Let Me Get By consegue
captar todo o potencial da grande banda Tedeschi Trucks Band, agora não somente
grande apenas no número de integrantes, mas grande também pela música, recheada
de maturidade, criatividade e profundidade. Um grande e grandioso álbum. Sem
dúvida, “grande” é o adjetivo perfeito para Let Me Get By.
12.
Dinosaur Jr. - Give a Glimpse At What Yer Not
É incrível uma banda como
Dinosaur Jr. A maneira que eles conseguiram desenvolver sua fórmula e se
manter nela num nível elevadíssimo de qualidade não é qualquer um que consegue.
Give a Glimpse At What Yer Not é mais um belíssmo disco que faz com que
Dinosaur Jr seja uma das poucas bandas que continuam lançando discos no nível
equivalente aos seus discos clássicos de início de carreira.
13. Big Jon
Atkinson & Bob Corritore - House Party At Big Jon's
Uma parceria incrível de dois
caras que manjam muito de blues, o guitarrista Big Jon Atkinson e o gaitista
Bob Corritore. Ainda tem a participação de Alabama Mike, que já apareceu por
nossa lista, Dave Riley, Tomcat Courtney e Willie Buck. O selo Delta Groove
apresentou alguns dos álbuns de blues mais tradicionais e puros que é possível
fazer nos dias de hoje. House Party At Big Jon’s quase transporta você de volta
para os anos 50, no auge do Chicago blues. Enfim, é um álbum maravilhoso para
colocar pra ouvir e ficar curtindo um som com os amigos e tomando uma cerveja.
14. Lurrie
Bell - Can't Shake This Feeling
Lurrie Bell, filho de grande
gaitista Carey Bell, é um dos maiores
nomes do blues contemporâneo. Can’t Shake This Feeling é mais um sinal de que Bell
vem construindo uma carreira significativa, digna de uma verdadeira lenda.
Dentre covers e originais, todo o disco é uma celebração do blues de Chicago.
The Blues, The Whole Blues and
Nothing But The Blues é exatamente o que o título sugere, mostrando ainda que,
além do blues, todo o blues e nada mais que o blues, Brombergainda consegue apresentar variações bem
interessantes, deixando o álbum ainda mais rico.
16. Teenage Fanclub – Here
Os herois do alternativo da década
de 90 estão de volta com um novo disco. O que impressiona é que eles ainda
estejam tão bem! Here tem tudo o que os fãs do Teenage Fanclub podem esperar:
belas melodias e ótimas texturas de guitarra.
Joe Bonamassa dispensa apresentações
mais prolongadas. Como todos sabem, seria impensável Bonamassa passar um ano
inativo ou sem lançar algo novo, seja um disco de estúdio ou um disco ao vivo (contando com Blues of Desperation, Bonamassa já lançou três discos só em 2016). Blues
of Desperation confirma Bonamassa como o melhor do blues-rock à disposição no
mercado.
Não é só porque o próprio Big
Harp George visitou o blog e comentou na resenha do disco. É porque Big Harp
faz um grande blues, com composições próprias e letras significativas que
resgatam um pouco do lado positivo do blues, em músicas como “I Ain’t The Judge
of You” e “Justice In My Time”. Em tempos turbulentos, em que as pessoas
reclamam que a vida perde a graça com o politicamente correto, Big Harp George
mostra que se pode se divertir respeitando os outros e buscando sermos melhores
pessoas sempre. Por isso, uma grande relíquia para 2016.
O diferencial de um álbum novo de
um artista já consagrado é que ele não compõe pressionado, não tem nada mais a
provar a ninguém, o que torna o álbum despretensioso e, de certa forma,
revelador de um lado mais pessoal e humano do artista. É algo que acontece com
vários desses deuses do rock, como Paul McCartney e Bob Dylan mais
recentemente. Não nos compete comparar com os clássicos feitos do passado,
apenas desfrutar de mais alguns momentos musicais agradáveis com um gênio da
música, algo quase em extinção. I Still Do é um álbum leve e que mostra que
Clapton ainda tem o blues. Sugere-se que este pode ser o último disco de sua
carreira, de acordo com uma nota que o próprio escreveu; nesse caso, seria uma
delicada, singela e suave despedida.
20. Colin James - Blue Highways
O canadense Colin James lança mais um grande álbum de blues,
cheio de versões de clássicos que ficam maravilhosos nessa nova releitura, com
destaque para “Gypsy Woman” e “Hoodoo Man Blues”.
Os seis
primeiros meses de 2016 chegam ao fim no dia de hoje. Muita coisa boa já rolou
até aqui e muito mais nos é prometido para os seis meses finais. Como uma
retrospectiva parcial, o Filho do Blues criou uma playlist no Spotify para
selecionar as melhores músicas que apareceram até agora. Foram escolhidas 53
faixas nos primeiros seis meses do ano. Nos meses restantes, nós continuaremos
incluindo novas músicas à playlist, por isso, siga-nos e fique por dentro das
novidades.
Dessa primeira
metade do ano, o maior destaque, positivo e negativo, não poderia ser outro
senão David Bowie. O lançamento de Blackstar seguido por sua repentina e
surpreendente morte certamente foi o evento que já nos primeiros dias de
janeiro marcou todo o ano de 2016. Foram escolhidas quatro músicas de
Blackstar, além da faixa título, também escolhemos para integrar a lista “’Tis
a Pity She Was a Whore”, “Dollar Days” e, claro, “Lazarus”. O colaborador e amigo
de longa data de Bowie, Iggy Pop, também deu as caras e lançou um grande álbum
em colaboração com Josh Homme, do QOTSA, do qual “Gardenia” e “Break
Into Your Heart”. PJ Harvey, em seu novo disco The Hope Six Demolition Project,
nos surpreendeu com as faixas “The Wheel”, sobre a crise dos refugiados, e “The
Ministry Of Social Affairs”. Outros álbuns do rock surgiram, como novos
lançamentos de Weezer (White Album), Tindersticks (The Waiting Room) e Suede
(Night Thoughts), dos quais escolhermos, respectivamente, “King of The World”, “Hey
Lucinda” e “I Can’t Give Her What She Wants”. Confesso, no entanto, que na
esfera de música nacional não chegamos a ouvir muita coisa nova e legal,
restringindo ao novo álbum de Clarice Falcão, Problema Meu, do qual selecionamos
duas faixas, “Marta” e “Banho de Piscina”.
selecionamos
No campo do
blues/jazz/gospel é que boa parte do ano foi reservada e os destaques são
muitos, a começar pelo álbum My Road, de Bob Margolin, do qual tivemos muita
dificuldade em selecionar apenas três, que foram “Bye Bye Baby”, “My Whole Life”
e “Heaven Mississippi”. A mesma dificuldade foi sentida em outros discos, como
Let Me Get By, de Tedeschi Trucks Band, tendo escolhido “Let Me Get By” e “Right
On Time”, mas podendo ter escolhido do mesmo álbum várias outras. Mais um
grande destaque foi o disco de John Long, Stand Your Ground, do qual não
tivemos outra opção senão selecionarmos três faixas: “Climbing High Mountains
(Trying to Get Home)”, “Red Hawk” e “No Flowers For Me”. O novo álbum de Eric Clapton,
I Still Do, “Spiral”, “Somebody’s Knockin’” e “Alabama
Woman Blues”. Também fui obrigado a escolher três faixas de All For Loving You,
novo álbum da The Alexis P. Suter Band, “Can’t Find a Reason”, “Don’t Ya’ Tell
Me” e a versão mais incrível de “Let It Be” que você pode ouvir (sem contar com
a original). Tivemos também mais um grande lançamento de Mavis Staples, do qual
selecionamos a incrível “History, Now” e “Action”. A velha guarda de Dion está
representada pelas faixas “Ride With You” e "Can’t Go Back to Memphis”, do seu
novo álbum New York Is My Home. Um dos maiores guitarrista do blues rock também
está presente, claro, com Joe Bonamassa mandando “This Train” e “You Left Me Nothing
But the Bills and The Blues”. O
blues progressista do professor Big Harp George, em Wash My Horse In Champagne,
está garantido com “My Bright Future” e “I Ain’t The Judge of You”. Lucky
Peterson, devido a seu disco Long Nights, conseguiu seu lugar com “Earline” e
“Waiting
On You”, bem como a dupla poderosa composta por Big Jon Atkinson e Bob
Corritore, com a clássica cover de Lightnin’ Hopkins, “Mojo Hand” e a incrível “Somebody
Done Changed The Lock on My Door”, ambas do álbum House Party At Big Jon’s. O
blues potente de Alabama Mike garantiu presença com “Upset The Status Quo”,
faixa título de seu novo álbum, e “Fight for Your Love”. O blues-rock de Moreland
& Arbuckle, com o álbum Promised Land or Bust, ficou com “Mean And Evil” e “Woman
Down In Arkansas”. O sofisticado jazz de Gregory Porter teve lugar com “Take Me
To The Alley” e “In Fashion”, ambas do seu novo e belo álbum Take Me To The
Alley. A coletânea God Don't Never Change: The Songs of Blind Willie Johnson teve três representantes, "Mother's Children Have a Hard Time", executada por The Blind Boys of Alabama, "Trouble Will Soon Be Over", por Sinéad O'Connor, e "Jesus is Coming Soon", por Cowbow Junkies.
Outros álbuns
também chamaram atenção, mas ficaram com apenas uma faixa representante. É o caso de RB Stone, com a ótima
música “Some Call It Freedom”, do álbum Some Call It Freedom (Some Call It The
Blues); Boo Boo Davis, “The Snake”, de seu disco One Chord Blues; Toronzo
Canon, o guitarrista de blues de Chicago, com a faixa “Walk It Off”; e Kenny “Blues
Boss” Wayne, com “Blackmail Blues”, do seu novo álbum Jumpin’ & Boppin’. A
banda Dinosaur Jr só aparece com “Tiny” porque o restante do álbum ainda não
foi lançado, chamado Give a Glimpse Of What Yer Not, que com certeza terá alguma outra faixa em breve.
Acho que é
isso, pessoal. Sintam-se convidados a seguir a playlist e ficar acompanhando as
novidades. Sintam-se à vontade também em dar sugestões nos comentários. Muitos
desses álbuns ainda não tiveram resenhas publicadas no site, alguns ainda
terão, outros, infelizmente, não. Quisera eu ter tempo de escrever todas elas!
O
guitarrista e cantor de gospel, Blind Willie Johnson, pertence à primeira
geração do blues, chamado de “Prewar Era”, ou seja, anterior à Segunda Guerra
Mundial, e também sendo conhecido como “Classic Years”, que compreende o
período de 1920 até 1932. Muitos tiveram o primeiro contato com a obra de Blind
Willie Johnson apenas a partir do documentário de 2003, The Soul Of A Man, dirigido
por Wim Wenders, da série The Blues, produzida por Martin Scorsese. Willie
Johnson, nascido no Texas, em 1897 e do qual pouco se sabe sobre a sua pessoal
além de depoimentos pessoais muitas vezes contraditórios – de amigos e
conhecidos, sua curta obra e seu obituário, este cego cantor de rua foi um dos
principais expoentes desse período que delineou bases essenciais para a
evolução do estilo blues para os anos seguintes. Sua carreira musical, em
termos de gravação, foi curta e meteórica, produzindo, no entanto, alguns dos
maiores clássicos de dois gêneros musicais, o blues e o gospel (ele é
considerado mais como gospel, apesar de ter tido uma profunda influência no
blues). Willie Johnson, inclusive, foi quem melhor uniu esses irmãos
briguentos, mas que não conseguem viver muito separado um do outro. Entre 1927
e 1930, Blind Willie Johnson gravou 30 músicas pela Columbia Records. E é isso,
fim da história. Bem, possivelmente esse seria realmente o fim da história se
dentre aquelas trinta canções não estivessem, por exemplo, “Motherless Children
Have a Hard Time”, “Dark Was The Night-Cold Was The Ground”, “Soul Of A Man”,
“Nobody’s Fault But Mine”, “Jesus Is Coming Soon”, dentre várias outras que se
transformaram em grandes clássicos, tanto para a música gospel quanto para o
blues. Depois da piora da Grande Depressão, em 1930, Willie Johnson abandonou a
carreira musical e provavelmente se tornou um pastor, em Beaumont, Texas. Após
um incêndio em sua casa e sem ter para onde ir, Willie Johnson e sua esposa
tiveram que dormir sob as cinzas, onde acabou morrendo em 1945 de pneumonia, após
sua entrada no Hospital ter sido recusada por ser cego.
É exatamente a
vida e a obra desse cantor de rua cego que é celebrada na coletânea God Don’t
Never Change: The Songs of Blind Willie Johnson, projeto dirigido por Jefferey
Gaskill no decorrer de mais de uma década, que conta com a participação de
grandes nomes da música atual, como Tom Waits, Lucinda Williams, Derek e Susan
Tedeschi, The Blind Boys of Alabama, dentre outros. Blind Willie Johnson foi,
por definição, um porta-voz do divino, do eterno, do espiritual. E esse grupo
de artistas selecionados para o projeto entendeu isso talvez melhor do que o
próprio Johnson, resultando, sem dúvida, em uma obra-prima desse gênero de
coletânea. Na maioria das vezes, um projeto que usa muitos artistas diferentes
para regravar uma obra específica fragmenta-se em pedaços de gravações isoladas
umas das outras. Não há unidade. É como um seminário na Universidade em que um
grupo divide um capítulo para cada pessoa, cada um estuda só o seu, apresenta
sua parte e pronto. God Don’t Never Change foi um projeto no qual cada um dos
indivíduos envolvidos sabia exatamente a dimensão, o significado histórico e
emocional da obra em questão. A essência da obra de Willie Johnson está sempre
presente, ou seja, Deus, o divino, não importa quem esteja empunhando os
instrumentos e cantando ao microfone; a áurea divina, congregacionista, sem
mencionar a qualidade técnica, permeia toda a obra. A grande variedade de
artistas e, por conseguinte, de releituras, acabou sendo um elemento enriquecedor
ao invés de causar uma fragmentação da obra. Outro fator digno de nota é a
ampla participação feminina no álbum: das 11 faixas, 4 são lideradas por homens
(Tom Waits fica a cargo de duas; The Blind Boys of Alabama com um e Luther
Dickinson com a outra) e as 7 restantes são lideradas por mulheres (Lucinda
Williams fica com duas, Susan Tedeschi recebe o acompanhamento de seu esposo,
Derek Trucks, Cowboy Junkies, Sinéad O’Connor, Maria McKee e Rickie Lee Jones
ficam com uma cada) e mesmo nas faixas que não são dominadas pelas mulheres,
sua presença está sempre ali nos corais. Apesar de poder soar estranho para uma
obra em homenagem a um cantor solo dono de uma das vozes mais graves da música,
quando lembramos que muitas de suas gravações foram acompanhadas por sua
esposa, Willie B. Harris, a predominância feminina é totalmente compreensível e
muitíssimo bem vinda.
A
primeira contribuição de Tom Waits é a faixa de abertura, “The Soul of A Man”;
sem dúvida, dentre as vozes disponíveis no “mercado”, Tom Waits é a escolha
natural e a que mais se aproxima à de Willie Johnson e seria fácil apenas
imitar a versão original de Johnson. No entanto, Waits deu uma acelerada no
ritmo da música, tornando-se um daqueles pastores que colocam a congregação
abaixo, enquanto a marcação é feita pelas palmas que remetem à congregação
religiosa, recurso presente em várias outras faixas. Poucos conseguiram
penetrar tanto na alma humana como na letra dessa música e ainda assim sair de
lá sem saber o que é a alma humana. Na sua segunda contribuição, “John The
Revelator”, Tom Waits parece renovado, resgatando a voz de um cantor de rua que precisa que sua voz alcance o máximo de pessoas possível; para mim, pessoalmente, o grande desafio era encontrar
a honestidade e profundidade espiritual e religiosa para encarnar um
tradicional cantor gospel, sobretudo Blind Willie Johnson, especialmente para
alguém, tal qual Tom Waits, que não está preso aos limites da arte e gosta de
vagar por temas delicados e, por vezes, contraditórios com a religião; para
alguém que cantou em “don’t you know there ain’t no devil that’s Just God when
he’s drunk”, minha preocupação era justificada, já que a parcela de sinceridade
e profundidade é tão importante no conceito e na obra de Blind Willie Johnson.
O resultado é que pela transformação tão grande em Tom Waits e não abandonando
seu estilo tradicional, parece que ele pode cantar gospel e espirituais agora o
resto da carreira, mantendo seu estilo gutural e underground. “John The
Revelator”, a tradicional música gospel de pergunta e resposta com referências
da Bíblia, é a prova disso.
Quem
também ficou com duas faixas foi Lucinda Williams, soando incrível em cada uma
delas. O estilo de slide, tradicional de Willie Johnson está presente em vários
momentos do álbum, mas é Williams que consegue fazê-lo de forma magnífica. A
primeira é “It’s Nobody’s Fault But Mine” e a segunda é a faixa que dá título
ao álbum, “God Don’t Never Change”. Lucinda Williams brilha igualmente em
ambas. Derek Trucks e Susan Tedeschi ficaram encarregados de “Keep Your Lamp
Trimmed and Burning”; inclusive, na original, de 1928, Willie Johnson divide os
vocais com sua esposa, Willie B. Harris. Na apocalíptica “Jesus Is Coming
Soon”, sobre o desastre da gripe espanhola de 1918, que matou em torno de 5%
das pessoas em todo o mundo, a banda canadense Cowboys Junkies conta com a
participação mais especial de todas, o próprio Blind Willie Johnson. A música
começa com um trecho da gravação original, gravada em 1928; no refrão, essa
versão original retorna, mas agora acompanhada pela banda completa. O
tradicional e o moderno. Absolutamente incrível.
É
difícil escolher qual seria a melhor faixa do álbum, mas sem dúvida uma delas
teria que ser a belíssima e tocante “Mother’s Children Have a Hard Time”,
tocada por The Blind Boys of Alabama; o conjunto, a letra, a música, a harmonia
das vozes, tudo faz com que a música inteira causa arrepios emocionantes. O desespero de um filho sem mãe está
presente em cada um do Blind Boys of Alabama quando cantam: “Motherless
children have a hard time, mother's dead They'll not have anywhere to go,
wanderin' around from door to door Have a hard time” Com Sinéad O’Connor, em
“Trouble Will Soon Be Over”, a pesada carga emocional permanece nas alturas. Poucas
preces soam tão poderosas quanto essa música. Luther Dickson se junta a banda
de pífano Rising Star Fife & Drum Band e traz o som da África Ocidental
junto com eles para tocar “Bye and Bye I'm Going To See The King”. Maria McKee se destaca na versão de “Let Your
Light Shine On Me”. Das 11 músicas, a única na qual a equação não funcionou,
infelizmente, foi em “Dark Was The Night-Cold Was The Ground”, com Rickie Lee
Jones; o motivo é simples: ao vocalizar, tentar cantar na faixa instrumental
mais clássica de Willie Johnson, ela acabou retirando toda sua magia e mística,
que são os incríveis e belíssimos solos de slide, absolutamente intraduzíveis
para qualquer língua falada que seja. Mas, em relação aos outros companheiros
no projeto, Rickie Lee Jones ficou certamente com a missão mais difícil de
todas, pois mexer na música que está viajando pelo Universo abordo do The
Voyager não é fácil.
Uma
publicidade feita pela Columbia Records nos anos iniciais da carreira meteórica
de Blind Willie Johnson dizia: “Hear Blind Willie Johnson spread the light of
old-time faith”; God Don’t Never Change: The Songs of Blind Willie Johnson é
mais do que uma simples coletânea para celebrar a carreira de um artista já
morto; é mais do que apenas preservação de um legado histórico; é muito mais do
que um golpe de publicidade, do que a reunião de artistas famosos para vender
um álbum. Se for verdade o que dizem que a música é uma janela para Deus; bem,
então God Don’t Never Change: The Songs of Blind Willie Johnson é a uma das janelas
mais belas e iluminadas que foram abertas na música.
Tedeschi
Trucks Band é uma banda grande, de fato; a grandeza, porém, advém mais do
número de integrantes do que necessariamente pelos seus feitos musicais: a
banda, formada em 2010, em Jacksonville, na Flórida, que uniu as carreiras do
casal Susan Tedeschi, cantora de blues e Derek Trucks, guitarrista de blues. Chegaram
agora chega ao seu terceiro álbum de estúdio com o lançamento de Let Me Get By,
é formada por doze membros fixos, já que o baixista de jazz Tim Lefebvre
integrou permanentemente a banda (Tim foi o baixista da já icônica banda que
gravou Blackstar, o último álbum de David Bowie). Os dois primeiros álbuns,
Revelator, de 2011 e Made Up Mind, de 2013, foram muito bem recebidos pela
crítica e pelo público, que elogiaram bastante o som da banda, principalmente
suas apresentações ao vivo, que mescla o rock com a riquíssima tradição da
black music, ou roots music, como blues, gospel, soul e até mesmo funk. Em Let
Me Get By, no entanto, lançado hoje, o casal Susan Tedeschi e Derek Trucks e
seus demais dez companheiros levam a banda a outro patamar.
O sucesso
alcançado com Made Up Mind fez com que a banda fosse de vez pra estrada,
apresentando-se mais de 200 vezes em 2014. Entre a correria dessa vida “on the
road”, eles se reuniram no Swamp Raga Studios, o estúdio caseiro do casal, e
começaram gravar a banda tocando totalmente solta, improvisando em longas jams,
cada um contribuindo com ideias, músicas, melodias, harmonias, etc. Iam
novamente para a estrada e depois voltavam mais uma vez para o estúdio, tanto é
que muitas das músicas de Let Me Get By foram tocadas em shows durante o ano de
2015, como mostra os vídeos do youtube. Bem, o resultado disso é o incrível Let
Me Get By, um álbum extremamente colaborativo, o que pode ser facilmente notado
na riqueza de cada uma das dez faixas presentes no disco. A maioria das músicas
em Let Me Get By ultrapassa a barreira dos cinco minutos, fazendo com que os
músicos tenham mais espaço para preencher e desenvolver suas ideias, cavando
cada vez mais fundo na estrutura das músicas, de forma completamente
confortável, confiante e relaxada. Conseguir a harmonia de uma banda de 12
membros não é coisa fácil. A voz de Susan Tedeschi é um brilho à parte, que
somado aos corais estilo gospel, faz parecer que o sagrado e o secular são, na
verdade, a mesma coisa.
A faixa de
abertura, “Anyhow”, já trilha o caminho grandioso do restante do álbum, com
Susan Tedeschi realizando uma das melhores performances vocais de todo álbum. A
prova de que uma música de longa ligação realmente funciona, quando a banda
realmente sabe o que fazer, é que após Susan dar seu show particular, os
últimos minutos são destinados aos improvisos de solos de guitarra sensacionais
de Derek Trucks. Liricamente, o álbum como um todo é bastante positivo, pra
cima, o que casa muito bem com os ritmos dançantes da maioria das faixas. A
faixa seguinte, “Laugh About It”, aí se enquadra; diante das situações da vida,
das pessoas querendo colocar você pra baixo, você escolhe escolher: chorar,
cantar ou rir delas. Claro que nesses momentos de otimismo exacerbado, sobra
espaço pra uns clichês aqui ou ali, como “life is what we made it”. Tudo
tranquilo, de boa. Afinal, esse som é para ser curtido mesmo. Em “Don’t Know
What It Means”, tem o ritmo mais funk, mas o que se destaca mesmo é o refrão
irresistível, que faz você acompanhar batendo palmas e balançando a cabeça com
os olhos fechados. A sessão de metais está sempre presente, preenchendo os
espaços vazios e enriquecendo o universo sonoro, mas em alguns momentos se
sobrepõe à guitarra de Derek e se soltam em solos empolgantes como no último
minuto de “Don’t Know What It Means” e o solo de trompete no jazz de “Right On
Time”, que lembra um pouco Louis Armstrong. “Right On Time”, inclusive, uma das
melhores do disco, apresenta um dueto entre Mike Mattison e Susan Tedeshi muito
bom, a voz meio que fraca, tensa e quase sombria de Mattison contrastando com a
força e delicadeza da voz de Tedeschi.
A faixa que dá
título ao álbum, “Let Me Get By” é outro show à parte, quase como um culto religioso
ao ar livre no meio de uma arena de rock. Gospel, blues, funk, soul e rock
juntos e misturados. O teclado, que estava meio que apagado nas faixas anteriores,
dá as caras agora. “Just As Strange” é mais simples e “limpa” que as outras,
talvez por isso seja por elas totalmente eclipsada, mas ao menos mantém o ritmo
fluindo. Já “Crying Over You / Swamp Raga For Hozapfel, Lefebvre, Flute And Harmonium”,
cantada por Mike Mattison, é outra mudança de direção, focada bem mais no soul;
uma viagem quase épica e com uma melodia belíssima, além da variação musical
que cada um dos músicos coloca aqui (principalmente o melhor solo de guitarra
do álbum), o que faz valer os oito minutos de música, com os dois minutos
finais cheios de sons orientais, tipo flautas e cítaras. Depois de deixar
Mattison brincar um pouco, Susan Tedeschi volta com tudo na bela e melódica “Hear
Me”. O álbum caminha pro fim com o
R&B de “I Want You”, que parece feita sob encomenda para as pistas de
dança, mas que do meio pro final vira numa jam-session estranha e sensacional. O desfecho vem com chave de ouro em “In Every
Hear”, mais um gospel-blues-soul incrível.
Enfim, Let Me
Get By consegue captar todo o potencial da grande banda Tedeschi Trucks Band,
agora não somente grande apenas no número de integrantes, mas grande também
pela música, recheada de maturidade, criatividade e profundidade. Um grande e
grandioso álbum. Sem dúvida, “grande” é o adjetivo perfeito para Let Me Get By.