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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

"The Wheel", PJ Harvey e o ativismo político no rock



“The Wheel”, primeiro single do novo álbum de PJ Harvey, The Hope Six Demolition Project, ganhou um vídeo clipe tão expressivo e poético quanto a própria música. O resultado é fruto da parceria entre PJ Harvey e o fotógrafo e diretor, Seamus Murphy. Mas dessa vez eu gostaria de ir um pouco mais além de simplesmente noticiar sobre o vídeo e refletir sobre o mundo da música. O tema de “The Wheel”, que trata do drama dos refugiados, sobretudo as crianças que, diariamente, morrem aos montes uma morte trágica e silenciosa, destaca a falta de ativismo político nos artistas atualmente, sobretudo quando o mundo parece estar de cabeça para baixo. O rock surgiu da contestação e da contracultura; surgiu de Bob Dylan ao dizer que os tempos estão mudando; surgiu  da guitarra de Jimi Hendrix ao tocar o hino dos Estados Unidos no Woodstock; surgiu da contestação da insanidade da Guerra do Vietnã; surgiu da revolução sexual de Elvis Presley, Jim Morrison e David Bowie; surgiu do submundo dos marginalizados, dos discriminados; surgiu também das work songs, do blues, do jazz e das vozes de negros e negras corajosos como Nina Simone, Big Bill Broonzy e J. B. Lenoir, para citar alguns. Um negro do sul dos Estados Unidos em meados dos anos vinte, anos trinta, não poderia fazer uma crítica tão aberta e contundente ao sistema social e político como os brancos da classe média que se levantaram junto com o rock a partir da década de cinquenta poderiam fazer. Seria facilmente linchado e ficaria por isso mesmo. Hoje em dia, no entanto, todo esse legado de contestação parece estar desaparecendo enquanto o ativismo político no rock está ficando cada vez mais raro. No Brasil o caso é pior, pois vemos a proliferação de roqueiros reacionários e o ativismo político de direita, o que cria o fenômeno incrível de que o funk, tão criticado e discriminado socialmente, tem um elemento de contestação muito maior do que o rock nacional atual.

Na música, exemplos de ativismo político podem ser contados no dedo, como o ativismo de Neil Young e bandas como Pearl Jam, em nome do meio ambiente; Manic Street Preachers também sempre se posicionaram criticamente em relação a temas como desigualdade e justiça sociais. Também poderiam ser incluídas nessa lista bandas como U2 e Rage Against The Machine, apesar de ter durado pouco. Mas dificilmente a lista se prolonga muito mais e é por isso que “The Wheel” e PJ Harvey surgiram como uma brisa que possa dar uma alavancada nesse mundo apático. The Hope Six Demolition Project é fruto de uma série de viagens que Harvey fez para locais que são ou estiveram recentemente em zona de conflito, como Kosovo e Afeganistão. “The Wheel” é a primeira versão desse olhar poético de Harvey sobre os desastres que ocorrem nesses lugares remotos e isolados, que faz com que o sofrimento dos outros sejam invisíveis aos olhos do restante do mundo. Para deixar o cenário mais impactante, PJ Harvey utiliza a crise de refugiados na Europa e a referência mundial da imagem do garoto sírio morto na praia na Turquia no ano passado e afirma secamente na letra: “Hey little children don’t disappear - (I heard it was 28,000)”. O clipe reforça esse sentimento de desolação, com balanços enferrujados sem nenhuma criança brincando com eles e imagens de campos de refugiados. O rock tem e sempre teve um imenso poder mobilizador que parece estar sendo subutilizado pelas novas gerações imersas no mundo digital, que, embora tenha acesso a muito mais informação, parece não ter tempo de processá-las e ressignificá-las de forma adequada para uma atuação mais ativa e consciente no mundo. Claro que ninguém está obrigado a ser ativista 24h/7d, mas é importante manter uma relação direta em relação ao mundo em que vive. Confira abaixo a letra e o vídeo de “The Wheel”, de PJ Harvey.

"The Wheel"

A revolving wheel of metal chairs
Hung on chains, squealing
Four little children flying out
A blind man sings in Arabic

Hey little children don’t disappear
(I heard it was 28,000)
Lost upon a revolving wheel
(I heard it was 28,000)

Now you see them, now you don’t
Children vanish ‘hind vehicle
Now you see them, now you don’t
Faces, limbs, a bouncing skull

Hey little children don’t disappear
(I heard it was 28,000)
All that’s left after a year
(I heard it was 28,000)
A faded face, the trace of an ear
(I heard it was 28,000)

A tableau of the missing
Tied to the government building
8,000 sun-bleached photographs
Faded with the roses

Hey little children don’t disappear
(I heard it was 28,000)
Lost upon a revolving wheel
(I heard it was 28,000)
All that’s left after a year
(I heard it was 28,000)
A faded face, the trace of an ear
(I heard it was 28,000)

And watch them fade out
And watch them fade out
And watch them fade out...


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

PJ Harvey anuncia novo álbum, The Hope Six Demolition Project



                A lista de lançamentos futuros está engrossando a cada que passa. Somando-se a Joe Bonamassa, Iggy Pop e Weezer, outro grande lançamento é esperado para os primeiros meses do ano. Após cinco anos do lançamento do aclamado Let England Shake, o melhor álbum de sua carreira, PJ Harvey anunciou que irá lançar um novo disco em 15 de abril, chamado The Hope Six Demolition Project. O álbum tem uma história interessante; em meio a viagens para Kosovo, Afeganistão e Whashinton, com o fotógrafo e cineasta Seamus Murphy, e enquanto fazia também o seu livro de poesia, The Hollow of The Hand, Harvey começou a gravar The Hope Six Demolition Project em sessões abertas para o público, como parte de uma exibição no Museu de Londres no ano passado. Vários ingredientes para um grande álbum à vista. Abaixo segue um trailer do disco com trechos de duas músicas, “The Community of Hope” e “The Wheel”, esta última que também é o primeiro single do trabalho.

Tracklist

01 The Community of Hope
02 The Ministry of Defence
03 A Line in the Sand
04 Chain of Keys
05 River Anacostia
06 Near the Memorials to Vietnam and Lincoln
07 The Orange Monkey
08 Medicinals
09 The Ministry of Social Affairs
10 The Wheel
11 Dollar, Dollar


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Melhores Álbuns de 2011 - Parte III

30. LIRINHA – LIRA



Lira é uma mudança muito bem intencionada na carreira de Lirinha que faz finalmente a gente entender e concluir “agora sim, eu entendi porque ele saiu de Cordel...”. Falta uma direcionada dessa na carreira de muita gente grande por aí. Por exemplo, gostaria muito de um álbum assim de Jack White para saber se finalmente entenderia o fim do White Stripes.





29. KURT VILE – SMOKE RING FOR MY HALO



Membro do The War on Drugs, Kurt Vile superou a banda principal com o lançamento do seu terceiro album solo, Smoke Ring From My Halo. Com um lo-fi de qualidade, Vile enche o trabalho inteiro com belas canções, num clima calmo e um pouco meditativo.





28. PJ HARVEY – LET ENGLAND SHAKE



Let England Shake mostra um trabalho quase conceitual, muito bem pensado nos detalhes e inclusive na sua aparente simplicidade. Um álbum que enriquece ainda mais a carreira dessa grande e bela compositora inglesa.





27. EDDIE VEDDER – UKULELE SONGS



Eddie Vedder lançou o “Ukulele Songs” em 2011, que é somente ele e o ukulele, um instrumento havaiano semelhante ao cavaquinho brasileiro e distribui através de 16 músicas as mesmas belíssimas melodias e letras de sempre. O que fica bem interessante é que as letras de Eddie Vedder estão bem depressivas, sobre perdas amorosas e solidão, antagonizando com o som do ukulele, que normalmente é usado em músicas agitadas e alegres.





26. DUM DUM GIRLS – ONLY IN DREAMS



O trabalho inteiro é composto por canções interessantes e mantém um nível bem legal, nada muito genial, mas muito divertido, como é o caso da maioria das músicas, e duas faixas geniais. No geral, Only In Dreams é um bom trabalho, muito confortável para ouvi-lo tranquilamente e aproveitar seus momentos. E Dum Dum Girls parece uma banda cujo potencial está na linha crescente.



Parte I (40 a 36)
Parte II (35 a 31)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

PJ Harvey - Let England Shake



A cantora inglesa PJ Harvey voltou no início deste ano com o álbum inédito Let England Shake, seguindo A Woman A Man Walked By, de 2009. A seu catálogo fala por si só e atesta a capacidade de PJ de buscar sempre novos caminhos, novas formas de encaixar sua música e sua poesia. Em Let England Shake, PJ Harvey, através de um som com tímidos instrumentos percussivos, criou um som com trabalhos muito interessantes de guitarra e outros arranjos musicais, com letras fortes, estranhas, sobre guerras e sua relação com o mundo e, sobretudo, a Inglaterra, que aqui se apresenta mais como uma personagem, interagindo e tendo papel fundamental nas letras, muito interessantes e poéticas, sempre um dos pontos fortes de PJ.



O álbum começa com a faixa título “Let England Shake”, um som bem gostoso, com pianos delicados contornando a música e a voz quase pueril de PJ Harvey, que vai crescendo com a música. “The Last Living Rose”, soa como um apelo de volta à “beautiful England”. “The Glorious Land” tem um divertido metal estilo militar nos arranjos, sendo a coisa mais interessante dessa faixa. “The Words That Maketh Murder” é uma forte música, com uma pesada letra de coisas vistas num campo de guerra, como um trauma forte de um ex-combatente, “i’ve seen and done things i want to forget”. “All and Everyone” é certamente uma das melhores do álbum, bela música, com ótima base de guitarra e letra sombria e a voz magníficia de PJ Harvey nos conduzindo pelas nuances da música.



“On The Battleship Hill” PJ Harvey soa quase como Enya, num vocal bem agudo, quase uma canção religiosa. Depois o violão fica mais rápido, vem as raízes mais folks, e PJ Harvey divide o vocal com uma voz masculina. “England” é uma melancólica balada romântica para o país, daquelas de separação ou briga conjugal, quando ela fala "you leave a taste, a bitter one". Bem interessante esse personagem criado para a Inglaterra, que permeia todo o álbum.



“In The Dark Places” e “Bitter Branches”, ambas sombrias, também apresentam interessantes letras e bases de guitarra. “Hanging In The Wire” é uma bela música, acompanhada ao piano e por um delicado backing vocal, com uma melodia muito bonita. Várias músicas são bem curtas, e nessas horas a gente bem que gostaria que ela tivesse esticado um pouco mais. “Written On The Forehead” é até engraçada, começa bem sombria, ai no refrão entra um ritmo bem reagge, inclusive no fundo sendo cantada alguma frase assim. “The Colour of The Earth” apresenta um dueto bem legal com Mick Harvey, integrante da banda. E se despede do álbum com “The Big Guns Called Me Back Again”.

Let England Shake mostra um trabalho quase conceitual, muito bem pensado nos detalhes e inclusive na sua aparente simplicidade. Um álbum que enriquece ainda mais a carreira dessa grande compositora inglesa.