terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Melhores Álbuns de 2016: Parte V


O disco do ano tem duas resenhas. A segunda bastante dolorosa. Mas vamos lá:

01. David Bowie - Blackstar

Como é possível para um artista beirando os 70 anos, dono de uma carreira excepcional de cinco décadas em todo e qualquer sentido, manter-se ainda ambicioso? A revista Uncut colocou uma enquete com 59 escritores e editores para saber os 200 melhores álbuns de todos os tempos. David Bowie foi o artista que teve mais menções (7 de seus álbuns estão entre os duzentos melhores da história; Beatles foi mencionado 6 vezes; The Cure, Bob Dylan e Neil Young, 5 vezes; The Rolling Stones, The Velvet Underground, 4 citações). Um artista desse nível, no sentido completo do termo, baseia sua motivação em continuar em termos de relevância, ou seja, em que pode contribuir ainda mais para permanecer relevante. É com essa reflexão que começo falando do novo álbum de David Bowie, Blackstar (★), seu 25º álbum de estúdio.  As resenhas iniciais das revistas especializadas mostram um entusiasmo e aclamação que os últimos trabalhos de Bowie, apesar de serem ótimos álbuns, não havia alcançado de forma tão unânime. A revista Rolling Stone definiu ★ como “O artístico e inquietante ‘Blackstar’ é a melhor obra prima anti-pop de Bowie desde os anos setenta”; o jornal The Independent afirma que “Blackstar é o mais longe que ele já se desviou pop”; A revista Uncut chama atenção para a amplitude do álbum “Jazz metal! Musical! Transformações sobrenaturais! Bem vindo ao (mais novo) ano zero de Bowie”; O New York Times é mais suscito e atesta: “Pegando o jazz de inspiração”. Todas essas resenhas exaltam em ★ componentes presentes nos álbuns mais clássicos da carreira de Bowie apontados na lista acima e elementos de uma ruptura completa com os trabalhos mais recentes, sugerindo uma nova fase na carreira de David Bowie.

Bowie é dono de uma das carreiras mais diversificadas do mundo da música. Artista inquieto, curioso, inventivo e completo, o camaleão do rock nunca ficou muito tempo confinado num único estilo. Normalmente, esses ciclos duram em torno de três álbuns, até que uma nova transformação esteja maturada. O último desses ciclos é representado por um Bowie tentando revisitar momentos clássicos de sua trajetória, um rock mais tradicional, e, por conseguinte, menos aventuroso. Os discos Hours, Heathen e Reality, de 1999, 2002 e 2003, respectivamente, são os frutos desse ciclo. Após um hiato de dez anos, David Bowie voltou surpreendentemente em 2013 com o álbum The Next Day, que pode se situar em um meio termo nessa linha de evolução. Ao mesmo tempo em que revisita Bowies do passado, The Next Day não se limita ao Bowie clássico, mas sim tenta fazer uma grande síntese de sua carreira (se é que é possível). Mas não apenas isso; mostrou um Bowie inventivo e com um olho no futuro, o que foi logo em seguida comprovado com a coletânea lançada Nothing Has Changed, de 2014. Numa faixa (a única inédita) em especial desta coletânea estava o embrião para uma nova fase, uma nova transformação na carreira de David Bowie. “Sue (Or In a Seasonof Crime)” apresentou um som completamente novo, mesmo em termos de Bowie. Seria essa a tal nova direção para a qual sua mente estava agora voltada? Outra faixa que surgiu como seu lado-B mostrou que essa aventura não havia sido isolada; “Tis’ A Pity She Was a Whore” tinha a mesma pegada estranha, um jazz eletrônico e tomado por solos de saxofone livres e dissonantes. Pouco sabíamos o que se passava na cabeça de Bowie (e menos ainda saberemos cada vez mais).  Até que em meio a participação de trilha sonora de série (The Last Panthers) e de uma peça de teatro (Lazarus), David Bowie anuncia o lançamento de um novo álbum, chamado de Blackstar (é, na verdade, uma única estrela negra, ★), junto com o clipe cinematográfico, sombrio e misterioso, com dez minutos de duração, da música de mesmo nome que já ultrapassou as cinco milhões de visualizações no youtube.  A partir daí ficamos sabendo um pouco da história por trás do álbum ★.

A aproximação com o jazz foi determinante para o surgimento de ★. As raízes já estavam criadas, mas foi depois do encontro – e posterior convite para compor a banda – de Bowie com o saxofonista DonnyMcCaslin que deu corpo à idealização do novo projeto. Donny já tem sua própria carreira solo, com dez álbuns lançados, e, depois de Bowie assistir de surpresa a uma apresentação sua em Nova York, passou a integrar a banda que gravou ★, junto com os integrantes de sua própria banda, como o tecladista Jason Lindner, o baixista Tim Lefebvre, o percussionista Mark Guiliana e o guitarrista Ben Monder. Tirando o produtor e amigo Tony Visconti, toda a equipe da banda era totalmente nova para David Bowie.

Passemos agora, de fato, para a análise das sete músicas que compõem Blackstar, fazendo dele um dos discos mais concisos da carreira recente de Bowie (apenas quarenta minutos). A faixa de abertura é a já conhecidíssima “Blackstar”, que tem uma das alterações mais incríveis no meio de uma música. A ponte em que Bowie começa a cantar acompanhado pelo piano e que vai crescendo é simplesmente genial. Uma música dentro da música de forma teatral. O fato de conhecermos previamente duas das sete músicas servia quase como um anticlímax, ao menos até “Tis’ a Pity She Was A Whore” começar totalmente repaginada. A explicação está intimamente ligada à história de ★; a faixa que era previamente conhecida foi gravada em 2014 com a banda Maria Schneider Orchestra (que tinha Donny como saxofonista solo), um experimento pós-moderno de jazz. Como foi dito acima, ela e “Sue (Or In a Season Of Crime)” serviram para indicar a Bowie um caminho certo a seguir. Em ★, ambas ganharam novas versões com DonnyMcCaslin como líder da banda, o que deu uma liberdade maior para seu sax flutuar livremente pelas músicas. Embora as duas tenham perdido um pouco de tempo de música (dá vontade que tivessem mais de dez minutos cada), o resultado ficou ainda melhor. A produção deixou as duas mais limpas e dá para ouvir mais claramente a overdose de sons que passeiam freneticamente pela música, com solos asfixiantes de sax (em alguns momentos de “Tis’ A Pity SheWas a Whore” dá para ouvir Bowie soltando vários “Woo” deempolgação) e o momento mais rock n’ roll do disco, ao final de “Sue (Or In a Season Of Crime)”, com guitarras distorcidas relembrando um pouco do rock industrial dos meados da década de 90. A faixa seguinte, “Lazarus”, que foi uma das quatro novas músicas compostas por Bowie para o musical de mesmo nome (mas a única que entrou na seleção final de ★), é mais simples – ou melhor, direta – do que as anteriores, focada mais na melodia, mas ainda com espaço para o sax de Donny se destacar, especialmente na metade final. 

A quase robótica “Girl Loves Me” é a mais estranha do álbum, com a letra quase irreconhecível, com palavras coletadas da obra Laranja Mecânica e gírias do chamado Polari, utilizado pela comunidade artística e membros da subcultura gay da Londres de meados do século XX,  mas com um ritmo muito interessante. “Dollar Days” é o mais próximo de uma balada aqui, com um piano delicado e simplesmente um solo incrível de saxofone. E parafechar o álbum de forma épica, “I Can’t Give Everything Away” parece desvendar um dos grandes mistérios de Bowie (ou não): “Saying more and meaning less / Saying no but meaning yes / This is all I ever meant / This is the message that I sent”. Nunca isso ficou tão claro – ou, na verdade, obscuro – quanto em ★. As temáticas são soltas, enigmáticas, cheios de personagens (às vezes mais de um por música, como em “Blackstar”) e transformações esquisitas. Não existe um fio condutor temático em Blackstar; existe um pouco de tudo: o sobrenatural em “Blackstar” (“Something happened on the day he died/Spirit rose to leave him and stepped aside”); imagens violentas em “Tis’ A Pity She Was a Whore” (“Man, she punched me like a dude/Hold your mad hands, I cried); cenas de assassinato em “Sue (Or In a Season of Crime); uma letra quase criptográfica como em “Girl Loves Me”; ou a reflexão cheia de nostalgia sobre a luta contra a morte de “Dollar Days” (“Dollar days 'til final checks, honest scratching tails the necks I'm falling down”).

Pelo resultado encontrado em ★, tudo indica e espera-se que de fato seja a inauguração de uma nova fase da carreira de David Bowie; os próximos passos, como sempre são quando se está falando de David Bowie, são imprevisíveis. Enquanto isso cabe a nós recolher as riquezas do disco a cada vez que o colocamos para tocar. Somente o distanciamento histórico necessário será capaz de definir a posição de ★ no hall de clássicos de David Bowie; mas algo muito forte sugere que estamos diante de um álbum daqueles que marcam uma geração.


Depois da trágica notícia de ontem, a excentricidade de David Bowie é tanta que, além de fazer da própria morte uma obra de arte, conseguiu também criar dois sentidos, duas leituras, duas significações para o seu último álbum, lançado há apenas 3 dias, Blackstar. Diante do segredo de sua doença e iminente morte, todos acreditavam que Bowie tinha todo fôlego criativo que necessitava, principalmente logo após uma nova ruptura, um novo "ponto zero" que Blackstar representava. Com a sua morte, no entanto, há uma completa ressignificação de Blackstar e que se faz necessária uma nova resenha, apontando as mensagens que ele deixou secretamente nas músicas para quando o momento realmente chegasse. Infelizmente, ele chegou bastante rápido. 

Na resenha publicada no blog no último dia 6 (bem como por todas as revistas especializadas do mundo da música), Blackstar foi aclamado como um ponto de partida, um recomeço. No entanto, agora fica claro que na verdade ele é o fim da linha, o ponto final, o fechar das cortinas da carreira – e vida – de David Bowie. 

Já na faixa de abertura, “Blackstar”, aparecem imagens que remetem a uma ascensão, uma passagem, uma elevação de um plano para outro, cheio de simbologias dramáticas e metafísicas, enquanto Bowie fica reafirmando que é uma Blackstar, e não uma estrela do pop, um super herói da Marvel ou a Estrela das estrelas (apenas algumas das inúmeras definições por negação cheias de simbolismos). “Something happened on the day he died / Spirit rose a metre and stepped aside / Somebody else took his place, and bravely cried / (I’m a blackstar, I’m a blackstar)”.   

Numa das músicas mais claras após a “ressignificação”, “Lazarus” pode ser considerada a despedida de David Bowie. O que parecia se tratar de apenas um personagem como outro qualquer, o Lazarus da música é o próprio Bowie. E a união da letra da música com o clipe é simplesmente de arrepiar. Nessa passagem Bowie fala do paraíso e quase se justificando pela grande encenação de sua morte. Ele possui o drama, afinal, ele é a dramaticidade em pessoa, o que não lhe pode ser furtado nem mesmo no momento de sua morte. O “todos me conhecem agora” pode se remeter ao fato aclamação geral diante de uma celebridade morta. Bowie sabia do que estava falando. A NME noticiou ontem que nunca as músicas de Bowie no Spotify foram tão ouvidas como depois de sua morte. A letra continua como uma libertação, utilizando a imagem de um pássaro. No clipe, tanto de “Lazarus” quanto de “Blackstar”, os botões no lugar dos olhos da faixa que Bowie usa pode ser uma referência a Caronte, o barqueiro do Hades que carrega os recém-mortos que tinham moedas nos olhos. 

"Look up here, I'm in heaven
I've got scars that can't be seen
I've got drama, can't be stolen
Everybody knows me now

Look up here, man, I'm in danger
I've got nothing left to lose
I'm so high, it makes my brain whirl
Dropped my cell phone down below
Ain't that just like me?

By the time I got to New York
I was living like a king
Then I used up all my money
I was looking for your ass

This way or no way
You know I'll be free
Just like that bluebird
Now, ain't that just like me?

Oh, I'll be free
Just like that bluebird
Oh, I'll be free
Ain't that just like me?"


Por fim, as duas últimas músicas, “Dollar Days” e “I Can’t Give Everything Away” também passam por ressignificações. A saudade de nunca mais ver os campos sempre verdes da Inglaterra é a máxima aceitação da morte. Afinal, se não puder mais vê-los, tudo bem por ele. Diante da sua morte, a fragilidade expressa no refrão mostra o conflito entre querer muito fazer algo (“I’m dying to”) e ao mesmo tempo estar morrendo rapidamente (“I’m dying too”) e lutando diariamente contra a inevitabilidade da morte (“i’m trying to”). Ao mesmo tempo, Bowie manda mensagens de amor possivelmente para as suas pessoas queridas (“don’t believe for just one second i’m forgetting you / i’m trying to / i’m dying to”). A música já era incrivelmente bela antes de sua morte (e o solo de sax continua de arrepiar) e agora fica de despedaçar o coração. O mesmo acontece com “I Cant Give Everything Away”. Impossível ouvir agora essa música e não imaginar o quão difícil foi para David Bowie segurar a barra de saber da morte iminente ao mesmo tempo em que tem se a consciência do que se deseja fazer dela. Encontrando-se em uma posição na qual todos se dobram, impotentes, diante da morte, David Bowie simplesmente fez com que ela (a morte e a própria inevitabilidade da morte) se dobrasse diante dele. Não foi fácil. As imagens presentes na letra são fortes e sinceras. “I know something is very wrong /  The pulse returns the prodigal sons /  The blackout hearts, the flowered news / With skull designs upon my shoes”. Além de deixar claro o legado de sua arte, a sua mensagem final:  “Seeing more and feeling less / Saying no but meaning yes /  This is all I ever meant / That's the message that I sent”.

Como Tony Visconti afirmou na mensagem do seu Facebook, comentando sobre a morte do amigo e colaborador, Blackstar é o presente de partida de David Bowie. Doloroso, apoteótico, épico,dramático, artístico, performático, ousado, ou seja, tudo o que David Bowie foi em vida e continuará sendo na morte na forma de uma Estrela Negra.







02. Leonard Cohen - You Want It Darker

O n.º 2 do ano também deixou um álbum impecável de despedida. Infelizmente, não tive tempo disponível para fazer a resenha de You Want It Darker de modo adequado, mas o disco tem tudo o que se esperar de Leonard Cohen. poesias belíssimas sobre a vida e a morte, que também ganham um significado ainda mais forte com a morte do compositor canadense pouco depois do lançamento do disco. Mais um ótimo e doloroso álbum-testamento de um artista-gênio. Perdemos dois em 2016. 







03. Rolling Stones - Blue & Lonesome

Com certeza há aqueles álbuns difíceis e trabalhosos para gravar, compor e colocar todas as coisas meticulosamente nos seus devidos lugares; há outros, porém, que esse processo parece ser uma moleza. Esse é o caso de Blue & Lonesome, primeiro álbum de estúdio de Rolling Stones após mais de uma década, no qual a gigantesca banda decide dedicar o novo disco inteiramente ao blues. Não é surpresa que os Stones amem o blues, o que surpreende em Blue & Lonesome é o quão bem eles ainda tocam o blues. 

Blue & Lonesome é fruto de um atalho no processo de gravação de um novo álbum de inéditas de Rolling Stones. A viagem no túnel do tempo fez a banda soar mais uma vez relevante e gigante como sempre fora, mas que alguns pareciam ter esquecidos. Espero que o alto nível alcançado com a happy hour com os amigos empolgue e impulsione a banda para um disco de inéditas tão bom quanto.






04. Sugar Ray & The Blue Tones - Seeing Is Believing

Com o que Sugar Ray & The Bluetones atingem em Seeing Is Believing, através de um blues original, cheio de personalidade e talento, uma coisa fica como certa: o número de indicações – tanto da banda quanto dos membros individuais - para os maiores prêmios do blues com certeza deverá ser atualizado em breve.







05. John Long - Stand Your Ground

O que John Long nos mostra em Stand Your Ground é que o blues não tem tempo, pois um blues cujos mestres remetem às fases pré-guerra ainda soa tão atual e ambientado aos novos tempos, com nossos sentimentos, nossas preocupações com a morte, nossas batalhas diárias pela sobrevivência. Sem dúvida, até este momento, ocupa confortavelmente a posição de melhor álbum de blues do ano.







06. Gregory Porter - Take Me To The Alley

Seguindo com as grandes vozes do ano, Gregory Porter não poderia ficar de fora. Com um som elegante e sensual, Porter leva o jazz ao grande público sem nenhuma dificuldade. Take Me To The Alley tem de tudo: música pra dançar, namorar, sofrer. Enfim, grande disco de um talentoso cantor e compositor. 







07. Barrelhouse Chuck - Remembering The Masters

O estilo do pianista de blues Barrelhouse Chuck é uma celebração dos grandes mestres do piano blues. Num estilo que se mantém fiel às origens, Chuck lança um álbum digno de clássicos das lendas do piano. O disco está completo no Spotify. 



08. Harpdog Brown - Travelin' With The Blues

Com Travelin’ With The Blues, sem dúvida Harpdog Brown está se encaminhando para ser incluído no hall dos grandes nomes do gênero na atualidade. Se engrenar uma sequência de álbuns dessa qualidade, ele conseguirá. Energia, talento e vontade ele tem. Afinal, ele mesmo falou recentemente: “depois de mais de 30 anos de sangue, suor e lágrimas, parece que estou apenas começando. Tenho só 54 anos – isso é jovem no mundo do blues”.






09. Cedell Davis - Even The Devil Gets The Blues

Em “Ain’t Planing On Dyin’” Davis conta como viver uma vida plena. Aos 90 anos, Davis não planeja morrer e talvez por isso ainda esteja por aí viajando e fazendo shows mundo afora. Para alguém que está na luta há quase um século, que sobreviveu à febre amarela na infância, cresceu no Sul da segregação racial do Jim Crow, viu o surgimento do rock, a luta pelos direitos civis, e ainda resistiu a um infarto aos 79 anos, Even The Devil Gets The Blues parece de fato ser um registro de uma vida preciosa, intensa, dura, divertida e sofrida, vivida plenamente até o último segundo. 







10. Varius Artists - God Don't Ever Change: The Songs of Blind Willie Johnson


Uma publicidade feita pela Columbia Records nos anos iniciais da carreira meteórica de Blind Willie Johnson dizia: “Hear Blind Willie Johnson spread the light of old-time faith”; God Don’t Never Change: The Songs of Blind Willie Johnson é mais do que uma simples coletânea para celebrar a carreira de um artista já morto; é mais do que apenas preservação de um legado histórico; é muito mais do que um golpe de publicidade, do que a reunião de artistas famosos para vender um álbum. Se for verdade o que dizem que a música é uma janela para Deus; bem, então God Don’t Never Change: The Songs of Blind Willie Johnson é a uma das janelas mais belas e iluminadas que foram abertas na música.





PARTE I (Menções Honrosas + 50 À 41)
PARTE II (40 À 31)
PARTE III (30 À 21) 
PARTE IV (20 À 11)


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Melhores Álbuns de 2016: Parte IV






Let Me Get By consegue captar todo o potencial da grande banda Tedeschi Trucks Band, agora não somente grande apenas no número de integrantes, mas grande também pela música, recheada de maturidade, criatividade e profundidade. Um grande e grandioso álbum. Sem dúvida, “grande” é o adjetivo perfeito para Let Me Get By.






12. Dinosaur Jr. - Give a Glimpse At What Yer Not

É incrível uma banda como Dinosaur Jr. A maneira que eles conseguiram desenvolver sua fórmula e se manter nela num nível elevadíssimo de qualidade não é qualquer um que consegue. Give a Glimpse At What Yer Not é mais um belíssmo disco que faz com que Dinosaur Jr seja uma das poucas bandas que continuam lançando discos no nível equivalente aos seus discos clássicos de início de carreira.








13. Big Jon Atkinson & Bob Corritore - House Party At Big Jon's

Uma parceria incrível de dois caras que manjam muito de blues, o guitarrista Big Jon Atkinson e o gaitista Bob Corritore. Ainda tem a participação de Alabama Mike, que já apareceu por nossa lista, Dave Riley, Tomcat Courtney e Willie Buck. O selo Delta Groove apresentou alguns dos álbuns de blues mais tradicionais e puros que é possível fazer nos dias de hoje. House Party At Big Jon’s quase transporta você de volta para os anos 50, no auge do Chicago blues. Enfim, é um álbum maravilhoso para colocar pra ouvir e ficar curtindo um som com os amigos e tomando uma cerveja.










14. Lurrie Bell - Can't Shake This Feeling

Lurrie Bell, filho de grande gaitista Carey Bell,  é um dos maiores nomes do blues contemporâneo. Can’t Shake This Feeling é mais um sinal de que Bell vem construindo uma carreira significativa, digna de uma verdadeira lenda. Dentre covers e originais, todo o disco é uma celebração do blues de Chicago.








The Blues, The Whole Blues and Nothing But The Blues é exatamente o que o título sugere, mostrando ainda que, além do blues, todo o blues e nada mais que o blues, Bromberg  ainda consegue apresentar variações bem interessantes, deixando o álbum ainda mais rico.







16. Teenage Fanclub – Here

Os herois do alternativo da década de 90 estão de volta com um novo disco. O que impressiona é que eles ainda estejam tão bem! Here tem tudo o que os fãs do Teenage Fanclub podem esperar: belas melodias e ótimas texturas de guitarra.



Joe Bonamassa dispensa apresentações mais prolongadas. Como todos sabem, seria impensável Bonamassa passar um ano inativo ou sem lançar algo novo, seja um disco de estúdio ou um disco ao vivo (contando com Blues of Desperation, Bonamassa já lançou três discos só em 2016). Blues of Desperation confirma Bonamassa como o melhor do blues-rock à disposição no mercado.








Não é só porque o próprio Big Harp George visitou o blog e comentou na resenha do disco. É porque Big Harp faz um grande blues, com composições próprias e letras significativas que resgatam um pouco do lado positivo do blues, em músicas como “I Ain’t The Judge of You” e “Justice In My Time”. Em tempos turbulentos, em que as pessoas reclamam que a vida perde a graça com o politicamente correto, Big Harp George mostra que se pode se divertir respeitando os outros e buscando sermos melhores pessoas sempre. Por isso, uma grande relíquia para 2016.








O diferencial de um álbum novo de um artista já consagrado é que ele não compõe pressionado, não tem nada mais a provar a ninguém, o que torna o álbum despretensioso e, de certa forma, revelador de um lado mais pessoal e humano do artista. É algo que acontece com vários desses deuses do rock, como Paul McCartney e Bob Dylan mais recentemente. Não nos compete comparar com os clássicos feitos do passado, apenas desfrutar de mais alguns momentos musicais agradáveis com um gênio da música, algo quase em extinção. I Still Do é um álbum leve e que mostra que Clapton ainda tem o blues. Sugere-se que este pode ser o último disco de sua carreira, de acordo com uma nota que o próprio escreveu; nesse caso, seria uma delicada, singela e suave despedida.







20. Colin James - Blue Highways
O canadense Colin James lança mais um grande álbum de blues, cheio de versões de clássicos que ficam maravilhosos nessa nova releitura, com destaque para “Gypsy Woman” e “Hoodoo Man Blues”.



quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Melhores Álbuns de 2016: Parte III







Certamente The Big Sound of Lil’ Ed & The Blues Imperials chega como mais um reflexo de uma banda talentosa que conhece o blues e entrega a encomenda sem avarias ou remendos. Altamente recomendado para os fãs de Chicago blues e de slides.







22. Liniker e os Caramelows - Remonta

O disco nacional mais bem colocado do ano é esse. Após chamar atenção nas mídias sociais com um EP em 2015, a banda paulistana Liniker e os Caramelows estreiam com Remonta, um álbum sensacional, empolgante do início ao fim; eclético, mistura um pouco de MPB, Black Music, Soul, Indie, Rock, enfim, uma miscelânea digna de nota e muito bem cadenciada pela voz incrível de Liniker. A qualidade lírica da banda também merece destaque, com letras que chamam a atenção e mexem com você. Belíssima estreia.












Livin’ On a High Note está enquadrado no contexto de reação dos representantes da comunidade negra dos Estados Unidos de se levantar e denunciar a ultrajante violência sofrida pelos seus jovens. O fato de vir de uma remanescente dos movimentos de luta pelos direitos civis da década de 60 torna a mensagem ainda mais marcante para os mais novos. A julgar por Livin’ On A High Note, Mavis Staples ainda tem muito que dizer. Voltando ao paralelo com Elza Soares, se em 2015 Elza Soares foi a Mulher do Fim do Mundo, na esfera profana, então Mavis Staples é a Mulher do Fim do Mundo na esfera do sagrado. Mavis Staples oferece pouco de paz e esperança em meio ao turbilhão.










24. Iggy Pop - Post Pop Depression

Para o décimo sétimo álbum da sua carreira, Iggy Pop escolheu uma parceria de peso. Josh Homme do Queens of the Stone Age foi o escolhido e certamente deu um tom mainstream que conectou com uma geração mais nova e que contribuiu bastante para que Iggy Pop atingisse o nível que ele alcança em Post Pop Depression. Dada a proximidade de Iggy com Bowie, e o lançamento do disco tendo sido pouco tempo depois da morte do cantor britânico, o título fica quase como Post Bowie Depression. De qualquer forma, foi um ótimo passo para a carreira de Iggy, elevando-o ao ponto em que ele deve estar na história do rock e da cultura pop em geral.










Este foi um dos primeiros álbuns que ouvi no ano. My Road é um álbum que atinge o seu objetivo: mostrar um pouco da carreira desse guitarrista que já tem onze discos solo, inúmeros projetos e participações especiais e está num momento especial em sua vida, sendo uma figura respeitável na cena do blues, com uma agenda frequente de shows e consistentes álbuns lançados. Ou seja, My Road é um compêndio das variadas facetas desse grande guitarrista do blues, mas mantendo-se sempre na sua maior paixão: o bom e velho blues. O álbum está disponível no Spotify.




26. Clarice Falcão - Problema Meu

Um episódio típico que ocorreu ontem traduz muito bem o conteúdo e o estilo de Problema Meu, novo disco de Clarice Falcão (e Clarice sabe muito bem disso). O clipe da música "Eu Escolhi Você" foi postado no youtube e logo em seguida foi excluído do site por cenas de nudez explícitas. Isso porque o clipe consiste em filmar as vaginas e os pênis das pessoas, literalmente. A câmera fica enquadrada numa posição só, da barriga ao joelho, aproximadamente, e as pessoas vão aparecendo e mostrando suas coisas. Só isso. O suficiente para a internet toda falar disso hoje, muitos de maneira hipócrita. E Clarice sabia disso. O disco Problema Meu está impregnado desse humor provocador e ousado. E esse é o grande trunfo de Clarice, que somado a uma grande capacidade criativa de imaginar situações inimagináveis e escrever sobre elas, a torna numa artista única no cenário artístico e musical nacional. 







27. Alexis P. Suter Band - All for Loving You


Se tivesse ma lista das melhores vozes do ano, seria um crime não colocar a cantora Alexis P. Suter entre pelo menos as três primeiras colocações. Duvida?Escute All for Loving You, um blues-rock intenso e, mais do que isso, ouça a versão redentora de "Let It Be", dos Beatles, e veja se você não se arrepia todo(a). Ela mesma já venceu duas vezes o prêmio Koko Taylor Vocalista do ano na categoria Blues/Soul.






28. David Burgin - No Money Down

O desconhecido David Burgin mostra toda sua habilidade na gaita em No Money Down. Alternando instrumentais, covers e composições próprias, Burgin entrega aqui um blues tradicional e direto, como você pode ver em "Just A Fool"








29. Wilco - Schmilco


A posição 29 não é típico de Wilco, mas Wilco é Wilco. Essa frase pode resumir os últimos trabalhos da banda norte-americana Wilco, que tem alguns álbuns dentre os clássicos da década passada, mas que recentemente tem perdido um pouco o vigor criativo. Isso não quer dizer que tenha deixado de ser interessante. Schmilco é esse meio termo que Wilco encontrou, ou seja, não chega a correr mais riscos,e mantém a fórmula de sucesso.








30. William Bell - This Is Where I Live

O soul deu as caras novamente na lista de melhores do ano, dessa vez com uma das lendas do gênero, compositor de músicas como "You Don't Miss Your Water" e "Born Under A Bad Sign", William Bell. Para This Is Where I Live, Bell retorna para a gravadora mais icônica da soul music, a Stax Records, que ajudou a lançar sua carreira. A lista de músicas em Whis Is Where I Live é ótima e muito bem equilibrada em termos de qualidade. E a voz de William Bell parece a de um garoto que está começando a carreira. Incrível.