segunda-feira, 20 de maio de 2019

Resenha de Christone "Kingfish" Ingram - Kingfish



                O blues não costuma ser muito generoso com os mais jovens. É muito mais comum vermos uma pessoa estreando a carreira com seus cinquenta, sessenta, setenta e até oitenta anos do que alguém muito jovem. Parece que a própria essência do blues exige essa maduridade da experiência, esse conhecimento da vida real, de saber lidar com as dores da vida e tratar delas por meio da música. É aí que Christone “Kingfish” Ingram, um jovem de 20 anos, surge para derrubar essa “teoria”. Ele nasceu em Clarksdale, no Mississippi, o berço do blues, próximo da plantação onde Muddy Waters passou a infância, bem como o cruzamento da highway 61 e 49, onde supostamente Robert Johnson bateu um papo e fez o pacto com o diabo. Pois bem, diferente de um jovem comum de sua idade, Kingfish não mostrou interesse pelo hip-hip ou rap. Ao contrário, desde cedo ele demonstrou grande interesse e habilidade para o blues, fazendo com que há alguns anos já carregasse o peso de ser o “futuro do blues”. A família dele cantava na Ingreja e a mãe é prima de uma lenda country, Charley Pride. Com seis anos, Ingram começou a tocar bateria e baixo. Aos 11 ele dominou rapidamente a guitarra e estreou nos palcos. Dentre os artistas com quem já diviu o palco estão nomes como Buddy Guy, Tedeschi Trucks Band, Robert Randolph, Guitar Shorty, Eric Gales e outros.


É com essa pressão que Christone “Kingfish” Ingram finalmente nos entrega seu tão aguardado álbum de estreia: Kingfish, produzido por Tom Hambridge, duas vezes vencedor do Grammy. Pode-se dizer que Kingfish lidou muito bem com a pressão e deu conta do recado. Seu álbum de estreia parece feito por um veterano, tranquilo por mostrar todas suas habilidades e passsar seu recado.

                Observando pela capa, podemos já perceber que Kingfish se apresenta como um guitarrista de blues. No álbum, Kingfish não é apenas um ótimo guitarrista, mas também um ótimo vocalista. O álbum decola com um poderoso blues-rock “Outside of This Town”, sobre o momento de sair da sua cidade em direção a coisas maiores. Na segunda faixa, “Fresh Out”, Kingfish é acompanhado na guitarra e no vocal por um dos seus maiores padrinhos musicais, Buddy Guy. A alternância de solos é dinâmica e muita rica. A maturidade e a tranquilidade da voz de Kingfish chega a impressionar, já que divide os vocais à vontade com gigantes do gênero e notáveis vocalistas, como o próprio Guy e Keb’ Mo’, como na faixa “Listen”.

                O álbum continua a todo vapor com mais um blues-rock, “It Ain’t Right” e, sem dúvida, os solos são um show à parte. Mas os pontos altos do disco são quando Kingfish dá um tom intimista e pessoal, aproveitando a curiosidade de ser um jovem de 20 anos tocando um gênero considerado “música de velho”. Ele fala dessa relação em em “Been Here Before”, só no violão e voz. Na letra, Kingfish dá tons míticos à sua história e fala sobre a sua “alma velha” que já andou peregrinando por aí.  A avó, como a voz da sabedoria, costumava dizer que ele já esteve ali antes. Em “If You Love Me” aparece um item que estava fazendo falta: a gaita, tocada por Billy Branch. Com a ajuda ainda de Keb’ Mo’ na guitarra, a música é um shuffle bem intenso.

                Dentre inúmeros destaques, “Love Ain’t My Favorite Word” com certeza se sobressai. Um slow blues incrível, cheio de solos de guitarra e uma letra comovente sobre como o amor é superestimado, com Kingfish já falando sobre suas desilusões amorosas. A influência de Buddy Guy fica evidente em “Before I’m Old” e “Believe These Blues”, onde inclusive Kingfish solta umas críticas sociais sobre enquanto a pobreza e a fome durar o blues nunca vai acabar. “Trouble” tem um ritmo bem interessante e diferente, entrecortado por solos de guitarra. Outra acústica “Hard Times”, com Keb’ Mo’ mais uma vez no violão, é outro grande momento. É curioso um jovem de 20 anos falando de “tempos ruins”, mas quando a gente pensa que vivemos em termos turbulentos e preocupantes, sabemos do que ele está falando. Ainda dá tempo para um solo de slide bem interessante. O álbum termina com “That’s Fine By Me”.

                Christone “Kingfish” Ingram certamente deixou de ser apenas uma promessa para ser uma realidade. O fato dele ser o futuro do blues só o tempo irá dizer. Ele tem todas as condições para isso. O perigo é ele ficar seduzido pelo mainstream e partir para mistura com outros estilos, não sendo nem uma coisa, nem outra. Uma grande promessa que foi para esse caminho foi Gary Clark Jr. Tomara que esse não seja o caso de Kingfish.


terça-feira, 2 de abril de 2019

Resenha de Mary Lane - Travelin' Woman



                Só o blues tem história como essa: artistas que começam sua carreira fonográfica com a idade já bem avançada, mas que permaneceram anônimos por décadas, vivendo uma vida comum, trabalhando de morrer durante o dia, passando por dificuldades, sofrendo os baques da vida, levantando-se para tentar dar a volta por cima, até cair de novo, e se levantar mais uma vez, enquanto isso busca se divertir  para escapar da dureza da vida seja apresentando sua música no bar – e ganhando um extra – ou se fortalecendo com músicas na Igreja no domingo.  Foi o caso de Leo “Bud” Welch, octogenário, que surgiu em 2014 com álbuns que mesclavam  perfeitamente o blues e o gospel, coisa que ele havia feito praticamente a vida toda no anonimato. Infelizmente, casos assim, até pela própria brevidade da vida longeva, tem um prazo de validade curto, e “Bud” Welch acabou partindo no final de 2017, mas, felizmente, sentindo o gostoso sabor do reconhecimento e do sucesso, ainda que tardio. 

Agora surge mais um desses achados tardios e preciosos. Atende pelo nome de Mary Lane, uma veterana de 83 anos, que por mais de cinqüenta anos peregrina pela cena em West Side, de Chicago, e lança agora um disco depois de 20 anos de sua estréia, Travelin’ Woman, pela nova gravadora Woman of The Blues. Acompanhando o disco, um documentário que conta a vida de Mary Lane, chamado I Can Only Be Mary Lane, também será lançado. Ela é uma das últimas representantes do blues original, aquele que saiu do sul segregado, fez a Grande Migração, foi para Chicago, e lá dividiu o palco com outras lendas, como Elmore James, Magic Sam, Junior Wells e ninguém menos do que Howlin’ Wolf.  Lane nasceu em Clarendon, Arkansas, e cantou por moedas nas esquinas de ruas, antes de iniciar sua carreira acompanhando Robert Nighthawk. 




Como para a grande maioria das pessoas, a vida para Mary Lane foi dura. Nada foi fácil e para conseguir qualquer coisa ela teve que dar o máximo de si. Persistiu, como estamos sempre tentamos. Foi resiliente, pois foi obrigada a sê-lo. Continuou tentando, mesmo quando muitos no seu caminho não acreditaram nela. Hoje, aos 83 anos, ela lança um disco que já está cotado nos melhores discos de blues do ano. Segundo uma entrevista para o site Chicago Blues Guide, ao ser perguntada o que esperava alcançar com o disco, Lane foi direta e disse que esperava pelo menos conseguir algum dinheiro. O entrevistado continua e pergunta o que ela acha de algumas pessoas dizendo que ela pode ganhar um Grammy com esse disco. Mary Lane simplesmente fala: “Eu não sei disso. Não ligo se ganhar um Grammy. Enquanto estiver por aí e as pessoas estiverem comprando e colocado um dolar no meu bolso, eu gosto disso”. Isso é o blues.  

O disco é incrível, assim como Mary Lane, que se a idade dela não tivesse sido revelada, poderia passar por alguma vigorosa cantora de uns trinta e poucos anos. A banda que a acompanha também está em ótima forma e faz um som bastante enérgico, com solos de gaita e de guitarra para todos os lados.  Em “Travelin’ Woman”, que dá o título ao álbum, ela conta um pouco de sua história, carregada por ótimos solos de guitarra. Logo em seguida, “Ain’t Gonna Cry No More”, um típico Chicago blues, é entrecortada pelo piano de Chris “Hambone” Cameron e a gaita de Eddie Shaw. “Leave That Wine Alone”, que conta os problemas da bebida na vida familiar, é bastante animada e com um ritmo constante que dá pra passar a música inteira estalando os dedos. Blues direto na veia segue com “Some People Say I’m Crazy”. Em “Raining In My Heart” a voz de Lane fica mais suave e parece uma doce garoa caindo num sábado à noite. Logo depois, o clima fica leve e relaxado na belíssima balada “Let Me Into Your Heart”. Quem diria que a senhora que está cantando tem 83 anos? Ninguém. Os destaques do disco continuam com “Ain’t Nobody Else”, com Billy Branch na gaita e “Blues Give Me a Feeling”, também cheia de acompanhamentos de gaita. Segundo Mary Lane, “if you don’t dig the blues you have a hole in your soul”, é verdade. Em “Bad Luck and Trouble” Lane fala sobre o tema clássico do blues. Por fim, Lane vira acústica em “Make Up Your Mind”, arrasando do mesmo jeito. 

É uma pena esse talento ter ficado escondido por tanto tempo. De qualquer forma, Travelin’ Blues é um disco que não apenas coloca Mary Lane no mapa do blues mundial, mas sim a coloca como uma gigante do blues. Exatamente o que ela merece. 



terça-feira, 12 de março de 2019

Resenha de Leo "Bud" Welch - The Angels In Heaven Done Signed My Name

   
         Quando Leo “Bud” Welch surgiu na cena do blues em 2014 com seu disco de estreia, Sabougla Voices, aos 82 anos, causou uma surpresa enorme, tanto pela sua vitalidade quanto pela de estranhesa de ter um disco de estreia com uma idade tão avançada. O fato é que Welch esteve ligado ao blues e ao gospel durante toda sua vida, tocando em igrejas e bares por horas seguidas. Na década de 50, chegou a abrir shows para figuras como B.B. King, Howlin’ Wolf, Elmore James, John Lee Hooker, só para citar alguns. Convidado por B.B. King para uma seção de gravação, Welch não pode comparecer por não ter dinheiro para pagar um quarto de hotel. Infelizmente, B.B. King também não pagou e perdemos o que poderia ter sido o início de uma promissora e bem-sucedida carreira no blues. 

            O fato é que a carreira de estúdio de “Bud” Welch deslanchou com Sabougla Voices, focando nas canções de gospel que ele tocou por tantos anos, numa roupagem crua de blues tradicional. Em 2015, o sacro virou profano com I Don’t Prefer No Blues. O impacto dos dois álbuns fez o bluesman octogenário que nunca havia deixado o Mississippi percorrer o país em turnês, viajando de avião pela primeira vez e tocando em renomados festivais de blues. 

Pouco antes de falecer, em 19 de dezembro de 2017, Leo “Bud” Welch fez uma última sessão de gravação, em Nashville, com Dan Auerbach. The Angels In Heaven Done Signed My Name é resultado dessa última gravação, depois de dar uns retoques finais às faixas gravadas com Welch. São dez faixas que capturam o espírito de um grande bluesman. O tema da morte, sempre visto pelo viés de um homem religioso e que vê a passagem como um encontro com Deus, é recorrente. Os destaques dentre elas são “I Know I’ve Been Changed”, “Don’t Let the Devil Ride”, claro, “I Wanna Die Easy”, “Let it Shine” e “Walk With Me Lord”. 

Enfim, The Angels In Heaven Done Signed My Name vem para engrandecer ainda mais o talento desse grande mestre na arte do blues, que, infelizmente, tivemos tão pouco tempo para desfrutar, mas que sua passagem está marcada por cada nota tocada e por cada verso cantado com energia e emoção autêntica no final de sua vida. 


domingo, 10 de fevereiro de 2019

Resenha de Walter Trout - Survivor Blues




O lançamento de um novo álbum do guitarrista Walter Trout é sempre um evento para se marcar na agenda e esperar ansiosamente. Dono de uma discografia de dar inveja a muitos guitarristas renomados por aí, Trout não se cansa e procura sempre cravar mais a fundo seu nome no hall dos gigantes do gênero do blues rock com seu novo disco, Survivor Blues. Walter Trout procura um conceito que irá guiar todo o trabalho e como não podia ser diferente, em Survivor Blues o sentimento que motivou Trout e a banda foi resgatar músicas de blues menos conhecidas e rearranjá-las e trazê-las novamente para a superfície. Portanto, Survivor Blues não é um mero álbum de covers, mas sim um disco de raridades. Eu, pessoalmente, conhecia apenas duas músicas das doze faixas. "God's Word", de J. B. Lenoir, e "Please Love Me", de B.B. King.



O disco tem início com “Me, My Guitar and the Blues”, de Jimmy Dawkins, é um slow blues em que Trout deixa sua marca em solos incríveis na guitarra e intensidade no vocal. O resgate de músicas antigas não foi desconectada da realidade, pois a segunda faixa “Be Careful How You Vote” parece atemporal, pois funciona para qualquer época, e cai como uma luva para os tempos atuais, um chamado para a responsabilidade na hora de votar. “Sadie”, de Hound Dog Taylor, recebe um ritmo bem interessante e em seguida "Please Love Me" do saudoso B.B. King recebe uma versao acelerada e intensa. A visionária "Nature's Disappearing", do mestre  John Mayall, de 1970, mostra um tema extremamente relevante do meio ambiente e mudanças climáticas. "Something Inside of Me", de Elmore James, é outro grande destaque do disco, com amplo espaço para Trout destilar toda sua habilidade na guitarra. Em "Going Down to the River", Trout dá um tratamento do blues elétrico ao Delta blues de Mississippi Fred McDowell. Para finalizar, uma versão digna de "God's Word", de J. B. Lenoir.

            A inspiração para o álbum surgiu enquanto Trout estava dirigindo e colocou no rádio uma estação de blues que apareceu uma banda tocando "Got My Mojo Workin'". E então ele pensou consigo mesmo: "o mundo precisa de mais uma versão dessa música, tantas e tantas vezes regravadas?" Pois bem, com Survivor Blues, Trout escolhe a dedo aquelas que valem a pena serem redescobertas.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Resenha de Gaye Adegbalola - The Griot



A figura do Griot está em alta no mundo do blues. Os griots fazem parte da rica tradição africana de preservar sua tradição oral. Esses indivíduos são poetas, músicos ou contadores de história que têm o papel de transmitir histórias, fatos históricos, conhecimentos e canções do seu povo, mantendo-as sempre vivas na comunidade. O cantor Eric Bibb ampliou essa função no seu último álbum, Global Griot, dando um aspecto mais cosmopolita à figura do griot, normalmente confinado dentro do próprio grupo. Dessa vez, a cantora Gaye Adegbalola lança mão do simbolismo do griot no seu novo disco, The Griot, para denunciar e desabafar diretamente sobre os problemas políticos contemporâneos, especialmente sobre as mulheres e negros na sociedade americana, sob a gestão de Donald Trump. O disco é um soco direto, sem meias palavras. Ela usa sua toda a vivência de 74 anos, vencedora do Blues Music Award, fundadora do The Uppity Blues Women, para falar sobre variados assuntos, ora utilizando-se da revolta, indignação, outras vezes mostrando seu lado mais sensual e bem-humorado, o que é sua marca registrada. O subtítulo do disco é “Topical Blues for Topical Times” e para deixar as coisas mais claras, ela define o tema de cada música na contracapa do álbum.




A faixa de abertura, “Nothing’s Changed” é uma verdadeira aula de história sobre a injustiça, desigualdade, racismo, em que embora pareça que todas as coisas mudaram, na verdade, nada mudou. Na letra, ela não poupa as palavras: “KKK and Nazis march in Charlottesville/Spewing hate, carrying guns, wanting blood to spill/They’re saluting Hitler and their President/They wave their rebel flags and like the war ain’t over yet/Some will stand against democracy it’s true/Star-spangled love in the red, white, and blue”

Na segunda faixa, “The Griot”, praticamente conversada, ela dá a definição do griot e em seguida mostra toda a acidez contra a hipocrisia em “Liearrahea”, com certeza endereçada a Trump, em que ela faz um trocadilho com a “mentira” (lie) e a diarreia, ou seja, Trump vive cagando mentiras. “FGM (Female Genital Mutilation)” é um manifesto em favor das mulheres que ainda hoje sofrem a mutilação dos órgãos genitais. É praticamente uma declaração de guerra em que Gaye diz que vale a pena morrer e lutar uma guerra para uma mulher ter seu prazer intacto. “Dirty Sheets” é um blues direto e forte sobre a pobreza e o aumento da desigualdade na sociedade americana, pois mesmo trabalhadores não tem condições dignas de moradias.



“(You’re) Flint Water” trata da poluição e revolta, dizendo na cara que não pode “nem dar descarga em você” e protesto em “Kaepernicked”. É muito interessante ver uma senhora de 74 anos saber tanto de tecnologia quanto Gaye nos mostra em “Ain’t Technology Grand?”, em que, de maneira sarcástica, ela fala dos benefícios e riscos da tecnologia. Em “Don’t Criticize Me” ela fala da inspiração para seu blues, que acha humor na dor, colocar essa dor pra fora,  fala da inspiração ela vida do dia a dia, pela dor. Gaye compôs todas as faixas, com exceção de três, nas quais ela fala de  esperança, em “(There is Always) One More Time”, onde a voz dela lembra até David Bowie, sexo em “Need a Little Sugar in My Bowl” e traição em “Jelly Bean Blues”.

Por fim, Gaye Adegbalola mostra que é uma atenta e perspicaz observadora do mundo em que a gente vive. Com The Griot, o ano começa com resistência, energia, humor e sensibilidade.
        
  

domingo, 20 de janeiro de 2019

David Bowie escolhido pelo público como maior entertainer do século XX




O público britânico, em uma enquete promovida pela BBC Two para sua histórica série Icon, elegeu David Bowie como o maior entertainer do século XX, ficando à frente de nomes como Marilyn Monroe, Charlie Chaplin e Billie Holiday. Agora, David Bowie irá competir na enquete final da série, que dirá, aos olhos do público, quem é do maior ícone do século XX. Além de Bowie, a disputa terá também Nelson Mandela e Ernest Shackleton, dentre outros que ainda estão sendo votados em enquetes.