sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Resenha de Elza Soares - A Mulher do Fim do Mundo




O mundo da música é bastante surpreendente e escolher escrever sobre ele é uma tarefa pode à qualquer momento nos colocar em algumas situações inimagináveis. Explico: se me perguntassem quando iniciei o Filho do Blues que escreveria uma resenha entusiasmada de um álbum de Elza Soares eu provavelmente, incrédulo, iria sorrir desdenhosamente (mais por ignorância minha do que por falta de méritos da sambista de 78 anos, mas como não fazia parte da minha esfera musical, nunca cheguei a dar muito valor ou atenção). Pois o mundo da música, amigos, nos prega peças (ou lições) deveras curiosas. É com uma satisfação redobrada que escrevo hoje a resenha do último trabalho da cantora Elza Soares, chamado A Mulher do Mundo. Diante da correria de fim de ano, tentando organizar a lista de melhores álbuns do ano e fazendo uma derradeira busca por novidades que possa ter deixado passar, um amigo me indicou este álbum com ótimas referências. Como nos últimos anos ampliei bastante meu nicho musical, fui conferir. E mais uma surpresa: A Mulher do Fim do Mundo é um dos discos mais interessantes do ano em diversas esferas; musicalmente, o álbum transita de forma muito natural e elegante entre diversos gêneros musicais, como o samba, claro, o rock, o eletrônico, dentre outros; e, principalmente, o âmbito lírico não fica submisso ao campo sonoro e, por isso, A Mulher do Fim do Mundo é um excepcional fruto do seu próprio tempo, com letras bastantes críticas sobre as transformações, desafios, problemas e retrocessos que testemunhamos diariamente na sociedade brasileira. As temáticas são amplas e vão desde a violência doméstica, a violência policial nas periferias, questões de gênero como feminismo e sexualidade. Ou seja, Elza ainda tem muito o que dizer!



A história do disco já inicia de forma curiosa, pois mesmo com décadas de carreiras e discos lançados, A Mulher do Fim do Mundo é o primeiro disco de Elza Soares com músicas totalmente inéditas (de outros compositores). E o álbum já começa em grande estilo, com o poema “Coração do Mar”, de Oswald de Andrade, cantada à capela, que já é emendada com o samba tradicional que dá título ao álbum, “A Última Mulher do Mundo”, uma Ode à Avenida, em que Elza confirma: “Mulher do fim do mundo eu sou e vou até o fim cantar”. De fato, a música vai entrando num fade out e ela continua cantando até o fim. A faixa seguinte, “Maria da Vila Matilde” retrata a violência doméstica e os esforços para escapar deste ciclo pernicioso, com Elza dizendo várias formas de manter afastado o agressor, como ligar para o 180, colocar o cachorro pra cima dele, e, por fim, Elza canta, quase como um alívio, uma libertação: “cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”.




“Luz Vermelha” também tem uma letra reflexiva e cheia de imagens de periferia, tiroteios, que remetem a solidão e ao enclausuramento de uma metrópole como São Paulo, e aqui o samba já se encontra com a guitarra elétrica, fazendo uma mistura bem interessante, com rap e algo parecido com punk. O tom apocalíptico é resumido quando Elza, ou o anão, atesta: “bem que o anão me contou que o mundo vai terminar num poço cheio de merda”. Inclusive, papas na língua é coisa que Elza Soares realmente não tem, a começar pelo título da faixa seguinte, “Pra Fuder”, com imagens, por sua vez, bem luxuriosas, como “unhas cravadas induzem latejo”.

Em “Benedita” a temática volta a ficar séria, com a sonoridade migrando frequentemente, indo e voltando, enquanto Elza fala das frequentes vítimas de balas perdidas pelas periferias Brasil afora e do tráfico de drogas. “Benedito é uma fera ferida, traz na carne uma bala perdida”.




Na faixa “Firmeza?!”, enquanto retrata um diálogo típico da periferia, o destaque vai para Elza se aventurando um pouco mais no rap com um saxofone no fundo bem interessante. O tango mórbido e póstumo de “Dança” mantém o ritmo interessante, bem como “Canal”, com traços meio que orientais e referências históricas interessantes, como o “brilho do Farol de Alexandre”. O caminho é mais solitário em “Solto”, que contém uma orquestra, enquanto Elza mais fala do que canta. Para finalizar, “Comigo” resgata inicialmente o barulho de guitarras, mas de súbito tudo some e Elza volta a cantar à capela, tal qual o início, soltando um dos mais belos versos do disco: “levo minha mãe comigo pois deu-me seu próprio ser”.

E é assim que finaliza A Mulher do Fim do Mundo, um silêncio, seguido de mais silêncio, e, depois, lá no fundo, ainda ressoando a voz de Elza Soares, afinal, como ela mesma disse: “eu vou cantar até o fim”. Sinta-se à vontade. E perdão pela injustiça.





terça-feira, 24 de novembro de 2015

Informações complementares do novo álbum de David Bowie, Blackstar


Sempre envolto em mistérios, aos poucos as informações complementares começam a surgir sobre Blackstar, o novo álbum de David Bowie, através de coletas e fragmentos de entrevistas de alguns dos envolvidos no processo de composição do disco. Segundo a revista Rolling Stone, James Murphy foi um dos colaboradores de Blackstar, tocando percussões em duas faixas, segundo Visconti, produtor e amigo de longa data de Bowie, além de trazer alguns sintetizadores e uma tonelada de ideias, de acordo com Mark Guiliana, baterista da banda. Essa não é a primeira vez que Murphy trabalha com David Bowie. Em 2013, ele criou uma nova versão para “Love is Lost”, do então novo álbum The Next Day. Outra informação relevante de Tony Visconti coletada da matéria da Rolling Stone é a influência sonora que inspirou a mistura de ritmos e sons presentes em Blackstar. Uma delas é o jazz livre e improvisado presente na faixa título, “Blackstar”. A matéria conta como foi a operação para recrutar alguns músicos de jazz, como Donny McCaslin, que se viu surpreendido com Bowie assistindo a uma apresentação sua em Nova York. Segundo Visconti, “ele jogou tudo lá e isso foi exatamente o que queríamos fazer. O objetivo, de várias formas, foi evitar o rock & roll”. Tem de Krautrock a hip hop, e de pop ao jazz.  O cantor de hip hop Kendrick Lamar foi uma das inspirações para essa mistura, apesar de não ter nada de hip hop, mas Visconti explica que o fato de Lamar ter sido tão mente aberta foi muito inspirador.

Sobre a faixa título “Blackstar”, que teve seu vídeo lançado na semana passada, era originalmente duas canções (como se pode perceber em dado momento), mas que Bowie e Visconti conseguiram juntá-las. Visconti diz ainda que ela teve que ser cortada para poder ser o primeiro single do novo disco, já que o Itunes não cabe singles com mais de 10 minutos de duração. Como Bowie estava decidido a ser “Blackstar” o single e não queria também que houvesse duas versões da música, ele fez o corte para os 9:57s. Segundo o membro da banda, Donny McCaslin, a letra de “Blackstar” é sobre o Estado Islâmico.

Títulos de outras faixas também foram divulgados, como “Girl Loves Me”, uma  balada chamada “Dollar Days”, que David compôs no estúdio, “I Can’t Give Everthing Away” e “Tis a Pity She Was a Whore”, que já havia sido lançada como B-Side de “Sue (In A Season Of Crime”, em 2014.

A capa de Blackstar foi desenhada pelo designer Jonathan Barnbrook, que já fez as capas de The Next Day, Heathen e Reality e é a primeira que não traz a imagem de Bowie na capa. Resumindo seu trabalho em Blackstar, Jonathan diz: “Blackstar é um álbum sombrio sobre tempos sombrios. Eu espero que no que eu fiz tenha algo que ressoe com a escuridão das músicas de alguma forma”.

A empolgação com o trabalho realizado transborda de Tony Visconti quando ele fala de Blackstar: “Quando ele lançou álbuns como Heroes e Low, ninguém estava fazendo algo assim. E então ele fez nascer uma Nova Era Romântica. Ele é um destruidor de gêneros e eu mal posso esperar para os álbuns de imitações de Blackstar começarem a sair”. Pelo visto, Tony está apostando alto! 



quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Confira a nova música de David Bowie, Blackstar


                No imaginário de David Bowie uma coisa é certa: aventurar-se pela sonoridade eletrônica está vinculado a uma escolha estética bastante sombria e lúdica. Foi assim nos discos Outside, de 1995 e Earthling, de 1997, onde Bowie viajou bastante pelo rock industrial  eletrônico. Para o novo disco, programado para janeiro, chamado Blackstar, David Bowie já avisou que ele é construído inspirado na eletrônica do final dos anos 70. Hoje, com o lançamento da épica faixa título “Blackstar” ★, com dez minutos de duração, Bowie realizou mais uma transformação completa: dessa vez ele faz o papel de um profeta cego e amaldiçoado. Uma letra apocalíptica e profética completam o tom sombrio."On the day of execution, on the day of execution, lonely women kneel and smile". Uau. Medo. Caveiras, astronautas mortos em planetas distantes, mulheres com rabos e rapazes frenéticos dançando e rituais junto com um Bowie vendado com apenas dois pontos negros nos olhos, fecham a cena. Musicalmente, as batidas eletrônicas viajam juntos com sintetizadores e saxofones em uma viagem interplanetária jazzística. No meio da música, há uma ponte completamente diferente, só no piano, que recomeça com outro ritmo, completamente diferente, com vozes em tonalidades diferentes. Algo que só Bowie poderia construir, imaginar e, sem dúvida, realizar. Após quatro álbuns sem arriscar muito, em Blackstar parece que Bowie dá mais um grande salto em sua carreira e completa mais uma transformação. Clique em play no vídeo abaixo e prepare-se para o êxtase. 





quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Resenha de Walter Trout - Battle Scars



Quando a tragédia se abate sobre a nossa vida, é natural cada um reagir de forma diferente; e a música, sendo uma das grandes manifestações artísticas do ser humano, muitas vezes é uma força catalizadora para lidar com esses momentos de extrema tensão, dúvida, medo, ansiedade, e assim por diante. Há incontáveis discos inteiros dedicados a alguma forma de tragédia, seja a de um fim de relacionamento, tragédias humanitárias e, naturalmente, discos que tratam sobre a batalha mais definitiva de todas: a batalha pela vida. Normalmente, quando um artista sobrevive a uma experiência de vida ou morte, seja acidente ou doença, ele utiliza sua arte para canalizar suas percepções sobre essa fase difícil, essa batalha da qual ele, aparentemente, sagrou-se o vencedor. Essas impressões dependem muito de cada um, do que experimentou, de como se sentiu; mais comumente elas soam depressivas, mórbidas, com o pensamento da morte sempre presente e representado por um som mais tenso e sombrio. É o caso, por exemplo, da banda indie Spiritualized, cujo líder Jason Pierce lidou com experiências desse tipo – dupla pneumonia – no álbum Songs In A&E, de 2008, um som melancólico e que faz o ouvir aproximar-se ao máximo da tensão e da dor sentida por Pierce. Há outras formas, no entanto, de lidar com essas sensações. E é exatamente isso o que faz o guitarrista Walter Trout com seu novo álbum, chamado BattleScars, cujo nome já sugere que serão tratadas as cicatrizes deixadas após a batalha pela vida.

                No início de 2014, Trout encontrava-se entre a vida e a morte, deitado numa cama de hospital sem poder mover-se, falar, nem mesmo reconhecer seus próprios filhos. Ficou em coma por três dias por falência hepática; em 26 de maio de 2014, Trout foi submetido a um transplante de fígado e começou a recuperar-se, a voltar a viver novamente em um lento processo de recuperação. Durante esse período, ele ainda conseguiu lançar um álbum, The Blues Came Callin’, sem saber se sairia vivo do processo. Pois bem, Trout venceu esta batalha e ressurge vigorosamente com seu novo trabalho, um álbum de blues incrível, que transcende inclusive os limites do próprio blues. Como está estampado na própria capa do disco: “Last year has been one where the blues truly came calling, and I came face to face with death more than once”. Então Battle Scars representa um paradoxo dentro do blues: embora seja um gênero originário de um ambiente social extremamente injusto, exploratório, e segregado racialmente, as letras do blues utilizam mais a ironia e o humor como forma de confrontar e resistir a esse ambiente. São, portanto, e de certa forma, letras mais leves e indiretas, cheias de duplo sentido e saídas inusitadas, que se unem a um som vivo e dançante que parece celebrar o milagre da vida. Walter Trout utiliza-se desse estilo musical e acrescenta ao som vivo e intenso, através de letras pesadas e densas, temáticas relativamente novas ao mundo do blues, como a morte, por exemplo. O blues, como um natural gênero de sobrevivência, que canta e celebra a existência, apesar de tudo, é a forma perfeita de Walter Trout ressurgir como um jovem de 17 anos, como ele próprio diz: “At first I wasn’t strong enough to play a single note on the guitar, but as I regained my strength, the music came back to me. Now when I pick up the guitar, it is liberating, joyful, and limitless. I feel like I’m 17 again.” Mas foi um longo e duro caminho até lá. E é isso que ele mostra em Battle Scars: a jornada pela vida da primeira música à última, em todas suas nuances e reviravoltas, em momentos de desespero e esperança, de perda da fé e da fé renovada, em achar que é o último dia vivo, em desejar desesperadamente que viva, ao menos, até o dia seguinte. 

                O álbum inicia com a faixa “Almost Gone”, que, como o título sugere, é um relato de um sobrevivente. Na alternância de intensos solos de guitarras e gaitas, Trout começa a falar de suas impressões e sobre as pessoas que o fizeram manter a fé, a continuar lutando: “Now I get the feeling/Something’s going wrong/Can’t help but  feelin’/I won’t last too long”. A letra mostra a luta entre pessimismo e otimismo, mesmo sendo impelido a lutar, Trout diz na letra: “we both know i’m almost gone”. Logo em seguida sirenes começam a disparar, dando uma noção exata do local onde estamos e o motivo pelo qual estamos ali. “Omaha” é uma das mais intensas. Ela se refere ao tempo em que Trout ficou no centro médico em Nebraska e tudo o que acontece no cotidiano de um hospital: a dor (própria e alheia), transplante de sangue, pessoas morrendo ao redor, as famílias chorando, etc. Em “Tomorrow Seems So Far Away”, numa música intensa e mais uma vez cheia de solos sensacionais na guitarra, Trout lida exatamente com essa expectativa e deixa claro: a luta é mais do que dia a dia, é hora a hora, minuto por minuto, já que “just hangin’ on, gimme one more day; but tomorrow seems so far away”.

                Chega a etapa do disco cheia de contrastes. O tom musical muda drasticamente na delicada, mas dolorosa, “Please Take Me Home”, na qual Walter Trout se aproxima bastante de algumas baladas de Bruce Springsteen, inclusive na voz. A letra é quase uma súplica de Trout para ser levado para casa. “Playin’ Hideaway” é bem enérgica, com vozes em coro no refrão, cantando quase jubilosamente. É o contraste de “Haunted By The Night”, canção mais sombria do disco, na qual mostra um Trout sem fé, cansado de lutar, preso numa cama de hospital sem poder andar e achando que o diabo está rindo na sua cara, enquanto é perseguido pela noite. “I’m looking in Hell, but i can’t stand the sight, I’m trembling in the darkness, cause I’m haunted by the night”.  Sem dúvida ela captura Walter Trout no seu fundo do poço, do qual ele tenta desesperadamente sair já na faixa seguinte, “Fly Away”, um rock direto, vivo e livre, que representa uma tentativa, ou fantasia, de libertação, qualquer que seja, a morte ou a recuperação. A fé aparece renovada aqui “can you hear me when I pray? we’re gonna fly, we’re gonna fly away”. 

                Após a fase dos contrastes, a esperançosa “Move On”, a guitarra continua a delinear o caminho, mas parece que foi feita na fase de recuperação, pois agora Trout parece olhar mais para frente, já tentando vislumbrar como a sua experiência mudou sua visão de mundo. Em “My Ship Came In” tem a volta da gaita já na introdução. Terminada a parte brilhante e positiva do álbum, os reflexos sobre a morte parecem ter voltado na música mais diretamente blues do álbum, e, portanto, uma das melhores, “Cold, Cold Ground”, ou seja, a batalha pela vida continuava. “I could hear the angels calling, lord I just can’t stand the sound, I need to believe I ain’t ready for the cold, cold ground”. Então a música continua com uma sensação onírica de algum sonho ou alucinação proveniente do coma, mas sempre com a certeza de que o seu tempo não havia acabado. Ainda por cima, a música apresenta um dos mais belos solos de guitarra do álbum. “Gonna Live Again”, tocada no violão, é quando finalmente ele percebe que irá viver e sairá vencedor dessa batalha e não importa o que o fez passar por isso, ele apenas deve deixar esse momento para trás, já que agora está vivendo novamente e está com a chance de ser um homem melhor. A Deluxe Edition ainda tem duas músicas bônus, “Things Ain’t What They Used To Be”, só Trout com o violão e gaita, e finaliza com “Hell To Pay”, também um blues acústico de primeiríssima qualidade.

                Depois do drama vivido, Walter Trout acaba por nos entregar o melhor álbum de sua carreira. Claro que a carga emocional tem um impacto profundo nas músicas e as fazem ter uma conotação ainda mais forte. Mas é a honestidade que faz com que Trout consiga nos transportar um pouco que seja para sua vida. As cicatrizes da batalha são as lições que ele aprendeu em sua jornada, as quais ele consegue repassar um pouco delas para nós, ainda que não passemos pelo drama que ele passou. Um drama pessoal não é o suficiente para um bom álbum. Pode ser mais tentador do que parece tentar esconder profundas experiências pessoais e espirituais por trás de clichês. E definitivamente não é isto que Walter Trout faz em BattleScars. Você pode ouvir o álbum completo pelo youtube neste link. 
               

domingo, 25 de outubro de 2015

David Bowie anuncia novo álbum, Blackstar, para janeiro


                Nos últimos anos, o mês de janeiro tem nos reservado momentos mágicos, fazendo jus ao seu significado de abertura do devir. Mas essa não é a única razão. Dia 8 de janeiro marca o nascimento de David Bowie e ultimamente isso tem sido prenúncio de acontecimentos interessantes. Explico: em 2013, no dia do seu aniversário, David Bowie surpreendeu o mundo ao lançar uma música nova do seu ainda inédito novo álbum, que foi lançado um pouco depois, The Next Day. O álbum marcou o fim do período sabático que Bowie se impôs desde 2004, sem lançar nada inédito e sem realizar nenhum show ao vivo. Pois bem, acabou de ser confirmado que para 2016 o dia 8 de janeiro reserva para nós tão-somente o lançamento do novo álbum do próprio David Bowie (o vigésimo quinto de sua carreira) , que terá o título de Blackstar. O primeiro single está programado para ser lançado em 20 de novembro. A ansiedade já é imensa.

                Informações dizem que haverá uma nova transformação na sonoridade de Bowie. O jornal Times of London descreve o álbum como um “longo álbum com improvisações de jazz misturadas com o tipo de condução de batida pioneiro dos anos setenta das bandas alemãs Can e Kraftwerk”. Parece que é a volta de um Bowie mais experimentalista e eletrônicos. Ele já fez uma mistura de eletrônico e rock industrial na fase durante os anos noventa. Agora a ideia é incluir uma pitada de jazz. Um som aventuroso, sem dúvida, mas que Bowie já mostrou que pode retirar o melhor dele. Outra descrição presente na notícia é que o álbum contém “cantos gregorianos, uma seção de soul, várias batidas e bleeps eletrônicos e os vocais distintos de Bowie”. Parece que o trecho da música tema divulgado da colaboração que David Bowie fez para a série The Last Panthers segue um pouco essa linha. A faixa recente "Sue (Or In A Season of Crime)" também pode ser um dica do que está por vir. Bem, vão ser longos meses de espera. É como se um deus acabasse de marcar uma data para fazer uma pequena visita à Terra. Aguardemos, portanto. Enquanto isso, deixo vocês com uma música do último disco, The Next Day, bem como algumas faixas interessantes da fase eletrônica de Bowie:













sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Assista ao clipe da nova música de Adele, "Hello".




                Como era de se esperar, Adele voltou abalando. A espera e ansiedade pelo tão aguardado sucessor de 21 já sugeria que quando esse evento viesse a acontecer mobilizaria todo o mercado. Bastou alguns dias para acabar com os mistérios construídos ao longo dos últimos anos. Com direito a uma carta aos fãs, Adele confirmou o novo álbum (que inaugura uma nova fase de sua vida), chamado 25, para o dia 20 de novembro, divulgou o tracklist do disco e hoje ela lançou o primeiro vídeo clipe do trabalho para a música “Hello”, que está reverberando por todas as esferas do mundo digital. Com uma produção cinematográfica, dirigido pelo cineasta Xavier Dolan, o clipe vasculha lembranças, boas e ruins, de um antigo amor. A música, apenas acompanhada pelo piano e uma orquestra de fundo e com um refrão marcante, nos (re)lembra que Adele é ainda uma das vozes mais bonitas da atualidade, além de uma ótima compositora de músicas pop. A questão é: iremos reviver a “febre Adele”? A conferir. As primeiras impressões, no entanto, são boas e indicam que sim, Adele, de fato, voltou. Confira o vídeo e o tracklist abaixo: 

25:

01 Hello
02 Send My Love (To Your New Lover)
03 I Miss You
04 When We Were Young
05 Remedy
06 Water Under The Bridge
07 River Lea
08 Love In The Dark
09 Million Years Ago
10 All I Ask
11 Sweetest Devotion


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Resenha de John Mayall - Find a Way to Care


Alguns músicos cravam seus nomes na história da música tanto pelo seu trabalho produzido quanto pelos serviços prestados de preservação cultural. É o caso da tríade britânica que mudou os rumos do blues na década de 60. John Mayall, Eric Clapton e Rolling Stones (Mick Jagger e companhia) foram os principais responsáveis por (re)apresentar o gênero do blues para o grande público branco dos Estados Unidos. Até então, o blues era uma manifestação cultural da comunidade afro-americana altamente centralizada nas áreas rurais do Sul dos Estados Unidos e nos bairros negros dos grandes centros industriais do Norte. Após a invasão britânica, os brancos passaram a consumir o blues tanto – ou mais – do que a própria população negra, cujo interesse musical fragmentava-se diante dos gêneros derivados do blues e jazz, como o soul e funk. Já tendo seus nomes marcados na história, Mayall, Clapton e, em partes, os Stones, no entanto, permanecem ativos.

Tocando blues há 70 anos – e profissionalmente há 50 -, John Mayall, o “Godfather of The British Blues”, –, apenas um ano após o último álbum, A Special Life, mostra que, aos 82 anos, ainda permanece com um fôlego interminável e lança seu mais novo disco, chamado Find a Way To Care, no qual mostra uma habilidade específica que não havia ainda sido muito explorada; com a ajuda da banda que o acompanha há anos, com uma seção de metais sempre presente, John Mayall sente-se confortável o suficiente para dedicar-se mais ao piano e ao teclado.  Na verdade, o teclado e/ou piano são os instrumentos de mais destaques de Find a Way To Care. De uma forma ou de outra, dividindo o espaço seja com guitarras, gaita e metais, através de solos ou apenas acompanhamentos tímidos, o teclado e piano estão sempre lá marcando presença.  É o caso de “The River’s Invitation”, na qual seção de metais faz um belo trabalho, apoiando Mayall em seus vários solos de teclado, que continuam em “Ain’t No Garantee”, com um ritmo mais para o funk, puxado pelo baixo; em “I Feel So Bad”, clássico de Lighnin’ Hopkins, que é totalmente repaginada por Mayall e tocada numa versão mais agitada e dançante, com mais uma presença marcante dos metais e do teclado.




Mayall também é conhecido por explorar nas composições próprias um pouco mais além o campo lírico do blues, indo além de lugares-comuns do gênero. A faixa que dá título ao álbum, “Find a Way To Care”, possui letras bem reflexivas, sobre mudanças sociais recentes e a necessidade de continuarmos tentando: “times are changing now, we gotta do the best we can”. Uma tentativa de colocar um pouco de otimismo nesse nosso mundo desolado em que vivemos.  Para um artista de 80 anos, pode-se dizer que Mayall já viu mudar muita coisa. “Long Summer Days” é nostálgica, com Mayall retomando suas memórias da infância na fazenda na Inglaterra.



Os outros destaques utilizam a fórmula mais tradicional do blues: gaita, piano, guitarra. “Mother In Law Blues” inicia o álbum com extrema elegância e qualidade, com uma letra clássica do blues sobre despedidas e abandonos, através de uma mecânica bem interessante entre gaita, guitarra e piano. No meio de versos característicos do blues (como “it was early in the morning” e “saw my baby walk away”), Mayall ainda cria algumas imagens poéticas, como no trecho: “I know she heard me calling she looked back and waved her hand / she said ‘I’m so sorry baby, you’re just footprints in the sand’”. Em relação à voz, Mayall mostra que ainda consegue cantar com vigor e intensidade. A versão para “Long Distance Call”, do lendário Muddy Waters é outro exemplo: em grande parte mantendo-se fiel à original, Mayall nos entrega uma versão honesta e impecavelmente executada, utilizando-se dos solos para dar seu toque especial, dessa vez no piano. Na maliciosa “I Want All My Money Back” Mayall se defende das aproveitadoras de plantão “you’re using me, i think you’re just using me, if you don’t do something I like I want all my money back”. Outra cover magnífica executada por Mayall e sua banda é “Drifting Blues”, também uma das preferidas de seu amigo conterrâneo e guitarrista, Eric Clapton. John Mayall finaliza de forma solitária, com a faixa “Crazy Lady”, só ele e o piano, de acordo com a longa tradição de pianistas de New Orleans, como Professor Longhair.

Tal qual Leo “Bud” Welch, dois álbuns em dois anos para um músico com mais de 80 anos é algo extraordinário. No caso de John Mayall é ainda mais surpreendente pelo fato do músico já estar há mais de 50 anos no ramo profissionalmente. Não é um álbum que se equipare aos clássicos da década de 60 e 70, tanto pela sua importância musical e histórica, mas para quem acompanha e é fã da extensa carreira de John Mayall é com certeza uma ótima pedida.