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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Melhores Álbuns de 2017 - Parte V



01. Guy Davis & Fabrizio Poggi - Sonny & Brownie's Last Train



 Guy Davis está entre os mais renomados cantores do blues da nova geração que surgiu para dar um novo fôlego ao gênero a partir da década de 90. Cantor versátil e bastante produtivo, Guy Davis conta com um respeitável catálogo, que abrange desde clássicos recentes, como You Don’t Know My Mind, de 1998, e Butt Naked Free, de 2000, até álbuns puramente conceituais, como o interessante The Adventures of Fishy Waters, de 2012. Para o seu novo projeto, Davis se juntou com o gaitista italiano Fabrizio Poggi, que tem também uma carreira tão longa quando a de Davis, no entanto não dispõe de tanta inserção no cenário mundial. Nesse projeto colaborativo, a dupla decide homenagear aqueles que provavelmente são a dupla mais lendária de toda a história do blues: Sonny Terry (1911-1986) e Brownie McGhee (1915-1996). Os dois se completavam de tal modo, Sonny na gaita e com seus “woooh” inconfundíveis, e Brownie com sua voz profunda e inabalável e a seu dedilhado no violão.  Essa dupla fez um dos sons mais incríveis do século XX, levando o blues rural e inclusive as técnicas do blues a novos patamares. Pois bem, é para homenagear esses dois grandes cantores da história do blues que juntou Guy Davis e Fabrizio Poggi no projeto intitulado Sonny & Brownie’s Last Train: A Look Back At Brownie McGhee and Sonny Terry, lançado esse no final de março. Ambos foram profundamente influenciados pelo estilo de gaita chamado Piedmont, do qual Sonny e Brownie foram precursores.

                Qualquer álbum que tem como intuito ser um tributo tem de enfrentar necessariamente dois dilemas: o primeiro se trata da escolha das faixas. O segundo dilema é como essas músicas vão ser executadas; se respeitando as versões originais ou reinventando-as e dando novas roupagens. Não existe uma fórmula pronta para álbuns assim, uns funcionam utilizando a primeira forma e outros funcionam melhor com a segunda abordagem.

No primeiro quesito, Sonny & Brownie’s Last Train é impecável. Sem dúvida, alcança as músicas mais famosas tocadas por Sonny e Brownie. É impossível ouvir em qualquer lugar faixas como “Louise, Louise”, “Hooray, These Women is Killing Me”, “Walk On”, por exemplo, e não lembrar deles. Todas estão lá, tocadas de forma emocionante. A gaita de Fabrizio dá acompanhamento incessante a todas as músicas, com texturas e técnicas sensacionais. Sonny ficaria orgulhoso. Junto com as clássicas da dupla, estão lá também versões de tradicionais do blues, que Sonny e Brownie também tocaram, como o hino “Take This Hammer”, e a icônica “Midnight Special”, ambas de uma das suas maiores inspirações, Ledbelly, e “Goin’ Down Slow” e “Baby, Please Don’t Go to New Orleans”, que qualquer bluesman que se preze em algum momento de sua carreira vai tocar essas músicas. Ainda sobre espaço para um música original de Guy Davis. A faixa que dá abertura ao disco é a original e Guy, “Sonny & Brownie’s Last Train”, que dá uma narração quase mítica à história de Sonny e Brownie, inclusive cheia dos whoops característicos de suas músicas. No final dessa faixa, uma mensagem de Guy e Fabrizio para a dupla: “Goodbye Sonny, Goodbye Brownie. See you on the other side”.

Bem, no caso de Sonny & Brownie’s Last Train, ouso dizer que só dá tão certo porque Guy Davis e Fabrizio Poggi gravam essas músicas de forma primitiva, crua, e, portanto, poderosa, da mesma forma que Sonny e Brownie fizeram no seu tempo. Até porque, segundo o próprio Guy, Brownie e Terry foram dois músicos cujo trabalho nunca será superado, muito menos melhorado”. Guy  encarna o papel de Brownie, enquanto Fabrizio se encarrega de representar a gaita de Sonny, o que não é uma tarefa nada fácil. O resultado do trabalho de Fabrizio sem dúvida é um dos pontos mais fortes do disco.

Pois bem, estamos em 2017. Nada mais vai alcançar a genialidade das gravações de Sonny Terry e Brownie McGhee do que esse projeto de Guy Davis e Fabrizio Poggi. O fato de ser um tributo sincero faz com que o álbum atinja todos os seus objetivos. É um álbum honesto, empolgante, histórico e apaixonante.






02. Walter Trout - We're All In This Together




We’re All In This Together torna-se assim, além de um favoritos para o melhor disco do ano, uma obra-prima do gênero blues-rock e coloca Walter Trout como seu maior representante e compositor. O mais legal é que essas posições de nada importam: ele consegue essa proeza num disco colaborativo em que os egos de cada um dos convidados – e o dele próprio – são deixados de lado e o que transparece é realmente a única coisa que importa de verdade: o amor pela música.






03. The Cash Box Kings - Royal Mint


Contando com regravações poderosíssimas e canções originais relevantes de quem vive o tempo presente, com críticas políticas e sociais, executadas por integrantes que conhecem profundamente os diferentes estilos do blues, The Cash Box Kings reafirmam a relevância do blues para a cena musical contemporânea. De fato, é como o próprio Oscar Wilson descreveu o disco: "um retorno à era dourada do blues.





04. Rev. Sekou - In Times Like These



In Times Like These é um álbum daqueles que realmente só podem ser feitos em tempos como estes. Cheio de tensão, revolta, paixão, dor, sentimento e, acima de tudo, esperança. Ainda de quebra, Rev. Sekou nos leva a uma visita à Igreja. Aqui cabe um adendo: independente da sua religião ou se não tem religião, mesmo assim, a música nos leva a significativas experiências espirituais. Rev. Sekou, apesar de pastor de uma Igreja pentecostal, sabe muito bem disso. Álbuns assim são os que curam a alma. Estamos precisando.






05. Mitch Woods - Friends Along The Way



Esse álbum é uma festa. Uma grande parte dos artistas que estão presentes nos 50 melhores discos do ano são amigos de Mitch Woods, o que os faz presente em Friends Along The Way. O nome não é lá muito original, mas funciona perfeitamente. Até quem já partiu se faz presente aqui, como John Lee Hooker e James Cotton. Mas a lista é bem mais extensa: Van Morrison, Charlie Musselwhite, Taj Mahal, Elvin Bishop, Joe Louis Walker, Maria Muldaur, Kenny Neal, John Hammond, dentre outros. Cada qual traz um pouco do seu estilo para somar ao piano de Mitch Woods, gerando um resultado sensacional. 






06. Van Morrison - Roll With The Punches



Van Morrison não é nenhum novato no mundo da música e já percorreu por vários caminhos da música americana, entre rock, folk, blues. Aos 72 anos, Morrison compôs mais cinco originais e gravou 10 covers para compor o ótimo Roll With The Punches focadas essencialmente no Chicago Blues, mas, pela sua trajetória, podemos perceber também nas músicas influências de diversos estilos, o que contribui ainda mais para o disco, sem perder a essência do blues. 






07. Eric Bibb - Migration Blues




É impossível não politizar um álbum que nos dias de hoje leve o nome de "Migration Blues". Eis o novo álbum do cantor e compositor Eric Bibb, que lança o novo disco em meio ao governo turbulento e xenófobo do novo presidente norte-americano, Donald Trump, com propostas cada vez mais mirabolantes para tratar da questão da imigração no país anglo-saxão, além do recrudescimento da tensão racial nos Estados Unidos e - por que não? - no mundo. "Migration Blues" é rico musicalmente, socialmente e politicamente. É, enfim, um grande registro de uma época confusa e tensa, que, no futuro, se constituirá num ótimo disco-manifesto dessa época.







08. Little Roger & The Houserockers - Good Rockin' House Party



Como o título sugere, é trilha sonora pra festa caseira, isso se você estiver interessado no blues clássico da década de 50, 60. Em Good Rockin' House Party, Little Roger e banda conseguem captar o espírito festivo do gênero, além de baladas para o momento da conversa ao pé do ouvido e de dançantes para se soltar no meio da sala. 







09. Kim Wilson - Blues and Boogie, Vol. 1



Kim Wilson é o líder da banda de blues The Fabulous Thunderbirds, mas agora saiu em um projeto solo de lançar volumes de clássicos de blues e boogie. Um projeto desse nas mãos de um dos grandes gaitistas de blues da atualidade não poderia dar errado. Uma ótima seleção de músicas, que passa por gênios da gaita como Little Walter, Sonny Boy Williamson e James Cotton, mas também abrange Elmore James, John Lee Hooker, dentre outros, faz com que a diversão seja garantida do início ao fim. 






10. Roger Waters - Is This the Life We Really Want?



Vários discos entre os dez melhores do ano são como manifestos políticos de seu tempo. E dentre todos, o primeiro disco de rock de Roger Waters em quase 25 anos é o mais amplo. Em Is This the Life We Really Want?, Roger Waters usa de toda sua acidez lírica para criticar o mundo contemporâneo, tanto nos seus aspectos políticos quanto sociais. O mundo distópico, em "Picture That", a separação forçada de pais e filhos, em "The Last Refugee", os drones como armas de guerra, em "Deja Vu", o sonho americano, em "Broken Bones", o terrorismo, em "Smell The Roses", dentre outras sacadas. É um álbum mordaz, profundo, cujas letras contém várias referências do mundo atual. Vale a pena construir este quebra-cabeça. 






quinta-feira, 6 de julho de 2017

Resenha de Rev. Sekou - In Times Like These






                Mesmo com o movimento e a conquista dos direitos civis, a tensão racial nos Estados Unidos nunca deixou realmente de existir, mesmo depois que o primeiro presidente negro da história do país foi eleito, em 2008. Nos últimos anos há uma nova escalada nos conflitos raciais, colocada em evidência pela violência policial contra a população jovem negra, sempre as vítimas preferíveis dos policiais. O caso emblemático que estourou a onda de protestos pelo país e ligou o alerta para o movimento social negro norte-americano aconteceu em 9 de agosto de 2014, em Ferguson, depois que um jovem de 18 anos chamado Michael Brown foi baleado por um policial branco depois de um assalto a uma loja de conveniência. O assassinato de Brown desencadeou várias ondas de protestos entre novembro de 2014 e agosto de 2015, em que a população negra se uniu para a situação da população jovem negra em relação à violência policial, já que o caso em Ferguson não foi o único que um jovem morreu nessas circunstâncias de violência desproporcional empregada pelas forças policiais. Durante esses protestos em Ferguson, um pastor e ativista chamado Reverend Osagyefo Uhuru Sekou foi preso depois que se ajoelhou para rezar entre os policiais e os manifestantes. E é sobre ele que iremos falar agora, pois ele transferiu sua energia, sua fé e seu protesto na forma de blues e gospel no ótimo álbum In Times Like These, criando um dos mais impactantes álbum-manifesto do gênero.

Essa tensão recente já foi transplantada para a música em vários momentos, especialmente no que se refere ao hip-hop. Já Mavis Staple também usou sua música como o reflexo desse momento no seu ótimo disco Livin' On a High Note, de 2016. In Times Like These, de Rev. Sekou, vem para acabar com o silêncio incômodo que pairava pelos novos lançamentos no meio do blues.

O disco foi produzido por Luther e Cody Dickinson, do North Mississippi Allstars, que recebem o crédito de unir os elementos diversos em um som coeso e forte de gospel-blues-rock presente por todas as faixas do disco. Mas o grande astro mesmo é Rev. Sekou, ou melhor, a potência de sua voz que traduz toda a sua vitalidade e energia para lugar por um mundo melhor. Esse vigor pode ser percebido já nos primeiros segundos do disco, pois a faixa de abertura "Resist" tem trechos do discurso que Rev. Sekou deu nos protestos de Ferguson. No refrão, o reverendo clama com toda força "We want freedom and we want it now - Resist". Sekou ainda apela para a autodeterminação, afirmando para sempre resistir quando dizem o que você pode ou não fazer, quem você pode ou não amar, ou se você deve ou não voltar a estudar e coisas do tipo.  A ideia é resistir, seja que hora for. A banda grande e as músicas cheias de arranjos de metal bem posicionados também chamam atenção. No final tem a continuação do discurso de Rev. Sekou nos protestos: é dessa geração - que está resistindo, lutando, se colocando diante da brutaidade policial - que a história irá falar depois.

Na faixa título, com uma batida mais para o funk, Sekou continua o apelo pela mudança e a chamada para a contínua mobilização social, pois percebe que não tem nenhum político ou algum santo ou heroi que irá fazer com que suas reivindicações sejam ouvidas. É através da luta contínua que um povo conquista e/ou amplia seus direitos. Ao mesmo tempo em que Sekou situa a luta contemporânea da população negra, ele não esquece o histórico de perseguição, violência e exploração que seu povo sofreu por séculos:

"Persecuted but not forsaken
Been 400 years, and they still can't break us
Sometimes I feel like giving up, I cannot lie
Too busy working for my freedom, ain't got time to die.
In times like these, we need a miracle,
Ain't nobody gone save us, we're the ones we've been waiting for."

Na faixa seguinte, Sekou recria a faixa "Burnin' and Lootin'", de Bob Marley, direcionando a música para o campo do gospel e do blues. “Lord, I Am Running (99 ½ Won’t do)”, um blues cheio de riffs e solos de guitarra, é mais um dos vários destaques do disco. Para cantá-la, Rev. Sekou conta com a ajuda de Raina Sokolov-Gonzalez. Na letra, Rev. Sekou recria a situação de milhares de afro-americanos que tentava fugir das plantações correndo até a exaustão pela sua própria vida, ouvindo o latido dos cachorros no seu rastro. A repetição da letra funciona como se o corredor estivesse cantando para si mesmo, buscando forças para completar os 100 porque 99 e meio não seriam suficientes. “Muddy and Rough” é um blues cru e bem marcado, alternando solos de órgão e de guitarra, inclusive com o melhor solo de guitarra do disco. A improvisação e a variação do vocal de Rev. Sekou certamente é uma influência da sua vida de pregação na sua Igreja pentecostal.

A tradição familiar entre blues, gospel e soul, além de sua trajetória de vida como pastor, teólogo, poeta, documentarista, também leva os temas do gospel para a mesa. “The Devil Finds Work”. A estrutura da música é incrível. Começa com um blues arrastado, com uma guitarra pesada acompanhando a música e depois, de súbito, muda totalmente para um ritmo frenético de um spiritual. É quase como nos vermos dançando no meio da congregação, com palmas e tudo. Incrível.

O momento iluminado do disco continua com “Old Time Religion” acompanhado do órgão. “When The Spirit Says Move” é mais um gospel animado para acompanhar batendo palmas. O disco encaminha-se para o final com a balada soul “Loving You Is Killing Me” e a balada no piano “Problems”.

In Times Like These é um álbum daqueles que realmente só podem ser feitos em tempos como estes. Cheio de tensão, revolta, paixão, dor, sentimento e, acima de tudo, esperança. Ainda de quebra, Rev. Sekou nos leva a uma visita à Igreja. Aqui cabe um adendo: independente da sua religião ou se não tem religião, mesmo assim, a música nos leva a significativas experiências espirituais. Rev. Sekou, apesar de pastor de uma Igreja pentecostal, sabe muito bem disso. Álbuns assim são os que curam a alma. Estamos precisando.