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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Melhores Álbuns de 2016: Parte IV






Let Me Get By consegue captar todo o potencial da grande banda Tedeschi Trucks Band, agora não somente grande apenas no número de integrantes, mas grande também pela música, recheada de maturidade, criatividade e profundidade. Um grande e grandioso álbum. Sem dúvida, “grande” é o adjetivo perfeito para Let Me Get By.






12. Dinosaur Jr. - Give a Glimpse At What Yer Not

É incrível uma banda como Dinosaur Jr. A maneira que eles conseguiram desenvolver sua fórmula e se manter nela num nível elevadíssimo de qualidade não é qualquer um que consegue. Give a Glimpse At What Yer Not é mais um belíssmo disco que faz com que Dinosaur Jr seja uma das poucas bandas que continuam lançando discos no nível equivalente aos seus discos clássicos de início de carreira.








13. Big Jon Atkinson & Bob Corritore - House Party At Big Jon's

Uma parceria incrível de dois caras que manjam muito de blues, o guitarrista Big Jon Atkinson e o gaitista Bob Corritore. Ainda tem a participação de Alabama Mike, que já apareceu por nossa lista, Dave Riley, Tomcat Courtney e Willie Buck. O selo Delta Groove apresentou alguns dos álbuns de blues mais tradicionais e puros que é possível fazer nos dias de hoje. House Party At Big Jon’s quase transporta você de volta para os anos 50, no auge do Chicago blues. Enfim, é um álbum maravilhoso para colocar pra ouvir e ficar curtindo um som com os amigos e tomando uma cerveja.










14. Lurrie Bell - Can't Shake This Feeling

Lurrie Bell, filho de grande gaitista Carey Bell,  é um dos maiores nomes do blues contemporâneo. Can’t Shake This Feeling é mais um sinal de que Bell vem construindo uma carreira significativa, digna de uma verdadeira lenda. Dentre covers e originais, todo o disco é uma celebração do blues de Chicago.








The Blues, The Whole Blues and Nothing But The Blues é exatamente o que o título sugere, mostrando ainda que, além do blues, todo o blues e nada mais que o blues, Bromberg  ainda consegue apresentar variações bem interessantes, deixando o álbum ainda mais rico.







16. Teenage Fanclub – Here

Os herois do alternativo da década de 90 estão de volta com um novo disco. O que impressiona é que eles ainda estejam tão bem! Here tem tudo o que os fãs do Teenage Fanclub podem esperar: belas melodias e ótimas texturas de guitarra.



Joe Bonamassa dispensa apresentações mais prolongadas. Como todos sabem, seria impensável Bonamassa passar um ano inativo ou sem lançar algo novo, seja um disco de estúdio ou um disco ao vivo (contando com Blues of Desperation, Bonamassa já lançou três discos só em 2016). Blues of Desperation confirma Bonamassa como o melhor do blues-rock à disposição no mercado.








Não é só porque o próprio Big Harp George visitou o blog e comentou na resenha do disco. É porque Big Harp faz um grande blues, com composições próprias e letras significativas que resgatam um pouco do lado positivo do blues, em músicas como “I Ain’t The Judge of You” e “Justice In My Time”. Em tempos turbulentos, em que as pessoas reclamam que a vida perde a graça com o politicamente correto, Big Harp George mostra que se pode se divertir respeitando os outros e buscando sermos melhores pessoas sempre. Por isso, uma grande relíquia para 2016.








O diferencial de um álbum novo de um artista já consagrado é que ele não compõe pressionado, não tem nada mais a provar a ninguém, o que torna o álbum despretensioso e, de certa forma, revelador de um lado mais pessoal e humano do artista. É algo que acontece com vários desses deuses do rock, como Paul McCartney e Bob Dylan mais recentemente. Não nos compete comparar com os clássicos feitos do passado, apenas desfrutar de mais alguns momentos musicais agradáveis com um gênio da música, algo quase em extinção. I Still Do é um álbum leve e que mostra que Clapton ainda tem o blues. Sugere-se que este pode ser o último disco de sua carreira, de acordo com uma nota que o próprio escreveu; nesse caso, seria uma delicada, singela e suave despedida.







20. Colin James - Blue Highways
O canadense Colin James lança mais um grande álbum de blues, cheio de versões de clássicos que ficam maravilhosos nessa nova releitura, com destaque para “Gypsy Woman” e “Hoodoo Man Blues”.



quinta-feira, 30 de junho de 2016

Playlist Filho do Blues-2016: os primeiros seis meses





Os seis primeiros meses de 2016 chegam ao fim no dia de hoje. Muita coisa boa já rolou até aqui e muito mais nos é prometido para os seis meses finais. Como uma retrospectiva parcial, o Filho do Blues criou uma playlist no Spotify para selecionar as melhores músicas que apareceram até agora. Foram escolhidas 53 faixas nos primeiros seis meses do ano. Nos meses restantes, nós continuaremos incluindo novas músicas à playlist, por isso, siga-nos e fique por dentro das novidades. 




Dessa primeira metade do ano, o maior destaque, positivo e negativo, não poderia ser outro senão David Bowie. O lançamento de Blackstar seguido por sua repentina e surpreendente morte certamente foi o evento que já nos primeiros dias de janeiro marcou todo o ano de 2016. Foram escolhidas quatro músicas de Blackstar, além da faixa título, também escolhemos para integrar a lista “’Tis a Pity She Was a Whore”, “Dollar Days” e, claro, “Lazarus”. O colaborador e amigo de longa data de Bowie, Iggy Pop, também deu as caras e lançou um grande álbum em colaboração com Josh Homme, do QOTSA, do qual “Gardenia” e “Break Into Your Heart”. PJ Harvey, em seu novo disco The Hope Six Demolition Project, nos surpreendeu com as faixas “The Wheel”, sobre a crise dos refugiados, e “The Ministry Of Social Affairs”. Outros álbuns do rock surgiram, como novos lançamentos de Weezer (White Album), Tindersticks (The Waiting Room) e Suede (Night Thoughts), dos quais escolhermos, respectivamente, “King of The World”, “Hey Lucinda” e “I Can’t Give Her What She Wants”. Confesso, no entanto, que na esfera de música nacional não chegamos a ouvir muita coisa nova e legal, restringindo ao novo álbum de Clarice Falcão, Problema Meu, do qual selecionamos duas faixas, “Marta” e “Banho de Piscina”
selecionamos
 

No campo do blues/jazz/gospel é que boa parte do ano foi reservada e os destaques são muitos, a começar pelo álbum My Road, de Bob Margolin, do qual tivemos muita dificuldade em selecionar apenas três, que foram “Bye Bye Baby”, “My Whole Life” e “Heaven Mississippi”. A mesma dificuldade foi sentida em outros discos, como Let Me Get By, de Tedeschi Trucks Band, tendo escolhido “Let Me Get By” e “Right On Time”, mas podendo ter escolhido do mesmo álbum várias outras. Mais um grande destaque foi o disco de John Long, Stand Your Ground, do qual não tivemos outra opção senão selecionarmos três faixas: “Climbing High Mountains (Trying to Get Home)”, “Red Hawk” e “No Flowers For Me”. O novo álbum de Eric Clapton, I Still Do, “Spiral”, “Somebody’s Knockin’” e “Alabama Woman Blues”. Também fui obrigado a escolher três faixas de All For Loving You, novo álbum da The Alexis P. Suter Band, “Can’t Find a Reason”, “Don’t Ya’ Tell Me” e a versão mais incrível de “Let It Be” que você pode ouvir (sem contar com a original). Tivemos também mais um grande lançamento de Mavis Staples, do qual selecionamos a incrível “History, Now” e “Action”. A velha guarda de Dion está representada pelas faixas “Ride With You” e "Can’t Go Back to Memphis”, do seu novo álbum New York Is My Home. Um dos maiores guitarrista do blues rock também está presente, claro, com Joe Bonamassa mandando “This Train” e “You Left Me Nothing But the Bills and The Blues”. O blues progressista do professor Big Harp George, em Wash My Horse In Champagne, está garantido com “My Bright Future” e “I Ain’t The Judge of You”. Lucky Peterson, devido a seu disco Long Nights, conseguiu seu lugar com “Earline” e
Waiting On You”, bem como a dupla poderosa composta por Big Jon Atkinson e Bob Corritore, com a clássica cover de Lightnin’ Hopkins, “Mojo Hand” e a incrível “Somebody Done Changed The Lock on My Door”, ambas do álbum House Party At Big Jon’s. O blues potente de Alabama Mike garantiu presença com Upset The Status Quo, faixa título de seu novo álbum, e “Fight for Your Love”. O blues-rock de Moreland & Arbuckle, com o álbum Promised Land or Bust, ficou com “Mean And Evil” e “Woman Down In Arkansas”. O sofisticado jazz de Gregory Porter teve lugar com “Take Me To The Alley” e “In Fashion”, ambas do seu novo e belo álbum Take Me To The Alley. A coletânea God Don't Never Change: The Songs of Blind Willie Johnson teve três representantes, "Mother's Children Have a Hard Time", executada por The Blind Boys of Alabama, "Trouble Will Soon Be Over", por Sinéad O'Connor, e "Jesus is Coming Soon", por Cowbow Junkies.


 Outros álbuns também chamaram atenção, mas ficaram com apenas uma faixa representante. É o caso de RB Stone, com a ótima música “Some Call It Freedom”, do álbum Some Call It Freedom (Some Call It The Blues); Boo Boo Davis, “The Snake”, de seu disco One Chord Blues; Toronzo Canon, o guitarrista de blues de Chicago, com a faixa “Walk It Off”; e Kenny “Blues Boss” Wayne, com “Blackmail Blues”, do seu novo álbum Jumpin’ & Boppin’. A banda Dinosaur Jr só aparece com “Tiny” porque o restante do álbum ainda não foi lançado, chamado Give a Glimpse Of What Yer Not, que com certeza terá alguma outra faixa em breve. 
 

Acho que é isso, pessoal. Sintam-se convidados a seguir a playlist e ficar acompanhando as novidades. Sintam-se à vontade também em dar sugestões nos comentários. Muitos desses álbuns ainda não tiveram resenhas publicadas no site, alguns ainda terão, outros, infelizmente, não. Quisera eu ter tempo de escrever todas elas! 

E que venham os seis meses restantes de 2016!



sábado, 27 de fevereiro de 2016

Resenha: God Don't Never Change: The Songs of Blind Willie Johnson




                O guitarrista e cantor de gospel, Blind Willie Johnson, pertence à primeira geração do blues, chamado de “Prewar Era”, ou seja, anterior à Segunda Guerra Mundial, e também sendo conhecido como “Classic Years”, que compreende o período de 1920 até 1932. Muitos tiveram o primeiro contato com a obra de Blind Willie Johnson apenas a partir do documentário de 2003, The Soul Of A Man, dirigido por Wim Wenders, da série The Blues, produzida por Martin Scorsese. Willie Johnson, nascido no Texas, em 1897 e do qual pouco se sabe sobre a sua pessoal além de depoimentos pessoais muitas vezes contraditórios – de amigos e conhecidos, sua curta obra e seu obituário, este cego cantor de rua foi um dos principais expoentes desse período que delineou bases essenciais para a evolução do estilo blues para os anos seguintes. Sua carreira musical, em termos de gravação, foi curta e meteórica, produzindo, no entanto, alguns dos maiores clássicos de dois gêneros musicais, o blues e o gospel (ele é considerado mais como gospel, apesar de ter tido uma profunda influência no blues). Willie Johnson, inclusive, foi quem melhor uniu esses irmãos briguentos, mas que não conseguem viver muito separado um do outro. Entre 1927 e 1930, Blind Willie Johnson gravou 30 músicas pela Columbia Records. E é isso, fim da história. Bem, possivelmente esse seria realmente o fim da história se dentre aquelas trinta canções não estivessem, por exemplo, “Motherless Children Have a Hard Time”, “Dark Was The Night-Cold Was The Ground”, “Soul Of A Man”, “Nobody’s Fault But Mine”, “Jesus Is Coming Soon”, dentre várias outras que se transformaram em grandes clássicos, tanto para a música gospel quanto para o blues. Depois da piora da Grande Depressão, em 1930, Willie Johnson abandonou a carreira musical e provavelmente se tornou um pastor, em Beaumont, Texas. Após um incêndio em sua casa e sem ter para onde ir, Willie Johnson e sua esposa tiveram que dormir sob as cinzas, onde acabou morrendo em 1945 de pneumonia, após sua entrada no Hospital ter sido recusada por ser cego.



É exatamente a vida e a obra desse cantor de rua cego que é celebrada na coletânea God Don’t Never Change: The Songs of Blind Willie Johnson, projeto dirigido por Jefferey Gaskill no decorrer de mais de uma década, que conta com a participação de grandes nomes da música atual, como Tom Waits, Lucinda Williams, Derek e Susan Tedeschi, The Blind Boys of Alabama, dentre outros. Blind Willie Johnson foi, por definição, um porta-voz do divino, do eterno, do espiritual. E esse grupo de artistas selecionados para o projeto entendeu isso talvez melhor do que o próprio Johnson, resultando, sem dúvida, em uma obra-prima desse gênero de coletânea. Na maioria das vezes, um projeto que usa muitos artistas diferentes para regravar uma obra específica fragmenta-se em pedaços de gravações isoladas umas das outras. Não há unidade. É como um seminário na Universidade em que um grupo divide um capítulo para cada pessoa, cada um estuda só o seu, apresenta sua parte e pronto. God Don’t Never Change foi um projeto no qual cada um dos indivíduos envolvidos sabia exatamente a dimensão, o significado histórico e emocional da obra em questão. A essência da obra de Willie Johnson está sempre presente, ou seja, Deus, o divino, não importa quem esteja empunhando os instrumentos e cantando ao microfone; a áurea divina, congregacionista, sem mencionar a qualidade técnica, permeia toda a obra. A grande variedade de artistas e, por conseguinte, de releituras, acabou sendo um elemento enriquecedor ao invés de causar uma fragmentação da obra. Outro fator digno de nota é a ampla participação feminina no álbum: das 11 faixas, 4 são lideradas por homens (Tom Waits fica a cargo de duas; The Blind Boys of Alabama com um e Luther Dickinson com a outra) e as 7 restantes são lideradas por mulheres (Lucinda Williams fica com duas, Susan Tedeschi recebe o acompanhamento de seu esposo, Derek Trucks, Cowboy Junkies, Sinéad O’Connor, Maria McKee e Rickie Lee Jones ficam com uma cada) e mesmo nas faixas que não são dominadas pelas mulheres, sua presença está sempre ali nos corais. Apesar de poder soar estranho para uma obra em homenagem a um cantor solo dono de uma das vozes mais graves da música, quando lembramos que muitas de suas gravações foram acompanhadas por sua esposa, Willie B. Harris, a predominância feminina é totalmente compreensível e muitíssimo bem vinda.




                A primeira contribuição de Tom Waits é a faixa de abertura, “The Soul of A Man”; sem dúvida, dentre as vozes disponíveis no “mercado”, Tom Waits é a escolha natural e a que mais se aproxima à de Willie Johnson e seria fácil apenas imitar a versão original de Johnson. No entanto, Waits deu uma acelerada no ritmo da música, tornando-se um daqueles pastores que colocam a congregação abaixo, enquanto a marcação é feita pelas palmas que remetem à congregação religiosa, recurso presente em várias outras faixas. Poucos conseguiram penetrar tanto na alma humana como na letra dessa música e ainda assim sair de lá sem saber o que é a alma humana. Na sua segunda contribuição, “John The Revelator”, Tom Waits parece renovado, resgatando a voz de um cantor de rua que precisa que sua voz alcance o máximo de pessoas possível; para mim, pessoalmente, o grande desafio era encontrar a honestidade e profundidade espiritual e religiosa para encarnar um tradicional cantor gospel, sobretudo Blind Willie Johnson, especialmente para alguém, tal qual Tom Waits, que não está preso aos limites da arte e gosta de vagar por temas delicados e, por vezes, contraditórios com a religião; para alguém que cantou em “don’t you know there ain’t no devil that’s Just God when he’s drunk”, minha preocupação era justificada, já que a parcela de sinceridade e profundidade é tão importante no conceito e na obra de Blind Willie Johnson. O resultado é que pela transformação tão grande em Tom Waits e não abandonando seu estilo tradicional, parece que ele pode cantar gospel e espirituais agora o resto da carreira, mantendo seu estilo gutural e underground. “John The Revelator”, a tradicional música gospel de pergunta e resposta com referências da Bíblia, é a prova disso.  

                Quem também ficou com duas faixas foi Lucinda Williams, soando incrível em cada uma delas. O estilo de slide, tradicional de Willie Johnson está presente em vários momentos do álbum, mas é Williams que consegue fazê-lo de forma magnífica. A primeira é “It’s Nobody’s Fault But Mine” e a segunda é a faixa que dá título ao álbum, “God Don’t Never Change”. Lucinda Williams brilha igualmente em ambas. Derek Trucks e Susan Tedeschi ficaram encarregados de “Keep Your Lamp Trimmed and Burning”; inclusive, na original, de 1928, Willie Johnson divide os vocais com sua esposa, Willie B. Harris. Na apocalíptica “Jesus Is Coming Soon”, sobre o desastre da gripe espanhola de 1918, que matou em torno de 5% das pessoas em todo o mundo, a banda canadense Cowboys Junkies conta com a participação mais especial de todas, o próprio Blind Willie Johnson. A música começa com um trecho da gravação original, gravada em 1928; no refrão, essa versão original retorna, mas agora acompanhada pela banda completa. O tradicional e o moderno. Absolutamente incrível. 

                É difícil escolher qual seria a melhor faixa do álbum, mas sem dúvida uma delas teria que ser a belíssima e tocante “Mother’s Children Have a Hard Time”, tocada por The Blind Boys of Alabama; o conjunto, a letra, a música, a harmonia das vozes, tudo faz com que a música inteira causa arrepios emocionantes. O desespero de um filho sem mãe está presente em cada um do Blind Boys of Alabama quando cantam: “Motherless children have a hard time, mother's dead They'll not have anywhere to go, wanderin' around from door to door Have a hard time” Com Sinéad O’Connor, em “Trouble Will Soon Be Over”, a pesada carga emocional permanece nas alturas. Poucas preces soam tão poderosas quanto essa música. Luther Dickson se junta a banda de pífano Rising Star Fife & Drum Band e traz o som da África Ocidental junto com eles para tocar “Bye and Bye I'm Going To See The King”.  Maria McKee se destaca na versão de “Let Your Light Shine On Me”. Das 11 músicas, a única na qual a equação não funcionou, infelizmente, foi em “Dark Was The Night-Cold Was The Ground”, com Rickie Lee Jones; o motivo é simples: ao vocalizar, tentar cantar na faixa instrumental mais clássica de Willie Johnson, ela acabou retirando toda sua magia e mística, que são os incríveis e belíssimos solos de slide, absolutamente intraduzíveis para qualquer língua falada que seja. Mas, em relação aos outros companheiros no projeto, Rickie Lee Jones ficou certamente com a missão mais difícil de todas, pois mexer na música que está viajando pelo Universo abordo do The Voyager não é fácil.

                Uma publicidade feita pela Columbia Records nos anos iniciais da carreira meteórica de Blind Willie Johnson dizia: “Hear Blind Willie Johnson spread the light of old-time faith”; God Don’t Never Change: The Songs of Blind Willie Johnson é mais do que uma simples coletânea para celebrar a carreira de um artista já morto; é mais do que apenas preservação de um legado histórico; é muito mais do que um golpe de publicidade, do que a reunião de artistas famosos para vender um álbum. Se for verdade o que dizem que a música é uma janela para Deus; bem, então God Don’t Never Change: The Songs of Blind Willie Johnson é a uma das janelas mais belas e iluminadas que foram abertas na música. 





sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Resenha de Tedeschi Trucks Band - Let Me Get By





                Tedeschi Trucks Band é uma banda grande, de fato; a grandeza, porém, advém mais do número de integrantes do que necessariamente pelos seus feitos musicais: a banda, formada em 2010, em Jacksonville, na Flórida, que uniu as carreiras do casal Susan Tedeschi, cantora de blues e Derek Trucks, guitarrista de blues. Chegaram agora chega ao seu terceiro álbum de estúdio com o lançamento de Let Me Get By, é formada por doze membros fixos, já que o baixista de jazz Tim Lefebvre integrou permanentemente a banda (Tim foi o baixista da já icônica banda que gravou Blackstar, o último álbum de David Bowie). Os dois primeiros álbuns, Revelator, de 2011 e Made Up Mind, de 2013, foram muito bem recebidos pela crítica e pelo público, que elogiaram bastante o som da banda, principalmente suas apresentações ao vivo, que mescla o rock com a riquíssima tradição da black music, ou roots music, como blues, gospel, soul e até mesmo funk. Em Let Me Get By, no entanto, lançado hoje, o casal Susan Tedeschi e Derek Trucks e seus demais dez companheiros levam a banda a outro patamar.

O sucesso alcançado com Made Up Mind fez com que a banda fosse de vez pra estrada, apresentando-se mais de 200 vezes em 2014. Entre a correria dessa vida “on the road”, eles se reuniram no Swamp Raga Studios, o estúdio caseiro do casal, e começaram gravar a banda tocando totalmente solta, improvisando em longas jams, cada um contribuindo com ideias, músicas, melodias, harmonias, etc. Iam novamente para a estrada e depois voltavam mais uma vez para o estúdio, tanto é que muitas das músicas de Let Me Get By foram tocadas em shows durante o ano de 2015, como mostra os vídeos do youtube. Bem, o resultado disso é o incrível Let Me Get By, um álbum extremamente colaborativo, o que pode ser facilmente notado na riqueza de cada uma das dez faixas presentes no disco. A maioria das músicas em Let Me Get By ultrapassa a barreira dos cinco minutos, fazendo com que os músicos tenham mais espaço para preencher e desenvolver suas ideias, cavando cada vez mais fundo na estrutura das músicas, de forma completamente confortável, confiante e relaxada. Conseguir a harmonia de uma banda de 12 membros não é coisa fácil. A voz de Susan Tedeschi é um brilho à parte, que somado aos corais estilo gospel, faz parecer que o sagrado e o secular são, na verdade, a mesma coisa.



A faixa de abertura, “Anyhow”, já trilha o caminho grandioso do restante do álbum, com Susan Tedeschi realizando uma das melhores performances vocais de todo álbum. A prova de que uma música de longa ligação realmente funciona, quando a banda realmente sabe o que fazer, é que após Susan dar seu show particular, os últimos minutos são destinados aos improvisos de solos de guitarra sensacionais de Derek Trucks. Liricamente, o álbum como um todo é bastante positivo, pra cima, o que casa muito bem com os ritmos dançantes da maioria das faixas. A faixa seguinte, “Laugh About It”, aí se enquadra; diante das situações da vida, das pessoas querendo colocar você pra baixo, você escolhe escolher: chorar, cantar ou rir delas. Claro que nesses momentos de otimismo exacerbado, sobra espaço pra uns clichês aqui ou ali, como “life is what we made it”. Tudo tranquilo, de boa. Afinal, esse som é para ser curtido mesmo. Em “Don’t Know What It Means”, tem o ritmo mais funk, mas o que se destaca mesmo é o refrão irresistível, que faz você acompanhar batendo palmas e balançando a cabeça com os olhos fechados. A sessão de metais está sempre presente, preenchendo os espaços vazios e enriquecendo o universo sonoro, mas em alguns momentos se sobrepõe à guitarra de Derek e se soltam em solos empolgantes como no último minuto de “Don’t Know What It Means” e o solo de trompete no jazz de “Right On Time”, que lembra um pouco Louis Armstrong. “Right On Time”, inclusive, uma das melhores do disco, apresenta um dueto entre Mike Mattison e Susan Tedeshi muito bom, a voz meio que fraca, tensa e quase sombria de Mattison contrastando com a força e delicadeza da voz de Tedeschi.  

A faixa que dá título ao álbum, “Let Me Get By” é outro show à parte, quase como um culto religioso ao ar livre no meio de uma arena de rock. Gospel, blues, funk, soul e rock juntos e misturados. O teclado, que estava meio que apagado nas faixas anteriores, dá as caras agora. “Just As Strange” é mais simples e “limpa” que as outras, talvez por isso seja por elas totalmente eclipsada, mas ao menos mantém o ritmo fluindo. Já “Crying Over You / Swamp Raga For Hozapfel, Lefebvre, Flute And Harmonium”, cantada por Mike Mattison, é outra mudança de direção, focada bem mais no soul; uma viagem quase épica e com uma melodia belíssima, além da variação musical que cada um dos músicos coloca aqui (principalmente o melhor solo de guitarra do álbum), o que faz valer os oito minutos de música, com os dois minutos finais cheios de sons orientais, tipo flautas e cítaras. Depois de deixar Mattison brincar um pouco, Susan Tedeschi volta com tudo na bela e melódica “Hear Me”. O álbum caminha pro fim com o R&B de “I Want You”, que parece feita sob encomenda para as pistas de dança, mas que do meio pro final vira numa jam-session estranha e sensacional.  O desfecho vem com chave de ouro em “In Every Hear”, mais um gospel-blues-soul incrível.  


Enfim, Let Me Get By consegue captar todo o potencial da grande banda Tedeschi Trucks Band, agora não somente grande apenas no número de integrantes, mas grande também pela música, recheada de maturidade, criatividade e profundidade. Um grande e grandioso álbum. Sem dúvida, “grande” é o adjetivo perfeito para Let Me Get By.