Mostrando postagens com marcador Chicago Blues. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Chicago Blues. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Resenha de Vintage Dixon, The Real McCoy


Imagine se você tivesse tanto a linhagem do maior compositor de blues da história quanto a experiência de ter aprendido tudo com ele próprio. O que você faria? Tentaria outro caminho ou aproveitaria a bagagem biológica e cultural para manter a tradição viva? 


Esse é o caso de Alex Dixon, neto do grande e incomparável Willie Dixon, sem dúvida o primeiro compositor profissional de clássicos de blues – e o maior até hoje. Enraizado nas tradições orais da comunidade negra no sul dos Estados Unidos, as músicas passavam de cantor para cantor, que adicionavam um verso aqui, outro ali, tornando a noção de direitos autorais e composição algo muito difícil de localizar. Mas Willie Dixon está diretamente ligado à fase de ouro do blues dos anos 50, principalmente quando aliado a Leonard Chess, um dos fundadores da Chess Records, que seria o epicentro de gravações memoráveis do blues, em Chicago. Willie Dixon seria o compositor oficial que criava e pensava músicas especialmente para seus intérpretes. Por exemplo, músicas como “Spoonful”, “The Little Red Rooster”, “Back Door Man” foram feitas sob medida para um intérprete com as características de Howlin’ Wolf, enquanto “Hoochie Coochie Man”, “The Same Thing”, “I Just Want To Make Love to You”, “You Shook Me” se encaixam perfeitamente com Muddy Waters, “My Babe” com Little Walter, “I Can’t Quit You Baby”, com Otis Rush, “Bring it On Home”, com Sonny Boy Williamson e inúmeros outros casos. Perceberam o nível das músicas? Pois bem, todas elas são de Willie Dixon, músicas que foram reinterpretadas por bandas como Led Zeppelin, Bob Dylan, The Doors, Rolling Stones, Cream, Eric Clapton, The Allman Brothers e centenas de outros. Mas não estamos aqui para falar de Willie, mas sim do seu neto, Alex Dixon, que acabou de lançar um disco do seu novo projeto, Vintage Dixon, chamado The Real McCoy.


Assim como seu avô, Alex Dixon também é baixista e compositor, mas também toca outros instrumentos, como piano. Alex foi criado por seu avô e aprendeu muito com ele. É esse legado da família que Alex quer homenagear com a nova banda Vintage Dixon. A banda é formada por Lewis “Big Lew” Powell nos vocais, Alex no baixo baixo, o filho de Carey Bell, Steve Bell, na gaita, Alvino Bennett na bateria e Melvin Taylor e Gino Matteo nas guitarras. O disco The Real McCoy é composto por sete músicas originais, escritas pelo próprio Alex, e quatro covers conhecidas do catálogo de Willie Dixon.




Os destaques ficam a cargo de “Nothing New Under The Sun”, um shuffle poderoso acompanhado por “Spider In My Stew”, “My Greatest Desire” um blues mais lento cheio de gaitas incríveis. Dentre as covers, as que mais se destacam são dos intérpretes mais memoráveis de Willie, “Howlin’ for My Darlin”, gravada por Howlin’ Wolf, e “I Want to Be Loved”.
Enfim, The Real McCoy é puro Chicago Blues com um pé no passado e outro no presente. Aproveitemos.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Resenha de John Primer & Bob Corritore - The Gypsy Woman Told Me



        O primeiro disco da enxurrada de que falei no post anterior finalmente saiu e já podemos adiantar que cumpriu todas as promessas. John Primer e Bob Corritore, pela terceira vez, fazem justiça à fama e à posição que conquistaram no mundo do blues. John Primer, guitarrista e um dos maiores representantes contemporâneos do Chicago Blues, que já tocou com Muddy Waters, Junior Wells e Magic Slim, e Bob Corritore, o incansável especialista e super produtivo mestre da gaita, seguem a fórmula de sucesso anterior e dividem as atenções no novo disco, The Gypsy Woman Told Me, lançado hoje nas plataformas de stream. Além da dupla, o álbum conta com uma lista de colaboradores de primeira: Billy Flynn, Bob Welsh, Kid Andersen são apenas alguns desses nomes. 



        O álbum é empolgante do início ao fim e o repertório também é incrível, mesclando músicas novas, como “Little Bitty Woman” e “Walked So Long”, com versões a maior parte delas tiradas do fundo do baú e desconhecidas, como a faixa que abre o disco, “Keep-A-Driving”, de Chick Willis’ e “I Got The Same Blues”, de J.J. Cale. Mas também tem Jimmy Reed, “Let’s Get Together” e Sonny Boy Williamson, “My Imagination”, que serve perfeitamente para a gaita de Corritore brilhar. Mas a mais conhecida certamente é a música que dá título ao álbum, “The Gypsy Woman Told Me”, clássico de Muddy Waters. Tem músicas pra dançar batendo com os pés no chão, tem músicas para ficar soprando o ar lentamente com a gaita imaginária e também muitos temas já tradicionais no imaginário do blues, como o errante jogador que perde tudo, em “Gambling Blues”, o solitário de coração partido, o azarado, enfim, todos os ingredientes para compor um disco de blues completo.

        Normalmente, um disco crava duas ou três músicas na playlist do Filho do Blues. Aqueles discos que no final do ano vão brigar pelo topo da lista dos melhores do ano chegam a levar umas cinco a seis faixas para a playlist. Bem, esse é o caso de The Gypsy Woman Told Me, um disco para fazer vibrar tanto fãs novos quanto fãs mais puristas de blues.


terça-feira, 2 de abril de 2019

Resenha de Mary Lane - Travelin' Woman



                Só o blues tem história como essa: artistas que começam sua carreira fonográfica com a idade já bem avançada, mas que permaneceram anônimos por décadas, vivendo uma vida comum, trabalhando de morrer durante o dia, passando por dificuldades, sofrendo os baques da vida, levantando-se para tentar dar a volta por cima, até cair de novo, e se levantar mais uma vez, enquanto isso busca se divertir  para escapar da dureza da vida seja apresentando sua música no bar – e ganhando um extra – ou se fortalecendo com músicas na Igreja no domingo.  Foi o caso de Leo “Bud” Welch, octogenário, que surgiu em 2014 com álbuns que mesclavam  perfeitamente o blues e o gospel, coisa que ele havia feito praticamente a vida toda no anonimato. Infelizmente, casos assim, até pela própria brevidade da vida longeva, tem um prazo de validade curto, e “Bud” Welch acabou partindo no final de 2017, mas, felizmente, sentindo o gostoso sabor do reconhecimento e do sucesso, ainda que tardio. 

Agora surge mais um desses achados tardios e preciosos. Atende pelo nome de Mary Lane, uma veterana de 83 anos, que por mais de cinqüenta anos peregrina pela cena em West Side, de Chicago, e lança agora um disco depois de 20 anos de sua estréia, Travelin’ Woman, pela nova gravadora Woman of The Blues. Acompanhando o disco, um documentário que conta a vida de Mary Lane, chamado I Can Only Be Mary Lane, também será lançado. Ela é uma das últimas representantes do blues original, aquele que saiu do sul segregado, fez a Grande Migração, foi para Chicago, e lá dividiu o palco com outras lendas, como Elmore James, Magic Sam, Junior Wells e ninguém menos do que Howlin’ Wolf.  Lane nasceu em Clarendon, Arkansas, e cantou por moedas nas esquinas de ruas, antes de iniciar sua carreira acompanhando Robert Nighthawk. 




Como para a grande maioria das pessoas, a vida para Mary Lane foi dura. Nada foi fácil e para conseguir qualquer coisa ela teve que dar o máximo de si. Persistiu, como estamos sempre tentamos. Foi resiliente, pois foi obrigada a sê-lo. Continuou tentando, mesmo quando muitos no seu caminho não acreditaram nela. Hoje, aos 83 anos, ela lança um disco que já está cotado nos melhores discos de blues do ano. Segundo uma entrevista para o site Chicago Blues Guide, ao ser perguntada o que esperava alcançar com o disco, Lane foi direta e disse que esperava pelo menos conseguir algum dinheiro. O entrevistado continua e pergunta o que ela acha de algumas pessoas dizendo que ela pode ganhar um Grammy com esse disco. Mary Lane simplesmente fala: “Eu não sei disso. Não ligo se ganhar um Grammy. Enquanto estiver por aí e as pessoas estiverem comprando e colocado um dolar no meu bolso, eu gosto disso”. Isso é o blues.  

O disco é incrível, assim como Mary Lane, que se a idade dela não tivesse sido revelada, poderia passar por alguma vigorosa cantora de uns trinta e poucos anos. A banda que a acompanha também está em ótima forma e faz um som bastante enérgico, com solos de gaita e de guitarra para todos os lados.  Em “Travelin’ Woman”, que dá o título ao álbum, ela conta um pouco de sua história, carregada por ótimos solos de guitarra. Logo em seguida, “Ain’t Gonna Cry No More”, um típico Chicago blues, é entrecortada pelo piano de Chris “Hambone” Cameron e a gaita de Eddie Shaw. “Leave That Wine Alone”, que conta os problemas da bebida na vida familiar, é bastante animada e com um ritmo constante que dá pra passar a música inteira estalando os dedos. Blues direto na veia segue com “Some People Say I’m Crazy”. Em “Raining In My Heart” a voz de Lane fica mais suave e parece uma doce garoa caindo num sábado à noite. Logo depois, o clima fica leve e relaxado na belíssima balada “Let Me Into Your Heart”. Quem diria que a senhora que está cantando tem 83 anos? Ninguém. Os destaques do disco continuam com “Ain’t Nobody Else”, com Billy Branch na gaita e “Blues Give Me a Feeling”, também cheia de acompanhamentos de gaita. Segundo Mary Lane, “if you don’t dig the blues you have a hole in your soul”, é verdade. Em “Bad Luck and Trouble” Lane fala sobre o tema clássico do blues. Por fim, Lane vira acústica em “Make Up Your Mind”, arrasando do mesmo jeito. 

É uma pena esse talento ter ficado escondido por tanto tempo. De qualquer forma, Travelin’ Blues é um disco que não apenas coloca Mary Lane no mapa do blues mundial, mas sim a coloca como uma gigante do blues. Exatamente o que ela merece. 



quarta-feira, 4 de julho de 2018

Resenha de Buddy Guy, The Blues is Alive and Well


                O blues está vivo e bem. E, sem dúvida, um dos grandes responsáveis por isso é Buddy Guy, a lenda viva do blues, que aos 81 anos continua na atividade, fazendo shows, saindo em turnê e lançando ótimos e vigorosos álbuns que chamam a atenção e fazem um grande serviço ao gênero. The Blues is Alive and Well é o último lançamento de Buddy Guy, que em 2016 conquistou mais um Grammy pelo trabalho anterior, Born to Play the Guitar, de 2015. Como sempre e como vem fazendo há mais de 50 anos, Guy canta o blues, sente o blues, vive o blues e, acima de tudo, Buddy Guy é o blues. A cada novo disco lançado, o guitarrista lendário aproveita o tempo que lhe resta para falar de suas experiências, de suas vivências, sobre o que o blues lhe proporcionou durante sua longa vida e reflete ainda sobre a mortalidade, o momento da partida, pensamentos naturais para alguém chegando ao limiar da existência. The Blues is Alive and Well alterna esses momentos mais sérios, reflexivos, e momentos de diversão pura, o que prova que a idade não impede de desfrutar do que a vida, especialmente a vida que o blues guardou para ele, tem a proporcionar.

A faixa de abertura “A Few Good Years”, mais lenta, trata exatamente desse apelo por um pouco mais de bons anos, lembrando o quanto ele teve sorte e o quanto o blues transformou sua vida, possibilitando-o viajar pelo mundo afora e viver com boas condições financeiras. Mas a calmaria logo dá um tempo com a faixa seguinte, “Guilty As Charged”, sobre a vida namoradeira, cuja energia surpreende para quem já ultrapassou os oitenta anos e toca e canta dessa maneira tão intensa. “Cognac” é a primeira que conta com participações especiais, de nada mais nada menos do que Keith Richards e Jeff Beck. Para quem estava com dúvidas, estes nomes já indicam o tamanho do prestígio e da moral de Buddy Guy. A faixa é uma homenagem à sua bebida favorita, um conhaque, que ainda remete à fama de Muddy Waters de bom bebedor.  A faixa título, bem focada no soul blues, fala sobre a mulher traindo e enganando, um bom combustível para manter o blues vivo e bem.


“Bad Day”, um dos pontos altos do disco, acha Buddy Guy reclamando que depois de um dia cansativo e ruim é melhor ser deixado sozinho. Aqui Buddy Guy, que não é conhecido por letras críticas de protesto, dá uma cutucada na situação de perigo iminente dos negros nos Estados Unidos: “I was stopped by the police / Just for bein’ who I am / They said, why you goin’ in such a hurry / I said ‘Wooh! Guilty, damn!’”. A faixa “Blues No More”, bem no estilo B.B. King, conta com a participação de James Bay. “Whiskey for Sale”, com um ritmo bem funk, é a única faixa que destoa das demais em termos de qualidade. Tudo bem, está perdoado.




“You Did The Crime” tem a participação de outro ícone do rock, Mick Jagger, na gaita. “Old Fashioned” é um contraste de gerações. Tendo 81 anos, Buddy Guy certamente se sente um pouco fora de moda hoje em dia, principalmente cozinhar em fogão a lenha, deixar as portas abertas, respirar o ar da zona rural, dentre outras delicadezas que não nos damos mais o luxo. Como o título já sugere, “When My Day Comes” é outra na qual Buddy Guy reflete sobre a mortalidade, assim como “End of the Line”, onde ele também pensa nos amigos que perdeu e que às vezes se sente como se estivesse no fim da linha e reflete sobre o fato de ser a única lenda viva remanescente do blues: “I’m the last one to turn off the light”. Mesmo assim, estando  na última página do livro da vida, Buddy diz na letra que ainda dá conta do serviço.

O outro grande momento do disco fica para a versão de “Nine Below Zero”, clássica de Sonny Boy Williamson, onde Guy troca os solos de gaita pelos de guitarra e nos entrega uma versão super selvagem da música. O boogie “Oh Daddy” encaminha o disco para o final, junto com “Somebody Up There” , que é quase um momento espiritual, que depois de ver tudo o que viu e passou ele ainda estar vivo. “Alguém lá em cima deve gostar de mim”, conclui Guy. Por fim, a brincadeira ingênua e inocente na guitarra de “Milking Muther For You”.

The Blues is Alive and Well é mais um registro único da passagem de Buddy Guy por este plano. Alguém que foi salvo pela música, viveu na música e certamente irá morrer com a música. Embora no fim da linha, Buddy Guy nos dá uma mensagem reconfortante quando diz que talvez não tenha muito tempo restante, mas enquanto tiver, ele promete manter o blues vivo. O que temos de fazer é continuar aproveitando e nos sentido sortudos de poder desfrutar desse grande talento.


sexta-feira, 1 de junho de 2018

Ouça duas faixas do novo disco de Buddy Guy, The Blues is Alive and Well




                Conforme vai se aproximando do dia 15 de junho – dia do lançamento do novo disco de Buddy Guy, The Blues Is Alive and Well, vamos conhecendo mais um pouco do que vai ser o álbum. Há alguns dias, a primeira amostra do novo trabalho de estúdio da maior lenda viva do blues foi uma versão incrível de uma outra lenda, Sonny Boy Williamson II, com a faixa “Nine Below Zero”, na qual se troca a gaita de Sonny Boy pela incrível guitarra de Buddy Guy. Agora é a vez de conhecermos a segunda faixa liberada do disco, “Blues No More”, um belo dueto com James Bay. Confira as duas músicas abaixo:








quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Confira a resenha de The Cash Box Kings - Royal Mint





The Cash Box Kings é uma banda colaborativa por essência. Criada em 2001 pelo gaitista, cantor e compositor Joe Nosek, foi em 2007 que o grupo recebeu mais um membro fixo, o vocalista Oscar Wilson, que contribuiu para o salto de qualidade na sonoridade da banda. Os demais membros são flexíveis, dependendo do talento e da direção que aqueles que estão envolvidos queiram seguir. Para o novo trabalho da banda, Royal Mint, tantos talentos e experiências diferentes alcançaram uma ótima síntese do blues, resgatando elementos do Chicago blues de Muddy Waters, Jimmy Reed, principalmente, mas flertando em momentos diferentes com o Piedmont blues, country blues e Delta blues, transitando naturalmente do tradicional para o novo, e vice-versa.

Os destaques de Royal Mint são vários, começando pela própria regularidade durante todo o disco, mantendo a pegada sem cair no desinteresse, na mesmice ou com fusões sonoras confusas e desnecessárias para, a priori, alcançar um público maior. Sem dúvida, e sem desmerecer os demais, as faixas que contam com Wilson nos vocais se destacam pelo vigor que os cantores de blues normalmente tem. Depois de um início empolgante com os boogies “House Party”, de Amos Milburn, e o clássico “I’m Gonna Get My Baby”, de Jimmy Reed, Oscar Wilson capricha demais na versão de "Flood", de Muddy Waters. Na verdade, Wilson soa como uma encarnação de Waters. Um slow blues sensacional, mérito também de uma ótima banda de apoio. Mas não é somente nas regravações que The Cash Box Kings faz um grande trabalho. A faixa seguinte é a original "Build That Wall", na qual o grupo destila ironia sobre a decisão do governo Trump de construir o muro e fala umas verdades, digamos assim, incômodas. A letra diz: “Go on build that wall/ mistreat people with brown skin but most of all: you can ignore what Jesus said /you know the poor are better off dead. /come on now USA let's build that wall.”

A faixa seguinte, "Blues for Chi-Raq", em uma encarnação agora de Albert King, também aborda uma problemática atual: o aumento da violência, principalmente por armas de fogo, especificamente nos bairros em Chicago. Mais uma vez a banda faz um trabalho incrível na regravação do clássico de Robert Johnson, "Travelin' Riverside Blues". Em seguida, o grupo toca numa questão que com certeza já foi problema para muita gente nesse mundo de relações virtuais em que vivemos. "If You Got a Jealous Woman, Facebook Ain't Your Friend". O título é autoexplicativo. A parte final do disco nos reserva ainda ótimos momentos, além de mais regravações, como "Sugar Sweet" e "All Night Long", conta ainda com "I Come All The Way From Chi-Town", focado no estilo Piedmont blues de Sonny Terry e a divertida "Don't Let Life Tether You", com um dançante solo introdutório de gaita.

Contando com regravações poderosíssimas e canções originais relevantes de quem vive o tempo presente, executadas por integrantes que conhecem profundamente os diferentes estilos do blues, The Cash Box Kings reafirmam a relevância do blues para a cena musical contemporânea. De fato, é como o próprio Oscar Wilson descreveu o disco: "um retorno à era dourada do blues.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Confira o clipe-manifesto "Build That Wall" de The Cash Box Kings


A banda The Cash Box Kings lançou um novo disco, Royal Mint. Para promover o lançamento, a banda publicou no Youtube um clipe da música "Build That Wall", em que ataca as decisões políticas do governo de Donald Trump, especificamente a ideia de construir um muro para impedir a entrada de imigrantes e a falta de engajamento do governo dos Estados Unidos nos debates sobre as mudanças climáticas. No vídeo, o grupo também faz um manifesto político:

"Se você acha que racismo e a brutalidade policial contra negros não existiam 'até o presidente Obama ser eleito', então esta música é para você. (Faça um favor a você mesmo: vá ler qualquer livro de 5º ano de História da América, ou pesquise no google sobre comércio de escravos, Jim Crow, linchamentos, ...)

Se você acha que porque é branco ou tem um sobrenome 'não-étnico', você está de alguma forma mais aberto às oportunidades econômicas e direitos civis do que qualquer outro americano, então esta música é para você.

Se você acha que está tudo bem gozar, diminuir ou denegrir alguém por causa da cor da pele, do gênero, sua origem étnica, capacidade mental ou física, crenças religiosas ou preferência sexual,então esta música é para você.

Se você acha que está tudo bem agarrar uma mulher sem consentimento, ou assediar sexualmente, então está música é para você

Finalmente, se você testemunhou algum desses atos falados acima acontecer e não se sentiu disposto a falar contra eles, então está música é para você."

Abaixo segue a letra da música:

Build That Wall

WelI our faces aren't the same
and I can tell by your last name
this country means more to me than it does to you
We need to get back to that space
Where people knew their place
And when we're done with that let's go and build a wall

Build a wall go on build that wall mistreat people with brown skin but most of all:
you can ignore what Jesus said
you know the poor are better off dead.
come on now USA let's build that wall

You can grab her where you like there,
got no use for women's rights,
And if the girl complains she's probably just a dyke,
this PC thing’s a bunch of crap,
now we can mock the handicapped.
And when we're done with that we’ll go and build a wall.

Build that wall go on build that wall mistreat people with dark skin but most of all:
you can forget what Jesus said
ignore the sick they’ll soon be dead.
come on now USA let's build that wall

Take your science and your facts
you can blow them out your ass
'Cause the unexamined life is where it's at
Climate change ain't all that bad,
you know it's just a passing fad.
come on now USA let's build that wall

Build that wall go on build that wall mistreat people with black skin but most of all:
we’re gonna go and lead the fight to save the red, blue and white.




quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Resenha de The Rolling Stones - Blue & Lonesome





                Com certeza há aqueles álbuns difíceis e trabalhosos para gravar, compor e colocar todas as coisas meticulosamente nos seus devidos lugares; há outros, porém, que esse processo parece ser uma moleza. Esse é o caso de Blue & Lonesome, primeiro álbum de estúdio de Rolling Stones após mais de uma década, no qual a gigantesca banda decide dedicar o novo disco inteiramente ao blues. Não é surpresa que os Stones amem o blues, o que surpreende em Blue & Lonesome é o quão bem eles ainda tocam o blues. Acho que não é necessário abordar demoradamente a longa e intensa relação de Mick Jagger, Keith Richards e companhia com o gênero musical criado pelos negros dos Estados Unidos no início do século XX; o próprio nome da banda já entrega essa relação; o fato há 51 anos a regravação de “Little Red Rooster” chegar ao número 1 das paradas britânicas é outra evidência; a primeira aparição de Howlin’ Wolf na TV norte-americana ter sido como condição para os Stones participarem do programa em 1965, mais uma (“I think it’s about time you shut up and we had Howlin’ Wolf on stage”, Brian Jones disse à época). Mas ainda não é apenas isso: antes de ser uma das maiores bandas da história do rock, os Rolling Stones eram uma banda cover de blues, que viviam tocando as músicas que, atravessando o Atlântico, chegavam às casas desses jovens britânicos cheios de força criativa e energia. Pois bem, já deve ser possível imaginar a facilidade com que esses senhores que tocam juntos há mais de meio século, juntaram-se para gravar as músicas que eles tocam... bem, há mais de meio século. Esse é Blue & Lonesome, gravado em apenas três dias.



                O melhor também é que agora são realmente os Stones tocando o blues sendo os próprios Rolling Stones, e não apenas um bando de jovens britânicos em busca de criar seu som e querendo soar como seus ídolos transatlânticos. A voz de Mick Jagger está na sua melhor forma, bem como sua técnica com a gaita. O mesmo é verdade para toda a banda. Para melhorar, as músicas não são simples cópias das originais; em Blue & Lonesome os Stones colocam seu próprio DNA, o que torna o álbum não simplesmente um álbum de covers de blues, ou um álbum de tributo, mas sim um álbum dos Rolling Stones.
                Toda a tracklist é impecável, da faixa de abertura, “Just Your Fool”, de Buddy Johnson e regravada interminadas vezes, em que Jagger se solta totalmente como gaitista, à última faixa, a clássica “I Can’t Quit You Baby”, de Willie Dixon, com participação de Eric Clapton, outro aficionado por blues. Pode-se dizer que os fãs de blues reconhecem facilmente a grande maioria das doze faixas do disco e com certeza já vão ter em mente várias outras referências das mesmas músicas tocadas outras dezenas vezes. O que aparentemente poderia ser enfadonho faz o efeito contrário. A familiaridade facilita a dar valor, curtir mais diretamente o som e reconhecer o trabalho da banda. As escolhas estão centradas no som de Chicago das décadas de 40 e 50, então estão presentes naturalmente Little Walter (“Hate To See You Go”, “I Gotta Go”), Howlin’ Wolf, com a ótima versão de “Commit A Crime”, Buddy Guy e Junior Wells, com a clássica “Hoo Doo Blues”, Jimmy Reed, com “Little Rain” em roupagem brilhante e solo incrível de gaita, Eddie Taylor com outra favorita dos covers de blues, “Ride ‘Em On Down”, novamente Willie Dixon com “Just Like I Treat You” e, claro, Memphis Slim com a faixa título, “Blue And Lonesome”. (Senti falta de Muddy Waters, no entanto). A mais desconhecida do grande público talvez seja a ótima “Everybody Knows About My Good Thing”, de Little Johnny Taylor.
                Blue & Lonesome é fruto de um atalho no processo de gravação de um novo álbum de inéditas de Rolling Stones. A viagem no túnel do tempo fez a banda soar mais uma vez relevante e gigante como sempre fora, mas que alguns pareciam ter esquecidos. Espero que o alto nível alcançado com a happy hour com os amigos empolgue e impulsione a banda para um disco de inéditas tão bom quanto.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Resenha de Lil' Ed & The Blues Imperials - The Big Sound of Lil' Ed & The Blues Imperials


O guitarrista de blues Lil’ Ed Williams, seu meio-irmão e baixista, James “Pookie” Young,  e sua banda, The Blues Imperials, completam 30 anos de carreira em grande estilo. Seguindo os passos de seu tio, o cantor de blues J. B. Hutto, a dupla de irmãos e a banda imperial de blues construíram solidamente uma carreira que lançou o primeiro álbum em 1986, Roughhousin’, passando por mais sete discos durante esses trinta anos em que a banda acabou sendo aclamada por fãs de blues pelo mundo inteiro e pela crítica especializada; Lil’ Ed ficou sendo reconhecido como um dos grandes guitarristas de slide do blues contemporâneo. A banda de acompanhamento The Blues Imperials conta, além de Lil’ Ed e James Young,  com o guitarrista Mike Garret e o baterista Kelly Littleton, e devido a seu estilo e energia, recebeu descrições entusiasmadas de revistas especializadas. Enfim, foi premiado duas vezes com o Blues Music Awards, após  ter sido indicado ao oito vezes como a Banda do Ano.





 A discografia de Lil’ Ed & The Blues Imperials acaba de receber um novo item, o álbum The Big Sound of Lil’ Ed & The Blues Imperials, mantendo a mesma pegada da versão autêntica, crua e direta do blues de Chicago, cheia de solos de slide e trabalhos impecáveis guiados pelo talento de Lil’ Ed na guitarra. Com uma variedade interessante, o álbum, eletrizante do início ao fim, apresenta desde pesadas faixas do blues-rock, passando por dançantes batidas e emocionantes blues lentos repletos de solos incríveis de guitarra. Tudo isso combinado com a voz intensa e profunda de Lil’ Ed. Como disse o Chicago Reader, a banda é a “trilha sonora para dança e celebração infundida com um senso de sobrevivência duramente conquistada. Williams ataca suas letras como ele ataca sua guitarra: com uma intensidade que faz com que cada palavra soe como uma questão de vida ou morte”.

Das 14 faixas que compõe The Big Sound..., doze foram compostas por Lil’ Ed, enquanto as duas outras são versões de J. B. Hutto, o seu tio que por acaso é o lendário guitarrista de blues de Chicago, que são “Shy Love” e a belíssima “I’ll Cry Tomorrow”. Outros destaques do disco ficam por conta de “Raining In Paris”, “Whiskey Flavored Tears”, “Deep In My Soul”, “Trouble World”, dentre várias outras. O álbum é muito bem equilibrado, não perdendo o ritmo em nenhum momento, oferecendo suas especiarias na hora certa.

Certamente The Big Sound of Lil’ Ed & The Blues Imperials chega como mais um reflexo de uma banda talentosa que conhece o blues e entrega a encomenda sem avarias ou remendos. Altamente recomendado para os fãs de Chicago blues e de slides.


domingo, 19 de junho de 2016

Café & Blues: The Kitchen Table Blues - "The Blues Had A Baby and They Named It Rock'n Roll"



Como já deixei claro na inauguração do blog, o nome veio de uma música de Muddy Waters, “The Blues Had a Baby and They Named It Rock’n Roll”, presente no disco Hard Again, de 1977. E foi exatamente ela que The Reverend Shawm Amos, com a participação especial de Charles Wright, escolheu para tocar no episódio de hoje do The Kitchen Table Blues. Embora a hora do domingo não seja mais propícia para o café da manhã, confira abaixo o episódio 64 do 14º volume da série The Kitchen Table Blues, com Charles Wright: 



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Resenha: Bob Margolin - My Road


                O guitarrista de blues Bob Margolin é uma conexão direta com o passado; um passado, diga-se de passagem, bem majestoso. Entre 1973 e 1980, Margolin foi o guitarrista da banda de ninguém menos que Muddy Waters, durante uma fase de grande sucesso comercial para Waters, com a parceria com Johnny Winter, produzindo dois grandes álbuns, Hard Again, de 1977, e I’m Ready, de 1978, ambos vencedores de Grammys. A partir da década de 90, “Steady Rollin’” Bob Margolin, como também é chamado, passou a consolidar uma carreira solo com álbuns sempre muito elogiados e explorando os limites do gênero blues (Not Alone, de 2012, e em parceria com Ann Rabson, In North Carolina, de 2006, Up & In, de 1997 e My Blues & My Guitar, de 1995, são alguns itens de sua discografia que vale muito a pena conferir). Em 2016, Margolin lança mais um disco, chamado My Road, que destaca a trajetória desse guitarrista que tem muito que contar e muito mais ainda a oferecer com seu talento. Em várias das doze faixas do disco, Margolin adota o tom autobiográfico para falar um pouco da sua relação com o blues. A banda é enxuta, sem muito refinamento, o que provoca algumas canções “simplistas”, mas memoráveis.

                “My Whole Life” resgata sua trajetória na vida e no blues, que o levou ao momento em que se encontra agora. É um blues direto, bem no estilo de Muddy mesmo, repleta de solos de guitarra alternados pela gaita. “For every note I play there are 50 years of shows, 2 million miles of highways and a passion that just grows”. Uma declaração ao blues. Na romântica “More and More”, Margolin adota a voz mais melódica, enquanto o som fica mais enxuto, sem a gaita e apenas a guitarra, baixo e bateria, assim como em “I Shall Prevail”.

                A simplicidade atinge um nível memorável em dois claros momentos: em “Goodnight”, um belíssimo blues rural de raiz tocado e cantado por um inspirado Margolin. Um dos pontos alto do disco, sem dúvida, a ser somado com “By By Baby”, de Nappy Brown, na qual o dueto entre Margolin e Chuck Cotton é acompanhado apenas pela gaita. Um trabalho de harmonia magnífico entre os dois. Perfeito. “Low Life Blues” a coisa fica animada mais uma vez, com Ted Walters tocando gaita do jeito do mestre Little Walter no melhor estilo do Chicago Blues. No final da letra, uma grande lição para todos os amantes do blues: “well, you can call me a low life, but i’ll leave the high life too, cause if I’d never hit bottle, wouldn’t know all the things I do”. Tocou bem na essência, Mr. Margolin.

              “Young and Old Blues” é uma divertida visão sobre o choque de gerações, sobre envelhecer. A imagem que Margolin utiliza é ficar impressionado com B. B. King, um homem tão velho, tocar e cantar o blues como ele toca e canta. Em seguida, sua banda estava tocando tão alto numa escola para um monte de adolescentes que eles nem conseguiam conversar. Como Margolin diz, o novo e o velho depende de que lado você olha. É coisa pra quem gosta de música de velho, como se diz. Já “Ask Me No Question” lembra um pouco Johnny Cash, principalmente com a voz grave de Margolin. É o momento de depressão antes da festa de sábado a noite, que não tarda a chegar com “Feelin’ Right Tonight”. Hora de curtir, não importa o que lhe digam. Já “Devil’s Daugher” é para depois da farra, arrastada, cheia de solos de slide, sombria, deixando no ponto para uma dança com a filha do capeta.

                 “Heaven Mississippi” é um show à parte, para deixar todo fã de blues emocionado, pela quantidade de referências a essa terra que é tida como o Berço do Blues, o “paraíso”, o segregado, o racista Estado do Mississipi, que forneceu as condições para as experiências compartilhadas pela comunidade negra, que acabaram potencializadas no blues. Como bom conhecedor, Margolin acerta em cheio nas referências, pagando tributo especial a seu mentor, Muddy Waters, que é quem o guia nessa jornada: “Heaven Mississippi, the blues i love was there, heaven, heaven Mississippi old school blues fill the air”. Robert Johnson, Pinetop Perkins, Muddy Waters, Hubert Sumlin, Jimmy Rodgers, Willie “Big Eyes” Smith, Junior Wells, Freddie King, é por causa de todos esses e muitos outros, que Margolin enfim atesta: “in heaven Mississippi the blues will never die”.

                My Road é um álbum que atinge o seu objetivo: mostrar um pouco da carreira desse guitarrista que já tem onze discos solo, inúmeros projetos e participações especiais e está num momento especial em sua vida, sendo uma figura respeitável na cena do blues, com uma agenda frequente de shows e consistentes álbuns lançados. Ou seja, My Road é um compêndio das variadas facetas desse grande guitarrista do blues, mas mantendo-se sempre na sua maior paixão: o bom e velho blues.