No
auge do isolamento social ao redor do mundo, que impede os familiares, amigos e
trabalhadores de diversos setores, inclusive o artístico, de se reunirem e
tocarem suas próprias vidas, o mundo do blues se preparou para tomar o mundo de
inveja em meio à pandemia de coronavírus. Enquanto nós só podemos fazer lives
solo, por coincidência ou não, nos próximos meses vem uma sequência de
lançamentos de artistas que usaram e abusaram da reunião de amigos fazendo e
compartilhando aquilo que amam: o blues.
O
primeiro desses projetos é encabeçado por uma dupla já bastante conhecida no
cenário do blues: o guitarrista John Primer e o incansável gaitista Bob
Corritore. Dois grandes nomes contemporâneos do Chicago Blues, eles lançam no
início de maio mais um álbum juntos (o terceiro), com o título de The Gypse
Woman Told Me, claramente inspirada pela música de Muddy Waters. Outros nomes
que integram a banda colaborativa são Billy Flynn, Kid Andersen, Bob Welsh,
Jimi “Primetime” Smith, dentre outros. Eles liberaram a faixa título como um
aperitivo do que vem pela frente.
Outro
lançamento que promete é o novo trabalho do cantor, compositor e guitarrista,
Dion, membro do Hall da fama do Rock. Apesar de não ser um artista estritamente
do blues, Dion possui alguns álbuns muito bons, inteiramente dirigidos ao
gênero, como Bronx In Blue (2006), Son of Skip James (2007), Tank Full of Blues
(2011) e New York is My Home (2016). O novo trabalho é chamado Blues With
Friends e é bem ambicioso em relação aos colaboradores, que vão do novo ao
antigo: Joe Bonamassa, Jeff Beck, Billy Gibbons, Sonny Landreth, Paul Simon,
Samantha Fish, Rory Block, Bruce Springsteen, entre outros. “Eu precisava pegar
os melhores guitarristas e músicos vivos de cada geração, de toda variação do
blues”, diz Dion. E não se trata de um álbum de covers de blues, mas sim de
músicas autorais compostas por Dion entre o final de 2019 e início de 2020. Duas coisas para deixar mais na
vontade; a primeira, a nota escrita pelo próprio Bob Dylan sobre o álbum: “Dion
knows how to sing and he knows just the right way to craft these songs, these
blues songs. He’s got some friends here to help him out,
some true luminaries. But in the end, it’s Dion by himself alone, and that
masterful voice of his that will keep you returning to share these blues songs
with him.” Em seguida, ficamos com a primeira música do disco, “Blues
Comin’ On”, com Joe Bonamassa.
O
terceiro lançamento da lista de reunião entre amigos e colegas é Blues Comin’
On (mesmo nome da nova música de Dion, mas aparentemente sem relação entre
elas), do guitarrista de blues-rock Joe Louis Waker. O disco será lançado em junho, mas já
tem um aperitivo. Louis Walker
divulgou “Old Time Used To Be”, acompanhado por Keb’ Mo’. Outros nomes
que se juntam a Joe Louis Walker são Eric Gales, Albert Lee, Mitch Ryder, Lee
Oskar, dentre outros.
A lendária banda The Rolling
Stones despertou com a primeira música inédita em oito anos. “Living in a Ghost
Town”, escrita por Jagger e Richards, começou a ser criada antes da pandemia de
coronavírus, mas depois que ela surgiu eles sentiram a necessidade de retomar a
gravação e concluí-la. Digamos que é a versão dos Stones para “O Dia em que a
Terra Parou”, de Raul, adaptada aos novos tempos de isolamento social e ruas das
cidades desertas. Confira o vídeo e a letra de Living in a Ghost Town logo
abaixo:
Essa febre de lives durante a
quarentena inspirou artistas do mundo todo para se reunirem virtualmente numa
ação mobilizadora em torno do combate ao novo coronavírus. A ONG Global Citizen
organizou, junto a Lady Gaga, o evento One World: Together At Home, com o
objetivo de angariar fundos para compra de suprimentos para os profissionais de
saúde que estão na linha de frente nessa guerra ao covid-19. Gaga conseguiu
mobilizar uma grande quantidade de artistas ao redor do mundo para participar
do evento, que rolou ontem, dia 18 de abril.
O blog selecionou as
apresentações mais interessantes:
The Rolling Stones – You Can’t Always Get What
You Want
Paul McCartney – Lady Madonna
Elton John – I’m Still Standing
Eddie Vedder – River Cross
Stevie Wonder performs "Lean On Me" /
"Love's In Need of Love Today
Camila Cabello & Shawn Mendes - What A
Wonderful World
E você, gostou de mais alguma apresentação? Coloca aí pra gente.
Por diversos
motivos, emocionais, artísticos/estéticos e políticos, o rock vem me
decepcionando nos últimos anos, sobretudo após a morte repentina de David
Bowie, o que pode não ter nada a ver, mas para mim foi um marco referencial. Para
agravar a situação, outras bandas que eram referências para mim foram
decepcionando a cada novo lançamento. Arcade Fire, Queens Of The Stone Age, são
só dois grandes exemplos dessas bandas que acabaram cedendo a tendências do
mundo pop e eletrônico, especialmente uma onda new-wave, que, ironicamente, era
bastante influenciada pelos experimentos de Bowie. Ao saber que Pearl Jam iria
lançar um novo álbum, o primeiro desde Lightning Bolt, de 2013, confesso que
fiquei receoso que a banda abriria mão do seu estilo clássico e cederia às
exigências do mundo fonográfico em busca de ampliar seu público. O mundo já não
seria mais o mesmo: David Bowie estava vivo e surpreendendo o mundo como
sempre, com o disco The Next Day, Arcade Fire lançava Reflektor, e Queens Of
The Stone Age completava o belo ano musical com ...Like a Clockwork. Por fim, esse
receio veio acompanhado de um calafrio ao ouvir o primeiro single de Gigaton,
nome do novo disco, “Dance of The Clairvoyants”, que reúne todos os elementos
que temia. Mas nada como um dia após o outro. Gigaton é um dos discos mais
ricos e interessantes da banda, que já tem em seu catálogo grandes clássicos
desde a década de 90.
A partir da
capa de Gigaton e através de suas músicas, percebe-se claramente a preocupação
de Pearl Jam com a política, em especial o tema do meio ambiente. A variedade
de sons é bem grande, mostrando a experiência e a riqueza do percurso em três
décadas de carreira. Tem as faixas mais pesadas, no estilo clássico, outras
mais experimentais e introspectivas, bem como acústicas.
O disco começa
com “Who Ever Said”, mostrando já de início toda a energia que a banda ainda
dispõe ao afirmar que ainda tem o que dizer, pois, como diz a letra, “quem
disse que tudo já foi dito abriu mão da satisfação”. A música também conta com
variações rítmicas bem interessantes. “Superblood Wolfmoon”, outra bastante
rápida e pesada, os riffs de guitarra estão bem definidos e acompanhados aqui
por um belo solo. Essa dupla inicial certamente agrada os fãs mais antigos, que
exigem muita guitarra e energia de Eddie Vedder. É porque o oposto vai
acontecer agora com a faixa seguinte, “Dance of The Clairvoyants”, a viagem da
banda pelo experimento new-wave.
Após o
delírio, uma rápida fuga, é o que se trata de “Quick Escape”, muito peso e
riffs novamente e uma letra pessimista sobre os caminhos que estamos tomando, cutucando
o presidente dos Estados Unidos, com a pessoa indo de um lugar para outro em
busca de um lugar onde Trump ainda não tinha fudido tudo. As coisas se acalmam
com a belíssima “Alright”, sobretudo num mundo onde a vida está cada vez mais
rápida, cobrando para vencermos sempre. Eddie Vedder diz na letra “tudo bem,
ficar sozinho, ficar quieto, dizer não, ser uma decepção na sua própria casa,
tudo bem desligar tudo, ignorar as regras do estado, é por você mesmo”.
“Seven O’Clock” é uma das melhores faixas de
Gigaton, tanto musicalmente quanto em relação à letra, e poderia muito bem colocá-la
na lista de melhores da banda. Uma letra fluindo rápido e sempre com novas
imagens e reflexões que clamam para que trabalharmos juntos para transformar
essa situação fudida em que nos achamos, sem tempo para depressão ou hesitação autoindulgente.
Na letra, várias indiretas para Trump e uma mensagem: “much to be done”.
Em “Never
Destination” e “Take The Long Way” o hard rock clássico da banda retorna com
satisfação. “Buckle Up” é bem leve e agradável e prepara caminho para a
extremamente emotiva “Comes Then Goes”, claramente uma homenagem ao amigo de
longa data da banda, Chris Cornell, que morreu em 2017. Só Eddie e o violão
exalando emoção. “Retrograde” e “Rivercross”, as quais falam com preocupação
sobre as mudanças climáticas, mantém o clima calmo e introspectivo e finalizam
o álbum.
Muito mais do
que ficar querendo colocar em que posição o novo disco vai ficar na carreira de
Pearl Jam, o melhor a fazer é comemorar que rock ’n’ roll com consciência e
propósito como esse ainda é feito hoje em dia, o que o torna muito mais
relevante do que muita coisa que vem sendo produzida ultimamente.
Esse ano foi um pouco atípico, pois tive que me dedicar a outros projetos e acabei deixando um pouco de lado a produção de resenhas sobre os discos. Todavia, não poderia deixar de compilar os melhores na já tradicional lista de Melhores Álbuns do Ano. O mundo, e sobretudo o Brasil, passa por um momento político conturbado. Por isso, o trabalho que resume melhor o ano é a obra-prima de Elza Soares, Planeta Fome.
1. Elza Soares - Planeta Fome
2. Mary Lane - Travelin' Woman
3. Chico César - O Amor é um Ato Revolucionário
4. Fruteland Jackson - Good as Your Last Dollar
5. Christone "Kingfish" Ingram - Kingfish
6. Bob Corritore & Friends - Do The Hip Shake Baby
7. The Cash Box Kings - Hail to the Kings!
8. Jimmy "Duck" Holmes - Cypress Grove
9. Walter Trout - Survivor Blues
10. Jontavious Willis - Spectacular Class
11. Willie Buck - Willie Buck Way
12. Tony Holiday - Porch Sessions
13. Gaye Adegbalola - The Griot
14. Piedmont Bluz - Ambassadors of Country Blues
15. John Clinfton - In The Middle of Nowhere
16. Watermelon Slim - Church of the Blues
17. Leo "Bud" Welch - The Angels In Heaven Done Signed My Name
18. Big Joe & The Dynaflows - Rockhouse Party
19. William Clarke - Heavy Hittin' West Coast Harp
20. Billy Branch & The Sons of Blues - Roots and Branches (}The Songs of Little Walter)
21. John Harp - How Can I Lose What I Never Had
22. Kenny "Beedy Eyes" Smith & The House Bumpers - Drop The Hammer
23. Nick Moss Band - Lucky Guy
24. John Primer - The Soul of a Bluesman
25. Rosie Flores - Simple Case of the Blues
26. Rockin' Johnny - Dos Hombres Wanted
27. Benny Turner - Going Back Home
28. Giles Robson - Don't Give up on the Blues
29. Big Creek Slim - First Born
30. John Dee Holeman - Last Pair of Shoes
31. Harpdog Brown - For Love & Money
32. Jazzmeia Horn - Love and Liberation
33. Mavis Staples - We Get By
34. North Mississippi Allstars - Up and Rolling
35. Little Joe McLerran - Month of Sundays
36. Annie & The Hedonists - Bring it on Home
37. John Mayall - Nobody Told Me
38. Vin Mott - Rogue Hunter
39. Bloodest Saxophone - Texas Queens 5
40. Leonardo Cohen - Thanks for the Dance
41. Li'l Chuck the One Man Skiffle Machine - Mono
42. Luther Dickinson - Solstice
43. Willie Farmer - The Man from the Hill
44. T. Guy - Tell Uncle John
45. Boo Boo Davis - Tree Man
46. Odair José - Hibernar na Casa das Moças
47. John Blues Boyd - Through My Eyes
48. Ronnie Earl - Beyond the Blue Door
49. Bobby Rush - Sitting on the top of the Blues
50. Al Lerman - Northern Bayou
51. Keb' Mo' - Oklahoma
52. Lia de Itamaracá - Ciranda Sem Fim
53. Alexis P. Suter Band - Be Love
54. Mark Joseph - The Musician and the Muse
55. Shady Frank - Home
56. Bad Temper Joe - The Maddest of Them All
Elza Soares é um ícone da cultura
nacional, seja como símbolo feminino de resistência diante de uma vida cheia de
sofrimento e reveses, seja como uma das maiores intérpretes da música
brasileira. Desde cedo, Elza travou lutas típicas de uma mulher negra da
periferia, como a fome, violência doméstica e sexual, tendo sido mãe
precocemente, aos doze anos de idade, para logo em seguida padecer da maior dor
de todas: aos quinze anos, perdeu seu segundo filho que sucumbiu à fome.
Pois bem,
mesmo diante de todos os percalços, que fariam com que qualquer pessoa normal
pensasse duas vezes antes de continuar, Elza tentou a carreira musical,
inscrevendo-se no concurso de música do programa de Ary Barroso, na Rádio Tupi,
em 1953. O que se passou no programa tornou-se icônico para a biografia da
cantora. Maltrapilha e com jeito humilde de falar, Ary perguntou a ela: - “de
que planeta você veio?” Elza respondeu: - “Do mesmo planeta que o senhor, seu
Ary. Do Planeta Fome”.
Desde então,
muita coisa se passou. Elza Soares, a Mulher do Fim do Mundo, tornou-se um
ícone da nova geração, graças a parcerias exitosas que conectariam a
octogenária a um novo público. Essa nova guinada veio em 2015, com o aclamado A
Mulher do Fim do Mundo, primeiro álbum totalmente com músicas inéditas. O tom
altamente crítico, reflexivo e enérgico, teve continuidade com o trabalho Deus
é Mulher, de 2018. Agora, no topo de sua carreira, Elza Soares resgata o episódio
que se sucedeu 66 anos atrás no programa de Ary Barroso, lançando seu novo álbum,
Planeta Fome. Culminância dessa nova fase da carreira da cantora, Planeta Fome é
um trabalho ousado do início ao fim, que mostra uma Elza empoderada, destemida,
altiva diante de um tempo em que, como ela diz numa das letras, “lutar por seu
direito é um defeito que mata”. Aos 89 anos, ela dá uma tapa nos “revolucionários
Che Guevara de sofá” e é simplesmente uma – se não a maior – porta-voz da música
de protesto em relação à fase autoritária, fascista, racista, homofóbica, exclusiva
e assassina na qual o Brasil decidiu mergulhar de cabeça nos últimos anos. Ela
conseguiu absorver o zietgiest do Brasil contemporâneo, não somente num tom
pessimista, mas também dando impulso na continuidade da luta por um “Brasil do
Sonho”.
A posição de
Elza fica clara já pela capa do disco, assinada pela transexual e ativista LGBT
Laerte, traduzindo um pouco o tom caótico da nossa sociedade. A
diversidade de ritmos e sons também dá um aspecto fragmentado e caótico, que,
ainda assim, mantém a unidade conceitual que funciona perfeitamente do início
ao fim, ora mais intensa, ora mais calma.
A lapada
começa com “Libertação”, com participação de BayanaSystem e Virgínia Rodrigues.
Aqui Elza já dá seu recado: a Mulher do Fim do Mundo não vai sucumbir. “Menino”,
de composição da própria Elza, é um apelo empático aos jovens que passam
privação, mas que não se voltem contra o próximo para gerar mais violência. Só
assim para acabar com o ciclo que infelizmente muitos jovens estão inseridos e
que não conseguem se libertar.
A faixa
seguinte “Brasis” é uma das mais intensas. As referências nas letras são muitas
e parece que a cada vez que você ouve, percebe ainda algo novo. Fala sobretudo
do Brasil desigual, um que “é próspero” e do outro que “não muda”, um que “investe”
e outro que “suga”. Tem um Brasil que “soca” e outro que “apanha”. Ao mesmo tempo, esses diferentes Brasis pedem
a mesma coisa: no fim do ano estamos todos pedindo paz, saúde, trabalho e
dinheiro. O mais genial dessas letras críticas é que elas são verdadeiramente
nacionalistas e patrióticas. Exaltam o país, o seu povo, a sua diversidade, impulsiona
o Brasil pra frente, pra ficar de cabeça em pé, mas ele teima em ficar para
trás, cabisbaixo.
“Blá Blá Blá”
é uma das construções musicais mais interessantes e imprevisíveis, que, somada
a uma letra ácida, faz dela um dos pontos centrais do disco. É a história de
alguém que quer ficar, mas que só dão motivo para querer ir embora. Entre as
estrofes à machadadas, como diria Nietzsche, a vinheta de “Me Dê Motivo”, de
Tim Maia. É o Brasil à venda pelos patriotas, que vende, aluga e cede as terras
para a América do Norte – nomeadamente os Estados Unidos. É o Brasil que passa reformas que prejudicam os trabalhadores e os mais pobres, dizendo que se não o fizer o
país irá quebrar. É a ideologia no sentido marxista mais claro: as ideias da
classe dominante se impondo nas classes dominadas.
A força dessa
ideologia se torna ainda mais explícita na genial “Comportamento Geral”. Quando
vemos que esta é uma composição de Gonzaguinha, de 1973, percebemos a
intensidade dessa ideologia e que, na verdade, pouca coisa mudou. A letra fala
do cidadão comum, aquele que se sacrifica com um sorriso no rosto, o famoso
capitalista pobre, que “deve rezar pelo bem do patrão e esquecer que está
desempregado”. São cortes na educação, fim de direitos trabalhistas, fim da
aposentadoria, congelamento de salários, mas que “deve aprender a baixar a
cabeça e a dizer sempre muito obrigado”. Não é anacronismo. Essa era a
realidade do Brasil da década de setenta, em plena linha dura da ditadura. No
Brasil de 2019 seguimos a mesma linha, sendo que, pior, de forma mais
consentida. “Você merece”.
Mesmo quando
Elza deixa de lado claramente os temas políticos, as letras continuam a
traduzir a desordem, o caos e a contradição, como quando ela diz, na faixa “Tradição”,
para desconsiderar a razão, desobedecer o coração para descontinuar a tradição.
“E na bagunça dessa vida, se jogue em meio à confusão”. A acústica “Lírio Rosa”
parece perdia em meio a essa miscelânea, mas mostra o lado mais romântico de
Elza.
“Não tá mais
de graça” tem uma das letras mais impactantes, pois faz referência a uma outra
música de Elza Soares, “A Carne”, que diz que a carne negra é a mais barata do
mercado. Pois bem, agora mudou. Não, o negro geme ainda numa poça de sangue,
mas a diferença é que agora ela não está mais de graça, “o que não valia nada agora
vale uma tonelada, não tem bala perdida, tem seu nome, é bala autografada”.
Diante de um tempo em que políticos populistas de direita usam a violência
contra a população negra como forma de ganhar popularidade, agora a carne negra
vale uma tonelada. A polícia agora pode assinar a bala que mata, está autorizada.
Triste realidade. Como não cabe pessimismo em Elza, depois de citar Tupac,
Marielle Franco, Rosa Parks, para destravar a corrente e sair da foice, na
letra ela atesta: “Mas os pretos avançam, Wakanda forever yo!”
Ainda não nos recuperamos totalmente do golpe
e em seguida Elza nos manda outra música que representa o sonho daqueles que
querem um país melhor para todos. “País do Sonho” deveria se tornar um hino na
luta por esse novo país. Mais uma vez, o otimismo prevalece sobre a visão
sombria do momento atual do Brasil.
“Pequena
Memória Para um Tempo Sem Memória” é uma ode à resistência, principalmente àqueles “humilhados, ofendidos, explorados e oprimidos” que sucumbiram e que se
tornaram “sementes nesse chão”. É verdadeiramente uma “história a contrapelo”
no sentido de Walter Benjamin, a história dos vencidos. “E vamos à luta”
Em “Virei o
jogo” Elza Soares representa a filosofia nietzschiana na afirmação da vida,
mesmo diante da dor e da tragicidade da existência humana. “Se vem de não eu
vou de sim, afirmação até o fim” ou então “você é não sou um milhão de sins”. Nietzche
chegou a falar “o que não me mata me fortalece”. Já Elza Soares decretou: “Cara
feia pra mim me fortalece”. Para fechar, “Não Recomendado” trata do
obscurantismo, da censura provocada pelo fundamentalismo religioso, da
homofobia e transfobia.
Chega-se ao
fim de Planeta Fome meio que desnorteado, uma tontura, ainda tentando absorver
o impacto das pancadas. Infelizmente, numa época extrema de intolerância, na
qual as pessoas vivem confortavelmente nas suas bolhas das redes sociais, o
alcance da mensagem de Planeta Fome seja limitado, mas na verdade trata-se de
um clássico histórico, que ajudará aos brasileiros do futuro a entender nós,
brasileiros, podemos enveredar por caminhos perigosos e sombrios.
O
blues não costuma ser muito generoso com os mais jovens. É muito mais comum
vermos uma pessoa estreando a carreira com seus cinquenta, sessenta, setenta e até
oitenta anos do que alguém muito jovem. Parece que a própria essência do blues
exige essa maduridade da experiência, esse conhecimento da vida real, de saber
lidar com as dores da vida e tratar delas por meio da música. É aí que
Christone “Kingfish” Ingram, um jovem de 20 anos, surge para derrubar essa “teoria”.
Ele nasceu em Clarksdale, no Mississippi, o berço do blues, próximo da
plantação onde Muddy Waters passou a infância, bem como o cruzamento da highway
61 e 49, onde supostamente Robert Johnson bateu um papo e fez o pacto com o
diabo. Pois bem, diferente de um jovem comum de sua idade, Kingfish não mostrou
interesse pelo hip-hip ou rap. Ao contrário, desde cedo ele demonstrou grande
interesse e habilidade para o blues, fazendo com que há alguns anos já
carregasse o peso de ser o “futuro do blues”. A família dele cantava na Ingreja
e a mãe é prima de uma lenda country, Charley Pride. Com seis anos, Ingram
começou a tocar bateria e baixo. Aos 11 ele dominou rapidamente a guitarra e
estreou nos palcos. Dentre os artistas com quem já diviu o palco estão nomes como
Buddy Guy, Tedeschi Trucks Band, Robert Randolph, Guitar Shorty, Eric Gales e
outros.
É com essa
pressão que Christone “Kingfish” Ingram finalmente nos entrega seu tão aguardado
álbum de estreia: Kingfish, produzido por Tom Hambridge, duas vezes vencedor do
Grammy. Pode-se dizer que Kingfish lidou muito bem com a pressão e deu conta do
recado. Seu álbum de estreia parece feito por um veterano, tranquilo por
mostrar todas suas habilidades e passsar seu recado.
Observando
pela capa, podemos já perceber que Kingfish se apresenta como um guitarrista de
blues. No álbum, Kingfish não é apenas um ótimo guitarrista, mas também um
ótimo vocalista. O álbum decola com um poderoso blues-rock “Outside of This
Town”, sobre o momento de sair da sua cidade em direção a coisas maiores. Na
segunda faixa, “Fresh Out”, Kingfish é acompanhado na guitarra e no vocal por
um dos seus maiores padrinhos musicais, Buddy Guy. A alternância de solos é
dinâmica e muita rica. A maturidade e a tranquilidade da voz de Kingfish chega
a impressionar, já que divide os vocais à vontade com gigantes do gênero e
notáveis vocalistas, como o próprio Guy e Keb’ Mo’, como na faixa “Listen”.
O
álbum continua a todo vapor com mais um blues-rock, “It Ain’t Right” e, sem
dúvida, os solos são um show à parte. Mas os pontos altos do disco são quando
Kingfish dá um tom intimista e pessoal, aproveitando a curiosidade de ser um
jovem de 20 anos tocando um gênero considerado “música de velho”. Ele fala
dessa relação em em “Been Here Before”, só no violão e voz. Na letra, Kingfish dá
tons míticos à sua história e fala sobre a sua “alma velha” que já andou
peregrinando por aí. A avó, como a voz
da sabedoria, costumava dizer que ele já esteve ali antes. Em “If You Love Me”
aparece um item que estava fazendo falta: a gaita, tocada por Billy Branch. Com
a ajuda ainda de Keb’ Mo’ na guitarra, a música é um shuffle bem intenso.
Dentre
inúmeros destaques, “Love Ain’t My Favorite Word” com certeza se sobressai. Um
slow blues incrível, cheio de solos de guitarra e uma letra comovente sobre
como o amor é superestimado, com Kingfish já falando sobre suas desilusões
amorosas. A influência de Buddy Guy fica evidente em “Before I’m Old” e “Believe
These Blues”, onde inclusive Kingfish solta umas críticas sociais sobre
enquanto a pobreza e a fome durar o blues nunca vai acabar. “Trouble” tem um
ritmo bem interessante e diferente, entrecortado por solos de guitarra. Outra
acústica “Hard Times”, com Keb’ Mo’ mais uma vez no violão, é outro grande
momento. É curioso um jovem de 20 anos falando de “tempos ruins”, mas quando a gente
pensa que vivemos em termos turbulentos e preocupantes, sabemos do que ele está
falando. Ainda dá tempo para um solo de slide bem interessante. O álbum termina
com “That’s Fine By Me”.
Christone
“Kingfish” Ingram certamente deixou de ser apenas uma promessa para ser uma
realidade. O fato dele ser o futuro do blues só o tempo irá dizer. Ele tem todas
as condições para isso. O perigo é ele ficar seduzido pelo mainstream e partir
para mistura com outros estilos, não sendo nem uma coisa, nem outra. Uma grande
promessa que foi para esse caminho foi Gary Clark Jr. Tomara que esse não seja
o caso de Kingfish.