples: Livin' On A High Note
No
ano passado, a histórica sambista brasileira Elza Soares recebeu uma série de
composições inéditas feitas especialmente para serem cantadas por ela; o
resultado dessa parceria foi o incrível álbum A Mulher do Fim do Mundo,
aclamado pela crítica. O mesmo aconteceu com Mavis Staples, que recebeu de
vários compositores as músicas do seu novo álbum, Livin’ On A High Note,
lançado em 19 de fevereiro. Assim como Elza Soares no Brasil, Mavis Staples é
uma cantora histórica, com mais de sessenta anos de carreira, contando com os
anos que era a líder da banda da sua família, Staple Singer. Os últimos anos
tem sido especiais para Mavis, que ressurgiu com uma sequência de ótimos
álbuns, tendo vencido inclusive um Grammy com You Are Not Alone, de 2010,
seguido por One True Vine, de 2013, ambos produzidos pelo líder da banda indie
Wilco, Jeff Tweedy. Embora a parceria tenha funcionado muito bem, Mavis Staples
optou por mudar de produtor para Livin’ On A High Note, escolhendo M. Ward,
incorporando mais o blues, soul e folk. Ward ficou incumbido de coletar músicas de diferentes compositores
feitas exclusivamente para serem cantadas por Mavis. Dentre os que entraram na
brincadeira estão nomes como Nick Cave, Ben Harper, Justin Vernon (Bon Iver),
Neko Case, M. Ward, Tune-Yards e Son Little. O resultado ficou esplêndido. Além
da potente voz da cantora de 76 anos, as temáticas das letras são outro ponto
forte de Livin’ On A High Note; são problemáticas atuais, baseadas no que está
acontecendo no mundo hoje, que a música, se não pode curá-las, pode transmitir
energias e mensagens que podem ajudar as pessoas a lidar com as situações. Na
maioria das vezes, o disco também é bastante positivo, esperançoso, acreditando
num futuro melhor para todos nós se formos fortes, solidários e determinados o
suficiente para agirmos de acordo com nossas possibilidades.
A
primeira música é “Take Us Back”, composta por Benjamin Booker, uma música para
espantar o desânimo de qualquer um. Com ritmo acelerado e funky, Mavis agradece
o apoio e o amor das pessoas, amigos e familiares, que ajudam na vida,
sobretudo nos momentos de preocupação e dúvida, e nos mantém com vontade de
seguir. “I've got friends and
I've got, I've got Family I've got help from all the people who love me”, canta
Mavis no refrão. A faixa seguinte, escrita por Ben Harper, “Love And
Trust”, as duas coisas que todos buscam incessantemente, seja o juiz ou o
criminoso, o pecador ou o padre. “Haven't we suffered, suffered enough Now we're out here tryin' to find
some love and trust”.
Uma
das mais belas músicas do álbum é “If It’s A Light”, quase como uma prece, uma
mantra para que a ínfima luz que surge não se apague. Temas políticos também
ocorrem em Livin’ On A High Note, como é o caso de “Action”, composição de
Merrill Garbus, na qual Mavis conclama a todos que estão cansados de ficarem
cansados, todos os que estão com medo para a ação política de fato. Foi
inspirada pelos recentes episódios de violência policial contra a população
negra dos Estados Unidos e pelo movimento ativista Black Lives Matter. “Consider this a sign of an
emergency who's gonna do it if I don't do it?”. A voz pertence somente a
uma das pessoas que estavam com Martin Luther King no movimento pelos direitos
civis na década de 60. Ela sabe do que fala. “Don’t Cry” começa como um gospel
acústico, mas depois acelera o ritmo numa conjunção de sons. É uma música de
resistência contra todos que lhe querem fazer mal, que querem lhe usar, afinal,
“It's your innocent blood they want, it's your innocent mind”.
“Tomorrow”
é mais uma música com mensagem positiva, otimista, de esperança. “Dedicated”,
composta por Justin Vernon e M. Ward, também trata de superação, mas desta vez
no âmbito dos relacionamentos. Aí finalmente chega na melhor música do álbum,
em relação a letra, à música, tudo: “History, Now”, escrita por Neko Case,
Laura Veirs e Donny Gerrard; a letra é uma aula de noção da história, quais as
lições tiramos dela e como iremos pautar nossas atitudes no presente.
Infelizmente é a mais curta música do álbum, passando pouco dos dois minutos. A
letra é toda incrível, daqueles que apenas fechamos os olhos e sentimos o
impacto de cada verso:
“Born into a fight
An inherited war
Born to children left over from wars before wars and the wars before
You do see a pattern right
Yet somehow our love doesn't die
What do we do
With this history now
Do we go in like a surgeon
Do we go in like a bomb
How do we dismantle the sorrow and rage
And pick up our scars off the ground
Those girls and boys who died and lived for us
So we could speak and love and be with you now”
As duas últimas músicas também são de tirar o fôlego. Em “Jesus Lay Down Beside Me” a imagem é surpreendente: o desespero é tão grande que ela está suplicando a Jesus para que se deite junto com ela para descansar diante de tanta preocupação e tristeza, já que a Sua verdade não foi ouvida e agora estamos num mar de ganância e desamor. Aqui Jesus é quem está desolado e necessitando de ajuda, de um refúgio. Lindo e triste. Para fechar o álbum, a acústica “MLK Song” (as iniciais de Martin Luther King) é formada por palavras tiradas de um discurso de Dr. King, chamado “The Drum Major Instinct”, proferido em 1968, que conclama todos para os sentimentos de solidariedade, de cristianismo, de justiça, cada um fazendo sua parte na construção de um mundo melhor, na marcha pela paz, já que, como Mavis diz: “And in the march for peace tell them I played the drum”.
Livin’ On a
High Note está enquadrado no contexto de reação dos representantes da
comunidade negra dos Estados Unidos de se levantar e denunciar a ultrajante
violência sofrida pelos seus jovens. O fato de vir de uma remanescente dos
movimentos de luta pelos direitos civis da década de 60 torna a mensagem ainda
mais marcante para os mais novos. A julgar por Livin’ On A High Note, Mavis
Staples ainda tem muito que dizer. Voltando ao paralelo com Elza Soares, se em
2015 Elza Soares foi a Mulher do Fim do Mundo, na esfera profana, então Mavis
Staples é a Mulher do Fim do Mundo na esfera do sagrado. Mavis Staples oferece pouco de paz e esperança em meio ao turbilhão.
quinta-feira, 3 de março de 2016
Resenha: Dion - New York Is My Home
O
guitarrista Dion está na ativa há quase tanto tempo quanto o Rock n’ Roll.
Iniciando a carreira no final dos anos 50, Dion foi um dos maiores
representantes do chamado doo wop de Nova York. Desde então, o guitarrista,
natural do Bronx, flertou com o pop, o blues e o R&B, numa carreira de mais
de cinquenta anos, naturalmente cheia de altos e baixos. Atualmente, no
entanto, Dion está nas alturas, embalado por uma sequência de mais de dez anos
de ótimos lançamentos, todos eles com um elemento em comum: o blues e o
folk-rock. Desde de Bronx in Blue, de 2005, Dion já brilhou novamente com Son of
Skip James, de 2007, Tank Full Of Blues, de 2012 e agora, aos 76 anos, presta
uma singela homenagem à sua cidade natal com o disco New York Is My Home.
O
disco começa com o rock da divertida “Aces Up Your Sleeves”, que já mostra que
Dion está com a voz melódica e firme e os solos de guitarra em ótima forma. Já
com “Can’t Go Back To Memphis”, um blues clássico sulista, Dion encarna um
personagem endiabrado que não pode voltar para sua cidade porque todos os
policiais e padres sabem o seu nome e por isso ele tem que ficar por aí
rodando. Blues puro. A faixa que dá título ao álbum, a folk “New York Is My
Home”, a mais calma do disco, é um belo dueto com outro cantor bastante ligado
à “cidade que nunca dorme”, Paul Simon. Uma bela homenagem à frenética cidade. Em “The Apollo King” a festa volta com tudo, lembrando o
rock dos anos 50 de Chuck Berry; a letra celebra a vida do saxofonista de
R&B, Big Al Sears, membro da banda da lenda Duke Ellington.
“Katie
Mae”, uma das duas covers do álbum, e também uma das melhores faixas do álbum,
Dion revisita o clássico de Lightnin’ Hopkins, criando uma versão que sem
dúvida possui vida própria. Depois de “I’m Your Gangster Of Love”, vem mais uma
original de Dion que é puro blues. “Ride With Me” é uma das mais intensas do
álbum, como já sugere os primeiros segundos da música, o motor de uma moto
sendo ligado e dando partida. Durante todo o tempo a música é só movimento,
ação, força, ou seja, toda a jovialidade do velhinho de 76 anos. A vitalidade
continua presente na faixa seguinte, “I’m All Rocked Up”. O disco caminha para
o final com mais uma homenagem; em “Visionary Heart”, que lembra um pouco
algumas baladas de Bruce Springsteen, Dion imagina uma carta para Buddy Holly
(eles estavam juntos em turnê quando Buddy Holly, The Big Bopper e Ritchie
Valens morreram no acidente de avião em 1959). Dion se refere a esse triste
episódio na letra, “the day the music died”. Para finalizar, uma versão de “I
Ain’t For It”, originalmente por Tampa Red.
New
York IsMy Home é um tipo de consagração para Dion, que ultimamente tem se
dedicado a fazer um blues “made in Bronx”. Além disso, é um lembrete de alguém
cuja presença nem sempre foi tão marcante como deveria, mas que nunca se
retirou de cena em mais de cinquenta anos de carreira. Dion está na ativa,
felizes aqueles que se dão conta de sua presença e se dispõem a ouvi-lo.
sábado, 27 de fevereiro de 2016
Resenha: God Don't Never Change: The Songs of Blind Willie Johnson
O
guitarrista e cantor de gospel, Blind Willie Johnson, pertence à primeira
geração do blues, chamado de “Prewar Era”, ou seja, anterior à Segunda Guerra
Mundial, e também sendo conhecido como “Classic Years”, que compreende o
período de 1920 até 1932. Muitos tiveram o primeiro contato com a obra de Blind
Willie Johnson apenas a partir do documentário de 2003, The Soul Of A Man, dirigido
por Wim Wenders, da série The Blues, produzida por Martin Scorsese. Willie
Johnson, nascido no Texas, em 1897 e do qual pouco se sabe sobre a sua pessoal
além de depoimentos pessoais muitas vezes contraditórios – de amigos e
conhecidos, sua curta obra e seu obituário, este cego cantor de rua foi um dos
principais expoentes desse período que delineou bases essenciais para a
evolução do estilo blues para os anos seguintes. Sua carreira musical, em
termos de gravação, foi curta e meteórica, produzindo, no entanto, alguns dos
maiores clássicos de dois gêneros musicais, o blues e o gospel (ele é
considerado mais como gospel, apesar de ter tido uma profunda influência no
blues). Willie Johnson, inclusive, foi quem melhor uniu esses irmãos
briguentos, mas que não conseguem viver muito separado um do outro. Entre 1927
e 1930, Blind Willie Johnson gravou 30 músicas pela Columbia Records. E é isso,
fim da história. Bem, possivelmente esse seria realmente o fim da história se
dentre aquelas trinta canções não estivessem, por exemplo, “Motherless Children
Have a Hard Time”, “Dark Was The Night-Cold Was The Ground”, “Soul Of A Man”,
“Nobody’s Fault But Mine”, “Jesus Is Coming Soon”, dentre várias outras que se
transformaram em grandes clássicos, tanto para a música gospel quanto para o
blues. Depois da piora da Grande Depressão, em 1930, Willie Johnson abandonou a
carreira musical e provavelmente se tornou um pastor, em Beaumont, Texas. Após
um incêndio em sua casa e sem ter para onde ir, Willie Johnson e sua esposa
tiveram que dormir sob as cinzas, onde acabou morrendo em 1945 de pneumonia, após
sua entrada no Hospital ter sido recusada por ser cego.
É exatamente a
vida e a obra desse cantor de rua cego que é celebrada na coletânea God Don’t
Never Change: The Songs of Blind Willie Johnson, projeto dirigido por Jefferey
Gaskill no decorrer de mais de uma década, que conta com a participação de
grandes nomes da música atual, como Tom Waits, Lucinda Williams, Derek e Susan
Tedeschi, The Blind Boys of Alabama, dentre outros. Blind Willie Johnson foi,
por definição, um porta-voz do divino, do eterno, do espiritual. E esse grupo
de artistas selecionados para o projeto entendeu isso talvez melhor do que o
próprio Johnson, resultando, sem dúvida, em uma obra-prima desse gênero de
coletânea. Na maioria das vezes, um projeto que usa muitos artistas diferentes
para regravar uma obra específica fragmenta-se em pedaços de gravações isoladas
umas das outras. Não há unidade. É como um seminário na Universidade em que um
grupo divide um capítulo para cada pessoa, cada um estuda só o seu, apresenta
sua parte e pronto. God Don’t Never Change foi um projeto no qual cada um dos
indivíduos envolvidos sabia exatamente a dimensão, o significado histórico e
emocional da obra em questão. A essência da obra de Willie Johnson está sempre
presente, ou seja, Deus, o divino, não importa quem esteja empunhando os
instrumentos e cantando ao microfone; a áurea divina, congregacionista, sem
mencionar a qualidade técnica, permeia toda a obra. A grande variedade de
artistas e, por conseguinte, de releituras, acabou sendo um elemento enriquecedor
ao invés de causar uma fragmentação da obra. Outro fator digno de nota é a
ampla participação feminina no álbum: das 11 faixas, 4 são lideradas por homens
(Tom Waits fica a cargo de duas; The Blind Boys of Alabama com um e Luther
Dickinson com a outra) e as 7 restantes são lideradas por mulheres (Lucinda
Williams fica com duas, Susan Tedeschi recebe o acompanhamento de seu esposo,
Derek Trucks, Cowboy Junkies, Sinéad O’Connor, Maria McKee e Rickie Lee Jones
ficam com uma cada) e mesmo nas faixas que não são dominadas pelas mulheres,
sua presença está sempre ali nos corais. Apesar de poder soar estranho para uma
obra em homenagem a um cantor solo dono de uma das vozes mais graves da música,
quando lembramos que muitas de suas gravações foram acompanhadas por sua
esposa, Willie B. Harris, a predominância feminina é totalmente compreensível e
muitíssimo bem vinda.
A
primeira contribuição de Tom Waits é a faixa de abertura, “The Soul of A Man”;
sem dúvida, dentre as vozes disponíveis no “mercado”, Tom Waits é a escolha
natural e a que mais se aproxima à de Willie Johnson e seria fácil apenas
imitar a versão original de Johnson. No entanto, Waits deu uma acelerada no
ritmo da música, tornando-se um daqueles pastores que colocam a congregação
abaixo, enquanto a marcação é feita pelas palmas que remetem à congregação
religiosa, recurso presente em várias outras faixas. Poucos conseguiram
penetrar tanto na alma humana como na letra dessa música e ainda assim sair de
lá sem saber o que é a alma humana. Na sua segunda contribuição, “John The
Revelator”, Tom Waits parece renovado, resgatando a voz de um cantor de rua que precisa que sua voz alcance o máximo de pessoas possível; para mim, pessoalmente, o grande desafio era encontrar
a honestidade e profundidade espiritual e religiosa para encarnar um
tradicional cantor gospel, sobretudo Blind Willie Johnson, especialmente para
alguém, tal qual Tom Waits, que não está preso aos limites da arte e gosta de
vagar por temas delicados e, por vezes, contraditórios com a religião; para
alguém que cantou em “don’t you know there ain’t no devil that’s Just God when
he’s drunk”, minha preocupação era justificada, já que a parcela de sinceridade
e profundidade é tão importante no conceito e na obra de Blind Willie Johnson.
O resultado é que pela transformação tão grande em Tom Waits e não abandonando
seu estilo tradicional, parece que ele pode cantar gospel e espirituais agora o
resto da carreira, mantendo seu estilo gutural e underground. “John The
Revelator”, a tradicional música gospel de pergunta e resposta com referências
da Bíblia, é a prova disso.
Quem
também ficou com duas faixas foi Lucinda Williams, soando incrível em cada uma
delas. O estilo de slide, tradicional de Willie Johnson está presente em vários
momentos do álbum, mas é Williams que consegue fazê-lo de forma magnífica. A
primeira é “It’s Nobody’s Fault But Mine” e a segunda é a faixa que dá título
ao álbum, “God Don’t Never Change”. Lucinda Williams brilha igualmente em
ambas. Derek Trucks e Susan Tedeschi ficaram encarregados de “Keep Your Lamp
Trimmed and Burning”; inclusive, na original, de 1928, Willie Johnson divide os
vocais com sua esposa, Willie B. Harris. Na apocalíptica “Jesus Is Coming
Soon”, sobre o desastre da gripe espanhola de 1918, que matou em torno de 5%
das pessoas em todo o mundo, a banda canadense Cowboys Junkies conta com a
participação mais especial de todas, o próprio Blind Willie Johnson. A música
começa com um trecho da gravação original, gravada em 1928; no refrão, essa
versão original retorna, mas agora acompanhada pela banda completa. O
tradicional e o moderno. Absolutamente incrível.
É
difícil escolher qual seria a melhor faixa do álbum, mas sem dúvida uma delas
teria que ser a belíssima e tocante “Mother’s Children Have a Hard Time”,
tocada por The Blind Boys of Alabama; o conjunto, a letra, a música, a harmonia
das vozes, tudo faz com que a música inteira causa arrepios emocionantes. O desespero de um filho sem mãe está
presente em cada um do Blind Boys of Alabama quando cantam: “Motherless
children have a hard time, mother's dead They'll not have anywhere to go,
wanderin' around from door to door Have a hard time” Com Sinéad O’Connor, em
“Trouble Will Soon Be Over”, a pesada carga emocional permanece nas alturas. Poucas
preces soam tão poderosas quanto essa música. Luther Dickson se junta a banda
de pífano Rising Star Fife & Drum Band e traz o som da África Ocidental
junto com eles para tocar “Bye and Bye I'm Going To See The King”. Maria McKee se destaca na versão de “Let Your
Light Shine On Me”. Das 11 músicas, a única na qual a equação não funcionou,
infelizmente, foi em “Dark Was The Night-Cold Was The Ground”, com Rickie Lee
Jones; o motivo é simples: ao vocalizar, tentar cantar na faixa instrumental
mais clássica de Willie Johnson, ela acabou retirando toda sua magia e mística,
que são os incríveis e belíssimos solos de slide, absolutamente intraduzíveis
para qualquer língua falada que seja. Mas, em relação aos outros companheiros
no projeto, Rickie Lee Jones ficou certamente com a missão mais difícil de
todas, pois mexer na música que está viajando pelo Universo abordo do The
Voyager não é fácil.
Uma
publicidade feita pela Columbia Records nos anos iniciais da carreira meteórica
de Blind Willie Johnson dizia: “Hear Blind Willie Johnson spread the light of
old-time faith”; God Don’t Never Change: The Songs of Blind Willie Johnson é
mais do que uma simples coletânea para celebrar a carreira de um artista já
morto; é mais do que apenas preservação de um legado histórico; é muito mais do
que um golpe de publicidade, do que a reunião de artistas famosos para vender
um álbum. Se for verdade o que dizem que a música é uma janela para Deus; bem,
então God Don’t Never Change: The Songs of Blind Willie Johnson é a uma das janelas
mais belas e iluminadas que foram abertas na música.
Marcadores:
2016,
Blind Willie Johnson,
Blues,
Cowboys Junkies,
Gospel,
Lucinda Williams,
Luther Dickinson,
Resenhas,
Review,
Rickie Lee Jones,
Sinéad O'Connor,
Tedeschi Trucks Band,
The Blind Boys of Alabama,
Tom Waits
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
Mavis Staples canta "Take Us Back" no The Late Show With Stephen Colbert
A
cantora de gospel/soul Mavis Staples, a vocalista principal da banda The
Staples Singers, aos 76 anos, acaba de lançar mais um novo disco, Livin’ On A
High Note. Para promover o novo lançamento, Mavis Staples foi a convidada
musical para o programa The Late Show With Stephen Colbert, e tocou a faixa de abertura
do disco, a funky “Take Us Back”, escrita por Benjamin Booker especialmente
para Mavis, um reconhecimento a todos os amigos e familiares que a ajudaram e a
incentivaram a continuar fazendo música. Confira a apresentação abaixo:
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Tributo a David Bowie: Lorde e a banda de apoio de Bowie tocam "Life On Mars?" no BRIT Awards
Há
tributos e tributos; e depois da morte de David Bowie, pela amplitude de sua
carreira artística e musical, é natural que receba homenagens tão variadas
quanto a alcunha de camaleão. Praticamente todo mundo está incluindo uma música
de David Bowie no seu set e acrescenta um toque que considera especial para
retratar sua relação pessoal com a obra e a vida de Bowie. Todos são válidos. É absolutamente natural e, por toda a
dignidade que sua carreira representa, os fãs e a mídia em geral não deveria
cair na tentação de criticar severamente cada homenagem que David Bowie
receber. Foi o caso da performance de Lady Gaga e Nile Rodgers no Grammy Awards,
que suscitou inúmeras críticas, uma das quais veio inclusive do filho do
próprio cantor, Duncan Jones. De uma forma ou de outra, foi um devido tributo a
um grande artista; cada indivíduo influenciado por Bowie foi sensibilizado de
uma forma diferente e, acredito eu, Gaga colocou no palco uma forma de
representação que ela considerou digna.
Por
outro lado, ontem foi a vez de outra grande premiação honrar o nome de David
Bowie e que certamente levou o nome “tributo” a outra dimensão. O BRIT Awards, para conceder o Icon Awards postumamente
a David Bowie, entregue por Annie Lennox a Gary Oldman, que o recebeu em nome
de Bowie, contou com a cantora Lorde, apoiada por uma banda de gigantes do
universo da carreira do cantor britânico falecido em 10 de janeiro: Mike
Garson, Gail Ann Dorsey, Earl Slick, Gerry Leonard, Sterling Campbell e Catherine
Russell. Após um breve medley com segundos de alguns dos principais riffs de
Bowie (“Space Oddity”, “Ashes To Ashes”, “Rebel Rebel”, Ziggy Stardust”, “Fame”,
“Under Pressure”, entre outros), a sequência desemborcou em “Life On Mars?” e
foi quando Lorde entrou num palco totalmente vermelho e roubou a cena com sua
presença e sua voz. Ao final da apresentação, Lorde, visivelmente emocionada,
agradece a todos. Duncan Jones, que criticou severamente a homenagem de Lady
Gaga e Nile Rodgers, tratou logo de prestar o reconhecimento ao tributo de
Lorde e da banda pelo twitter.
Bem,
como disse mais acima, cada tributo carrega um toque pessoal definidor de quem
está realizando o tributo e todos sabem que quando se trata de definição, David
Bowie não se enquadra em representações categóricas e simétricas. No entanto,
quanto ao tributo prestado por Lorde e pela banda de turnê de David Bowie,
ontem, no Brit Awards, basta dizer que se não definidor, foi simplesmente
insuperável.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
Confira Wilco ao vivo no programa NPR Music Tiny Desk Concert
A
banda Wilco já é figura carimbada no programa NPR Music Tiny Desk Concert (apareceu no programa em 2011 e, no ano passado, Jeff Tweedy também deu as caras), no
qual a banda convidada toca algumas músicas em um ambiente cheio de livros e
discos, bem informal. Na última visita, Wilco tocou uma música de Star Wars,
álbum mais recente da banda, “The Joke Explained”, e seguiu o pequeno set com
algumas clássicos máximos da carreira, como “Misundestood”, de Being There,
além de duas do álbum Summerteeth, “I’m Always In Love” e “Shot In The Arm”.
Ótima ocasião para ver Wilco totalmente desplugado e, como sempre, bastante
inventivo.
Assinar:
Postagens (Atom)


