Mais
uma lenda da música anuncia que tem material novo para lançar. Leonard Cohen, poeta
e um dos melhores compositores da história da música, em seus plenos 82 anos,
acabou de anunciar um novo álbum, You Want It Darker.Apesar de ter perdido recentemente sua musa e
amiga Marianne Ihlen, a inspiradora da clássica música “So Long, Marianne”, e
tendo dito que logo a seguiria numa emocionante carta enviada para ela no leito
de morte, Cohen dá sinais de que continua ativo e interessado por fazer música.
O disco com título bastante sombrio é a sequência do ótimo Popular Problems, lançado
em 2014. Um trecho da música título foi divulgado na série Peaky Blinders.
Confira abaixo a tracklist de You Want it Darker, o trecho da faixa-título e,
claro, a despedida para Marianne, com “So Long, Marianne”:
01 You Want It Darker
02 Treaty
03 On the Level
04 Leaving the Table
05 If I Didn’t Have Your Love
06 Traveling Light
07 It Seemed the Better Way
08 Steer Your Way
09 String Reprise/ Treaty
Johnny Cash é um mito. A essa
altura do campeonato, o que quer que for se falar de Cash há de se levar em
consideração isso: o cara é um mito. Inclusive, a áurea lendária dele parece
receber contornos sobrenaturais, já que continuam surgindo discos inéditos do
cantor mesmo mais de dez anos após a sua morte, em 12 de setembro de 2003.
Nesse mês de março, Johnny Cash lança seu terceiro álbum póstumo de inéditas,
chamado Out Among The Stars, resgatado pelo filho do cantor, John Carter Cash
(que garantiu que ainda há mais discos inéditos a ser lançados futuramente), gravado
originalmente no período entre 1981 e 1984 (enquanto lutava contra a
dependência de drogas), na década em que, digamos, não foi exatamente a década
de ouro para Cash. Out Among The Stars foi recusado pela gravadora, que o
arquivou. Uma pena; porque o disco tem ótimas canções, entre alguns baixos
momentos, os quais encaramos com certa condescendência.
Começamos com a faixa de abertura
homônima “Out Among The Stars”, com Cash sendo o Cash de sempre, com um belo e
cativante refrão, entrecortada por momentos de conversação, mostrando uma
preocupação social com desemprego e violência. “He can't find a job but Lord he's found a gun”.
Em alguns trechos parece que Johnny Cash levantou-se do seu túmulo e
veio falar sobre esse assunto tão atual, sobretudo na sociedade brasileira,
onde a classe média com um ódio sedento dos “vagabundos de plantão”, em
campanhas de violência gratuita.“He knows that when they're shooting at this loser They'll be aiming at
the demons in their lives”.
“Baby Ride Easy”, um country bem
veloz, é um dos dois duetos com a sua esposa June Carter (“Don’t You Think Our
Time Will Come” é a outra). “She Used To Love Me a Lot”, de David Allen Coe,
ganha nova vida aqui, coisa que o clipe representa muito bem através da síntese
do sombrio e belo, a resistência nostálgica a deixar um amor ir embora, com a
firmeza clássica do vocal de Cash, um dos pontos altos, sem dúvida. E a crueza da verdade: "Yes I'm in
need of something But it's something you ain't got But I used to love you a lot”
“After All” é uma quieta balada, acompanhada
no piano, com uma bonita melodia, mas não chega a ser marcante. “I’m Movin’ On”
tem a participação de Waylon Jennings e parece ter sido gravada no estúdio ao
vivo, entre conversas e risadas, dueto bem interessante e animado. “If I Told
You Who It Was” leva um cômico Cash contando uma história para depois entrar
num refrão bem rápido, uma mudança bem bolada e divertida, no melhor estilo
contador de histórias, um encontro casual com alguma personalidade famosa. “Call
Your Mother” é, por sua vez, uma tocante balada também com uma pontinha de humor,
numa roupagem mais séria e trágica. “Gently break the news that you don't love me And give my best regards
to your good old dad”
“I Drove Her Out Of My Mind” tem
uma variação de ritmo bem interessante, aumentando e diminuindo a velocidade de
acordo com a história narrada. A partir daí o disco vai perdendo força; “Tennessee”
é suave e gostosa de se ouvir, mas passa longe de ser memorável, bem como “Rock
And Roll Shoes”. “I Came To Believe”, apesar de muito boa, perde um pouco do
ineditismo, já que saiu no álbum V: A Hundred Highways, de 2006.
Out Among The Stars é mais um álbum
póstumo de Johnny Cash que nos ajuda a recolher os vestígios de sua arte pelo
mundo. É um crime um disco como esse ter permanecido incógnito por tanto. Johnny
Cash é um dos que merecem um registro completo de sua obra, entre erros e
acertos. Out Among The Stars não chega a marcar a carreira dele, mas o seu
valor histórico e artístico é inegável, tanto pelas músicas que aqui se
encontram como pelo apelo por ser um álbum perdido de Johnny Cash. É muito mais
um acerto do que um erro. Um erro – e este bem grave – foi terem-lhe
engavetado.
Vem mais coisa inédita do clássico cantor folk
norte-americano Johnny Cash. No dia 25 de março, será lançado mais um álbum
póstumo, chamado Out Among The Stars, composto por canções até então perdidas,
gravadas por Cash no início dos anos 80. A fim de preparar o terreno para o
lançamento, foi divulgado um vídeo clipe da música “She Used To Love Me A Lot”,
dirigido por John Hillcoat, filmado durante um mês de viagens pelo país,
colecionando imagens de uma América mais desértica e dura.
Um dos artistas mais
irreverentes, inventivos e originais dos Estados Unidos, Beck, está de volta
após longos seis anos de relativa ausência. A ausência de fato nunca foi
completa. Beck manteve-se ocupado no showbizz em diversas atividades, as mais
interessantes sem dúvida foram as produções de alguns ótimos álbuns, como
Mirror Traffic, de Stephen Malkmus, e Demolished Thoughts, de Thurston Moore,
do Sonic Youth. Em 2014, Beck lança o primeiro disco inédito depois de Modern
Guilty, de 2008, com o discurso de ser mais focado num único estilo, algo como
o sucessor de sua obra prima de 2002, Sea Change, ou seja, um som mais
acústico, folk californiano. Na verdade, Morning Phase é um dos álbuns que Beck
tem pronto. O segundo tem outro enfoque, outra pegada. Beck sempre foi o tipo
de artista que valoriza bastante o formato de álbum, tentando manter uma
proposta inicial, algo desde efusões experimentais, como é o caso de alguns dos
seus trabalhos mais aclamados, como Mellow Gold, de 1994 e Odelay, de 1996, ou
algo mais tradicional, como meu favorito já mencionado Sea Change. E é assim
que Morning Phase foi concebido.
No entanto, pode-se perceber
algumas diferenças importantes em Morning Phase. De acordo com o próprio Beck,
Morning Phase é emocionalmente mais leve que o seu antecessor, bem mais
melancólico e pesado. Embora ainda possa ser encontrados aqui vestígios de
pensamentos e emoções sombrias, como em “Wave”, o tom que guia o trabalho é
algo mais reflexivo, até mesmo mais otimista. A faixa de abertura, “Morning”,
já é uma agradável brisa soprando na face sonolenta, que abre a janela para ver
como está o dia lá fora, às vezes com uma esperança no recomeço, outras vezes
com um pingo de tristeza nostálgica. “Looked up this morning, saw the roses full of thorns”. A
esperança e a satisfação de se está vivo pode ser evidenciada por “Heart Is A
Drum”, mostrando uma atitude amadurecida para lidar com a dor e as frustrações
da vida.
Em “Say Goodbye” é cheia de
imagens de rompimentos e adeuses.'Cause these are words we use to say goodbye”. No entanto, o
narrador parece um pouco distante do personagem. Não soa tão sentido, tão
absorvido pela dor como nos grandes momentos de Sea Change, por exemplo. A
música, com uns solos de banjo, não soa tão pra baixo assim. Provavelmente foi
por causa dessa dissonância que em Morning Phase, apesar de ser um álbum muito
bom, não chega a deslumbrar como Sea Change. A sequência continua com a
ensolarada “Blue Moon”, antes de entrar nos momentos mais sombrios, com os dois
números “Unforgiven”, sem dúvida uma das mais tocantes, exatamente porque há
essa união, e “Wave”, um pouco mórbida demais.
Exatamente surgindo depois de
pensamentos sombrios, na bela “Don’t Let It Go” a autoconfiança e esperança
retornam. É a força que se tem que tirar de si mesmo para continuar, não perder
o rumo, o controle. “Backbird Chain” continua o clima confortável, romântico e
ensolarado. Em “Turn Away” dá para sentir uma pontinha de Bon Iver no estilo de
Beck cantar a melodia, acompanhada no violão, muito bonita. “Country Down” tem um
ritmo delicioso e com um solo irresistível de gaita. Morning Phase se despede
com a grandiosa “Waking Light”, que resume toda essa viagem de emoções diárias.
Algo como recepcionar a noite ainda com o dia na cabeça. “When the morning comes to meet you Open your
eyes with waking light”.
Analisando friamente e sendo bastante injusto, Morning Phase é um sucessor
que não supera o seu antecessor. No entanto, essa constatação está longe de
tirar todo o brilho de Morning Phase, que flui fácil, confortável, e que possui
algumas belíssimas canções. Um bom exercício para compreendê-lo melhor é ouvi-lo
exatamente após Sea Change. Aí sim visualizamos o teor dos pensamentos da
noite, representados por Sea Change, e, em contraponto, o alívio com a chegada
da manhã.
É isso aí, Neil Young simplesmente não para. Segundo uma
entrevista da lenda canadense para a revista Rolling Stone, no caminho para o estúdio
de gravação Village, onde recebeu um prêmio do Grammy de Produtores e
Engenheiros de som, Neil Young estará lançando seu novo álbum, chamado A Letter
Home, em março. Segundo Neil, o álbum foi feito utilizando-se do mínimo de
tecnologia. Enquanto ainda não sai nenhuma amostra de A Letter Home, deixo
vocês com um pouco (quase meia hora) de Neil Young & Crazy Horse, do
maravilhoso álbum Psychedelic Pill, o último dos dois álbuns que ele lançou com
Crazy Horse em 2012. “Drifting Back”, que fala exatamente na experiência de
ouvir música no meio tecnológico de hoje:
She & Him, como o nome sugere, Ele & Ela, são o artista de country-folk M. Ward e a atriz, cantora e compositora Zooey Deschanel. Diferente das bandas de casal, como White Stripes e suas origens misteriosas - seriam os irmãos White ou o Sr. e Sra. White, ou apenas brincadeira? -, desde o início eles optaram pelo caminho mais honesto e, consequentemente, menos empolgante. Ambos se conheceram em 2007, no filme The Go-Getter, dirigido por Martin Hynes, que pediu à atriz Deschanel para fazer um dueto com Ward, encarregado da trilha sonora do longa metragem. Eles gravaram uma versão para uma música de Richard& Linda Thompson, “When I getto The Border”. Deu tão certo que em pouco tempo eles estavam junto trabalhando em demos gravadas e compostas por Deschanel, que ela mantinha até então em segredo. Dessa junção saiu em 2008 o primeiro disco da dupla, Volume One. Esse álbum de estréia apresentou ao mundo essa banda que parecia saída de alguma máquina do tempo, tocando o som vintage dos anos cinqüenta e sessenta e misturando com o Pop atual e recebeu ótimas críticas de revistas especializadas, sendo considerado inclusive o álbum do ano pela revista Paste.
Mesmo com a nova carreira, Deschanel não abandonou seu papel de atriz e continuou trabalhando em alguns filmes e séries, como (500) Dias com Ela. Em 2010, era tempo para mais um passo para She & Him, que, com o bem sucedido Volume Two, teve mais uma vez uma grande turnê e passou a primeira semana no Billboard Top Ten. Mas não foi só a carreira musical de Deschanel que deu uma guinada. Em 2011, ela protagonizou a primeira temporada da série New Girl da Fox, que já vai na terceira temporada. Alternando a rotina de gravação com compositora, acaba de sair o terceiro volume de músicas de She & Him, que amplia o já interessante cardápio da banda.
Como deu pra perceber, em She & Him, diferente de White Stripes, o foco central é o talento de Deschanel. Ela é o “Jack White” e M. Ward é “Meg White”. Esse fato fica evidenciado quando vemos que todas as faixas originais de She & Him foram escritas e arranjadas por ela, enquanto M. Ward ficou encarregado da produção. Volume 3 parece um álbum feito fora do tempo, com canções que nos remete aos bailes dos anos 60.
O disco é uma viagem pelo tempo através do pop de baile (“Never Wanted Your Love” e “I’ve Got Your Number, Son” e “I Could’ve Been Your Girl”), e baladas magníficas dos anos cinquenta e sessenta (“Turn to White”, “Baby”, esta com um dueto muito interessante entre Deschanel e M. Ward,, “Hold Me, Thrill Me, Kiss Me” e “Sunday Girl”), que, curiosamente, além de serem os pontos altos do álbum, essas três últimas são as três das quatorze músicas que não são composições de Deschanel, são versões de músicas americanas antigas.
As melodias marcantes e cativantes características do pop também estão muito presentes em Volume 3, sobretudo nos refrões de “Somebody Sweet to Talk To” e “Together”, com batida meio pop anos 80. A sensação de deslocamento provoca sensações curiosas, principalmente em “Snow Queen”, um dançante pop perdido dos anos 60, dizendo que irá sentar e esperar o telefone tocar. A questão é que hoje em dia, com o celular e todas essas modernices, ninguém senta e espera o telefone tocar para falar com alguém.
Outro momento curioso no disco é em “Sunday Girl”, onde Deschanel mistura estrofes em inglês com um francês sensual, lembrando as viagens de Fernanda Takai, do Pato Fu, cantando em japonês. No final do álbum, ainda tem espaço para duas boas canções, como a bela balada no piano de “London” e a tocante “Shadow of Love”, uma belíssima balada para se dançar com os rostos lacrimejantes colados e sentido a doce voz de Deschanel tomar conta do seu subconsciente.
Volume 3 é um belo, gostoso e divertido álbum, que nos faz viajar por momentos e sensações diversas pelo tempo. Um moderno álbum celebrando o passado, ou mantendo-o vivo e em funcionamento, através de belas canções com toda capacidade de entrar nas paradas, tanto agora quanto no seu tempo, seja lá que tempo for esse.
Nada melhor do que comemorar incríveis 50 anos de carreira com novidade, para provar que ainda está vivo e exercendo seu maior dom. Provavelmente é dessa forma que Bob Dylan encara o lançamento de Tempest, 35º álbum, que chega após 50 anos do seu disco de estréia. Ele já não tem mais pretensão de mudar – mais – o mundo do que já o fez. As suas sementes já foram lançadas e foi certamente uma das colheitas mais proveitosas da história da música. Bob Dylan sabe que sua voz – que nunca foi o seu forte – está de mal a pior. Mas o melhor é que ele não dá a mínima para isso. E em Tempest ele volta com tudo o que restou dela, o suficiente para nos presentear com belas canções e grandiosas canções. O grande problema da indústria musical com os medalhões do rock, como, por exemplo, Neil Young, o próprio Dylan, Paul McCartney, dentre outros, é que esperam ainda que eles lancem álbuns tão clássicos como os de 50, 40, 30 anos atrás. Claro, pode acontecer, mas a probabilidade é mínima. Mas o fato de não ser memorável ou um item obrigatório na coleção, não tira o mérito da própria obra. E a verdade é que Tempest é o melhor trabalho de Dylan em um longo tempo.
Tempest é um álbum nostálgico e, em grande parte, sombrio, talvez o mais sombrio de sua carreira, contando com a voz cortante e inconstante de Dylan, baladas assassinas, amor, morte e luta como seus maiores contribuintes. Além disso, Dylan reúne os estilos que ele sabe que é mestre, com um som bem de raiz, do blues, folk e country, mas ele não para por ai e faz cada vez uma interação e variação musical bem legal entre uma faixa e outra. 8 das 10 músicas do trabalho ultrapassam os cinco minutos de duração, várias passam dos 7 e a faixa título do álbum beira os 14 minutos. Isso significa que Bob Dylan está confortável e à vontade para nos entregar o seu melhor. E já começa nesse nível, com “Duquesne Whistle”, que começa como uma música gravada nos anos 30, mas que depois vai ficando mais rápida depois que ele escuta o apito do trem para Duquesne até chegar num estilo rockabilly dos anos 50. Dá pra sentir-se no dentro do trem enquanto ele vai de estação a estação. A próxima parada “Soon After Midnight” já muda o clima e vai pra uma bela balada romântica num tom de blues. “its soon after midnight and i want nobody but you”, diz Dylan no final da música.
Outra mudança de estação para uma mais furiosa. Com “Narrow Way” a viagem é mais longa e intensa, com seus mais de sete minutos, é a mais rocker de Dylan em anos. Logo depois Dylan nos conduz para o outro aposto, com “Long and Wasted Years”, uma curta e delicada balada de coração partido. Como o nome sugere, “Pay in Blood” dá uma sensação de violência, pois é um pouco mais agitada e com Dylan fazendo um vocal ardente. Já “Scarlet Town” é mais uma balada com mais de sete minutos, muito bem arranjada, com piano, violinos e banjo. “Early Roman Kings” começa como um roadhouse blues com gaita e riff parecidos com “Mannish Boy”, do Muddy Waters. Essas três músicas são boas, mas estão abaixo da média do Tempest. A cereja do bolo começa agora.
O trio final é de tirar o fôlego, aqui é realmente o melhor estilo de Bob Dylan, tanto musicalmente como liricamente. A primeira dessa trilogia, “Tin Angel”, é uma balada assassina de um triângulo amoroso narrado minuciosamente por Dylan em uma letra sangrenta e cheia de imagens fortes e palpáveis. Depois começam as duas mais charmosas e notáveis de Tempest. A primeira, faixa título “Tempest” trata de uma longa, triste, direta e detalhada narrativa de quase quatorze minutos em 45 estrofes do desastre do Titanic. Inúmeros personagens , inúmeras histórias e ainda “havia outros, muitos outros”. E ainda termina com “when the reaper’s task has ended sixteen hundred had gone to rest, the good, the bad, the rich, the poor, the loviest and the Best”. E, para finalizar, “Roll On John”, uma tocante e emocionante homenagem a John Lennon, decorrendo sobre o seu assassinato, utilizando-se de alguns trechos de músicas de John, como a clássica “I heard the news today, oh boy”. Muito bonito.
Tempest é a prova que Bob Dylan ainda tem muito material original e interessante para queimar, pois ele continua compondo como sempre e cantando pior do que nunca. Como isso nunca importou muito na música de Dylan, estamos no lucro.
Mas não é só elogios a Bob Dylan não. Ele é muito chato e provavelmente não deixa o Youtube colocar vídeos das músicas dele, somente a do single oficial. Então, como no post só tem um vídeo das faixas destaques, clique aqui para o download de Tempest.
Não é muito comum falar aqui no blog sobre álbuns ao vivo, salvo raras exceções. We All Raise Our Voices to The Air, do The Demberists é uma delas. Marcando o aniversário de dez anos do primeiro lançamento da banda Castaways and Cutouts, o registro é um álbum duplo que passa por toda a interessantíssima carreira da banda, por todos seus principais estilos, desde o épico, ao folk, trazendo um equilíbrio ideal ao disco, assim como os trabalhos de estúdio.
Mesclando, principalmente, as faixas mais antigas com as do último lançamento da banda, The King Is Dead, do ano passado. Das 20 músicas, 12 são pré Hazards Of Love, que foi inclusive o álbum menos usado, só sendo tocada “The Rake’s Song”.
São vários os pontos altos do álbum, a começar pela faixa de abertura “The Infanta”, da qual o título do álbum foi tirado de um trecho da letra. As músicas mais épicas sempre foram minhas preferidas, e aqui, em seu registro ao vivo, ficam igualmente ótimas. “The Soldering Life” tem uma força ainda maior do que a versão do estúdio, com a voz aguda de Colin Meloy. “We Both Go Down Together” é uma das clássicas. Várias músicas do The King Is Dead já podem ser postas lado a lado com as clássicas e se impor. É o caso de “Rise To Me”, “Calamity Song” e “All Arise!”. Ao mesmo tempo, algumas não chegam a empolgar, como “Oceanside” e “Grace Cathedral Hill”.
Outros destaques ficam para as versões épicas de das três “The Crane Wife”, com seis dezesseis minutos, a que fecha o álbum, “I Was Meant For The Stage”, dez minutos e a clássica e obra prima “The Mariner’s Revenge Song”, contando com uma divertida conversa de Meloy com o público, que pede para fazerem o som da baleia, 12 minutos.
Como todo álbum ao vivo de uma boa banda, nunca dá para ter todas as músicas que deveria ter. Muitas ficaram de fora, mas no geral We All Raise Our Voices To The Air é o retrato de um gostoso e divertido show de uma grande banda.
Damien Jurado já é uma das grandes figuras da cena alternativa, o que prova o bem sucedido e extenso catálogo, que conta com belos e variados álbuns, como Rehearsals for Departure, puramente folk indie de mais pura qualidade, ou I Break Chairs, onde Jurado empunha guitarras distorcidas, se aproximando de seu passado punk. Mas é em Maraqopa que ele potencializa suas criações ao máximo, o que faz deste o melhor título lançado na sua carreira. O disco acaba por ser uma seqüência de seu último álbum, Saint Bartlett, que ele põe vários conceitos e formas que atingiram ao pico agora.
Maraqopa é uma coleção forte de músicas bem variadas que, devido às suas formas, detalhes, arranjos, trazem em cada faixa um banho especial e gostoso em forma de música. Ele tem um equilíbrio difícil de encontrar, todas as músicas são acima da média e tem seu quinhão de brilhar os olhos. A começar por “Nothing is the News”, que já evidencia o nível de experimentações sonoras através de arranjos e solos muito bem pensados e postos em prática, tanto é que é a mais longa do álbum, com cinco minutos e meio. Já “Life Away From the Garden” passa para um ambiente indie-folk com um coro infantil respondendo os versos cantados por Jurado, muito bonito. A faixa título do álbum, “Maraqopa”, bem delicada no violão com arranjos pontuais, tem uma das melhores letras e melodias do trabalho, “we are echoes God creates in the shade”
O clima geral do disco é agradável, tocante e romântico, como o prova “This Time Next Year”, que tem uma batida meio samba, e uma letra belíssima. Num álbum tão equilibrado, é difícil escolher uma melhor, mas é igualmente difícil não escolher “Reel To Reel” de tão irresistível. A textura e o ambiente criado, cheio de arranjos, no qual a cada vez que você ouve, mais detalhes passados despercebidos anteriormente, aparecem.
“Working Titles” segue com qualidade, uma canção que flui tranqüila e agradável, com o fluxo da letra indo muito bom, trazendo a inquietação do autor “i have questions that lead to more questions”. “Everyone a Star” é a com clima mais melancólico do disco, com um órgão acrescentando ainda mais a tensão. “So On, Nevada” e “Mountains Still Asleep” aparecem ainda como destaques.
Maraqopa é o álbum onde Jurado conseguiu juntar suas melhores características, transformando-se no seu melhor trabalho até hoje. E tendo sido lançado no ano em que marca 15 anos do lançamento do seu primeiro disco, Waters Ave S., é um alívio ver Jurado com tanto vigor e criatividade renovada como ele se apresenta aqui.
Aos 77 anos, o gênio de Leonard Cohen permanece intacto. Pelo menos é o que prova Old Ideas, primeiro lançamento com faixas inéditas desde Dear Heather, de 2004. Old Ideas não fica devendo em nada aos grandes clássicos de Cohen da década de sessenta e setenta, como Songs Of Leonard Cohen, de 1968, Songs of Love And Hate, de 1971, ou New Skin for the Old Ceremony, de 1974. Aqui, as canções estão temperadas dos melhores ingredientes possíveis, exatamente na medida certa. Se são tão memoráveis quanto as presentes nos clássicos antigos, somente o tempo irá dizer.
Como já era de se esperar, a voz de Leonard Cohen e suas letras é que dão o charme principal ao trabalho, cada faixa mostrando um exímio trabalho de poeta e compositor. Tudo isso é claro no decorrer de todo o disco, mas o combo das quatro faixas iniciais é quase surreal, começando com “Going Home”, onde Cohen satiriza a si mesmo, falando na terceira pessoa, “I love to speak with Leonard, he's a sportsman and a shepherd, he's a lazy bastard, living in a suit”, ou então como ele trata a morte “going home to where is better than before, going home without the costumes that i wore”. No final ainda tem um belíssimo cântico feminino da Webb Sisters repetindo o refrão, recurso muito bem utilizado em Old Ideas.
“Amen” é outra obra de arte, digna de já figurar entre os seus clássicos. A voz de Cohen vai soando faixa a faixa cada vez melhor. Espiritualidade, amor, perda, mortalidade, são todos temas muitas vezes já abordados por Cohen, e, novamente, com muito destaque em Old Ideas, mas ele sempre vê uma nova perspectiva. “Tell me again When I’m clean and I’m sober When I’ve seen through the horror Tell me over and over Tell me that you love me then Amen…”, ou seja, a o amor e até mesmo o divino só pode ser aceito ou recebido depois de ter visto o pior, que ainda conta com belos arranjos e solos no decorrer dos seus mais de sete minutos.
“Show Me The Place” é quase uma prece sombria ao desconhecido e com o tom da voz de Cohen fica ainda mais latente. “Darkness”, por sua vez, é quase recitada, acompanhado por uma banda completa, tocando meio blues, com delicados solinhos de piano e teclado por trás, enquanto ele começa a narrar “I caught the darkness, It was drinking from your cup.I said is this contagious? You said just drink it up”.
Após essas músicas, já sabe que está se deparando com um trabalho muito especial e ele não baixa a guarda. “Anyhow”, meio jazz, chegamos a ter pena do narrador, com a voz mais depressiva e sem força possível de Cohen. “I know it really is a pity The way you treat me now I know you can’t forgive me But forgive me anyhow”. Se fosse para citar poderiar citar a letra toda aqui. “Crazy To Love You”, só Cohen e o violão, segue a veia romântica, apaixonando-se pela pessoa errada. “Come Healing” é a única que não tem a mesma força das outras, mesmo com seus belos momentos, entre os duetos de Cohen e Dana Glover.
“Banjo” pega mais um country blues estilo Hank Willams e novamente belos backing vocals femininos. “Lullaby” é outro pico do disco, com uma balada com solos de gaita e a letra com belíssimas imagens poéticas, “The wind in the trees Is talking in tongues”. E para fechar este trabalho “Different Sides” é outra belíssima canção, tomando como assunto as dualidades da vida, o certo e o errado, o espiritual e carnal.
É muito raro um artista e compositor manter um nível de qualidade por tantos anos, normalmente vai perdendo aos poucos o vigor, mas aqui Leonard Cohen parece mais renovado do que nunca, um ótimo álbum de um precioso gênio é o que sempre devemos esperar dele.
A banda Beirut é um dos casos mais curiosos do indie. É difícil imaginar que a sua estréia, em 2006, com o álbum Gulag Orkestar, fosse fazer algum sucesso. Mas fez e deu à banda um espaço bem considerável no cenário cult. O álbum é uma miscigenação de música européia cigana, psicodelismo e indie-folk tipo The Decemberists. Tudo numa banda só. E para causar ainda mais estranheza, todo esse som experimental foi concebido pela mente de um adolescente multi instrumentista, Zach Condon, que abandonou a faculdade aos 16 anos e viajou pela Europa, onde absorveu muito da música cigana. Depois ele voltou para os Estados Unidos para a sua cidade natal, Alburquerque, juntou uns amigos e gravou o que viria a ser Gulag Orkestar. Cheio de acordeões, percussões, instrumentos de sopro e tudo mais. O álbum pegou o mundo de surpresa e, certamente por méritos da originalidade, acabou tendo sucesso suficiente para o mundo acompanhar os passos desse jovem prodígio.
A banda ainda lançou mais um álbum e um EP. Este último, chamado Long Island veio em 2007 e contém talvez a mais conhecida de suas músicas “Elephant Gun”. No mesmo ano eles lançam o álbum The Flying Club Cup. Através destes dois lançamentos e devido à introdução ao som da banda com o Gulag Orkestar, Condon conseguiu fechar o ciclo. A estranheza das músicas é o seu charme. The Flying Club Cup conquistou tanto público quanto crítica, recebendo calorosas resenhas. As músicas passaram a ter suas estruturas mais reconhecíveis. Após anos de silêncio, Beirut lança em 2011 o álbum The Rip Tide e acrescenta suas viagens sonoras ao palco.
Irei usar uma imagem para falar sobre The Rip Tide. Quando aperta o play, você é imediatamente transportado para alguma taberna sinistra no meio de uma estrada de terra, na Europa medieval. O local está cheio de gente, gritando, xingando uns aos outros, com cerveja vazando pelo lado da boca, enquanto ali no canto da parede tem uma banda que alheia à tudo isso, toca seu som de maneira sublime. Os bêbados dançam, brigam, gritam e a banda permanece tocando como se nada estivesse acontecendo.
A festa na taberna começa com uma ótima canção. “Candle’s Fire”. As letras estão mais melódicas, simples e grudentas do que jamais estiveram. “Santa Fe” é bem animada, dançante, marcada pelo teclado. Aqui é onde os bêbados se levantam e começam a dançar com as prostitutas. O álbum não tem nenhum tipo de enrolação, músicas grandes com partes repetidas à exaustão, instrumentais para ocupar espaço, ou qualquer outra. Aqui as músicas são todas diretas.
“Goshen” é a melhor do álbum. Melodia linda que vai crescendo com a música. Começa só com Condon e o piano, depois vai entrando gradativamente os instrumentos, a bateria, o acordeão, o saxofone. A letra também é um dos destaques, bem pessoal, coisa não muito comum nas composições anteriores de Condon, que acontece em várias músicas em The Rip Tide. Perfeita. Aqueles bêbados chorões certamente se desabariam em lágrimas. A faixa que dá título ao álbum “The Rip Tide”, também é majestosa. Somente com quatro versos, Condon consegue transformar a música em grandiosa. Novamente a letra, bem simples, é destaque. “Vagabond” é outra ótima música, parece ser cantada por um bardo viajante da idade média.
The Rip Tide é o álbum mais conciso da carreira de Beirut. Um álbum simples, direto e épico.
É com certo atraso que venho falar agora sobre o novo lançamento da banda The Decemberists, The King Is Dead, que saiu em janeiro deste ano. The King Is Dead é a seqüência do ótimo e ambicioso álbum conceitual The Hazards Of Love, de 2009, um dos melhores do catálogo da banda. Foi um dos trabalhos mais desafiadores de um grupo que já desafia bastante, fascinada por álbuns conceituais e composições épicas e imprevisíveis.
Em The King is Dead a banda resolve simplificar a equação, nada de conceitos, músicas interligadas por uma narrativa estranha, grandiosas composições épicas, nada disso. Colin Meloy, vocalista e líder da banda, resolve voltar às raízes dessa vez, fincando o som no folk, com um som calmo, agradável, cheio de canções melodiosas e confortáveis, que remetem um pouco aos primeiros trabalhos de Wilco, à fase mais folk de Neil Young e R.E.M. O álbum alterna entre os momentos mais animados como “Don’t Carry it All”, “Rox in The Box”, com tocantes baladas, como “January Hymn”. A faixa single do The King Is Dead, “Down By The Water”, é apenas mais uma das muitas que funcionarão muito bem ao vivo, com refrão marcante. “Rise To Me” é delicada, marcante, gostosa, bela e com uma melodia sensacional. “June Hymn” é uma balada country daquelas para se tocar no terraço da casa grande de sítio.
Claro que faz falta o art rock progressivo dos álbuns anteriores, mas em The King is Dead, The Decemerists está se divertindo mais confortavelmente do que nunca. E o melhor é que a diversão aqui é contagiosa.