quinta-feira, 6 de julho de 2017

Resenha de Rev. Sekou - In Times Like These






                Mesmo com o movimento e a conquista dos direitos civis, a tensão racial nos Estados Unidos nunca deixou realmente de existir, mesmo depois que o primeiro presidente negro da história do país foi eleito, em 2008. Nos últimos anos há uma nova escalada nos conflitos raciais, colocada em evidência pela violência policial contra a população jovem negra, sempre as vítimas preferíveis dos policiais. O caso emblemático que estourou a onda de protestos pelo país e ligou o alerta para o movimento social negro norte-americano aconteceu em 9 de agosto de 2014, em Ferguson, depois que um jovem de 18 anos chamado Michael Brown foi baleado por um policial branco depois de um assalto a uma loja de conveniência. O assassinato de Brown desencadeou várias ondas de protestos entre novembro de 2014 e agosto de 2015, em que a população negra se uniu para a situação da população jovem negra em relação à violência policial, já que o caso em Ferguson não foi o único que um jovem morreu nessas circunstâncias de violência desproporcional empregada pelas forças policiais. Durante esses protestos em Ferguson, um pastor e ativista chamado Reverend Osagyefo Uhuru Sekou foi preso depois que se ajoelhou para rezar entre os policiais e os manifestantes. E é sobre ele que iremos falar agora, pois ele transferiu sua energia, sua fé e seu protesto na forma de blues e gospel no ótimo álbum In Times Like These, criando um dos mais impactantes álbum-manifesto do gênero.

Essa tensão recente já foi transplantada para a música em vários momentos, especialmente no que se refere ao hip-hop. Já Mavis Staple também usou sua música como o reflexo desse momento no seu ótimo disco Livin' On a High Note, de 2016. In Times Like These, de Rev. Sekou, vem para acabar com o silêncio incômodo que pairava pelos novos lançamentos no meio do blues.

O disco foi produzido por Luther e Cody Dickinson, do North Mississippi Allstars, que recebem o crédito de unir os elementos diversos em um som coeso e forte de gospel-blues-rock presente por todas as faixas do disco. Mas o grande astro mesmo é Rev. Sekou, ou melhor, a potência de sua voz que traduz toda a sua vitalidade e energia para lugar por um mundo melhor. Esse vigor pode ser percebido já nos primeiros segundos do disco, pois a faixa de abertura "Resist" tem trechos do discurso que Rev. Sekou deu nos protestos de Ferguson. No refrão, o reverendo clama com toda força "We want freedom and we want it now - Resist". Sekou ainda apela para a autodeterminação, afirmando para sempre resistir quando dizem o que você pode ou não fazer, quem você pode ou não amar, ou se você deve ou não voltar a estudar e coisas do tipo.  A ideia é resistir, seja que hora for. A banda grande e as músicas cheias de arranjos de metal bem posicionados também chamam atenção. No final tem a continuação do discurso de Rev. Sekou nos protestos: é dessa geração - que está resistindo, lutando, se colocando diante da brutaidade policial - que a história irá falar depois.

Na faixa título, com uma batida mais para o funk, Sekou continua o apelo pela mudança e a chamada para a contínua mobilização social, pois percebe que não tem nenhum político ou algum santo ou heroi que irá fazer com que suas reivindicações sejam ouvidas. É através da luta contínua que um povo conquista e/ou amplia seus direitos. Ao mesmo tempo em que Sekou situa a luta contemporânea da população negra, ele não esquece o histórico de perseguição, violência e exploração que seu povo sofreu por séculos:

"Persecuted but not forsaken
Been 400 years, and they still can't break us
Sometimes I feel like giving up, I cannot lie
Too busy working for my freedom, ain't got time to die.
In times like these, we need a miracle,
Ain't nobody gone save us, we're the ones we've been waiting for."

Na faixa seguinte, Sekou recria a faixa "Burnin' and Lootin'", de Bob Marley, direcionando a música para o campo do gospel e do blues. “Lord, I Am Running (99 ½ Won’t do)”, um blues cheio de riffs e solos de guitarra, é mais um dos vários destaques do disco. Para cantá-la, Rev. Sekou conta com a ajuda de Raina Sokolov-Gonzalez. Na letra, Rev. Sekou recria a situação de milhares de afro-americanos que tentava fugir das plantações correndo até a exaustão pela sua própria vida, ouvindo o latido dos cachorros no seu rastro. A repetição da letra funciona como se o corredor estivesse cantando para si mesmo, buscando forças para completar os 100 porque 99 e meio não seriam suficientes. “Muddy and Rough” é um blues cru e bem marcado, alternando solos de órgão e de guitarra, inclusive com o melhor solo de guitarra do disco. A improvisação e a variação do vocal de Rev. Sekou certamente é uma influência da sua vida de pregação na sua Igreja pentecostal.

A tradição familiar entre blues, gospel e soul, além de sua trajetória de vida como pastor, teólogo, poeta, documentarista, também leva os temas do gospel para a mesa. “The Devil Finds Work”. A estrutura da música é incrível. Começa com um blues arrastado, com uma guitarra pesada acompanhando a música e depois, de súbito, muda totalmente para um ritmo frenético de um spiritual. É quase como nos vermos dançando no meio da congregação, com palmas e tudo. Incrível.

O momento iluminado do disco continua com “Old Time Religion” acompanhado do órgão. “When The Spirit Says Move” é mais um gospel animado para acompanhar batendo palmas. O disco encaminha-se para o final com a balada soul “Loving You Is Killing Me” e a balada no piano “Problems”.

In Times Like These é um álbum daqueles que realmente só podem ser feitos em tempos como estes. Cheio de tensão, revolta, paixão, dor, sentimento e, acima de tudo, esperança. Ainda de quebra, Rev. Sekou nos leva a uma visita à Igreja. Aqui cabe um adendo: independente da sua religião ou se não tem religião, mesmo assim, a música nos leva a significativas experiências espirituais. Rev. Sekou, apesar de pastor de uma Igreja pentecostal, sabe muito bem disso. Álbuns assim são os que curam a alma. Estamos precisando. 


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Resenha de Hayes McMullan - Everyday Seem Like Murder Here




Quantos talentos e histórias excepcionais não são perdidos pelo mundo afora? Especialmente no blues, cuja origem é essencialmente rural, milhares de músicos sempre atuaram anonimamente nas sombras durante décadas, trabalhando durante o dia numa profissão fixa e tocando de bar em bar à noite, vagando pelos circuitos de sua cidade ou seu estado ganhando um trocado, sem nunca ter tido a chance de ter sua música ouvida por um grande público, ter seu nome reconhecido nas rodas dos entusiastas de blues, assim por diante. Por sorte, esse não é mais o caso de Hayes McMullan. Infelizmente, ele não está mais entre nós para testemunhar essa tardia mudança. Nascido em 1902, McMullan passou sua vida como sharecropper, diácono e ativista de direitos humanos. Enquanto isso, tocava guitarra e compunha algumas músicas para tocar nos bares nas suas andanças pelo Extremo Sul dos Estados Unidos. McMullan morreu totalmente desconhecido em 1986, aos 84 anos. Somente agora, em 2017, trinta anos depois de sua morte, graças a uma gravação ocorrida em 1967, podemos finalmente conhecer um relance do talento e das histórias desse bluesman. Ele foi gravado pelo colecionador musical e documentarista Gayle Dean Wardlow, que no final da década de 60 foi em busca de alguma gravação de Charlie Patton, perguntando de porta em porta. Enfim, uma dessas portas foi a de Hayes McMullan, ao que respondeu que ele simplesmente tocou com o próprio Patton, além de Willie Brown. Durante seu tempo ativo na música, McMullan recebeu uma oferta de gravação, mas recusou; “Eles me ofereceram cinco dólares por música, e você sabe que eles podiam fazer milhares com apenas uma música” – ele disse então para Wardlow. Depois disso, e com o envenenamento de seu irmão, que também era um músico de blues, McMullan abandonou o blues – a música do diabo – e entrou para a Igreja.
Enfim, o disco Everyday Seem Like Murder Here é o resultado de três sessões que McMullan gravou com Wardlow entre 1967 e 1968, quase trinta anos depois que ele tinha parado de tocar. Dessas sessões, 31 faixas estão em qualidade boa para serem usadas no disco. O resultado é um autêntico registro do Delta Blues, entrecortadas por conversações. O estilo de McMullan não mudou nada: parece que está tocando diretamente dos anos 20, 30. Alguns dos destaques ficam com “Look-A Here Woman Blues”, “Goin’ Away Mama Blues”, “Goin’ Where The Chilly Winds Don’t Blow” e “Kansas City Blues”.
Estamos diante de um registro histórico, que desenterra a memória de apenas um dos talentosos músicos de blues que infelizmente foram engolidos pela história. 

'The few old snapshots I took, the handful of tunes we recorded, and his brilliant performance of 'Hurry Sundown' captured on film are all that's left of the musical legacy of Hayes McMullan, sharecropper, deacon, and - unbeknownst to so many for so long - reluctant bluesman - disse Wardlow
 

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Chris Cornell morre aos 52 anos.



Eu sei, todos já foram informados dessa notícia. Mas, mesmo atrasado, o blog não poderia deixar de registrar esse triste acontecimento. No último dia 17, perdemos o cantor e guitarrista Chris Cornell, de Temple of The Dog, Soundgarden e Audioslave. Para quem é fã de rock, especialmente o grunge, é mais uma perda de um heroi.

R.I.P Cornell!





terça-feira, 2 de maio de 2017

Confira "Don't Leave Me Here" e "All Around The World", do novo álbum colaborativo de Taj Mahal e Keb' Mo', TajMo



Como já se sabe, vem mais uma parceria de primeira por esses dias. O bluesman Taj Mahal se uniu a Keb’ Mo’ e estão lançando o álbum TajMo no próximo dia 5. Eles já disponibilizaram algumas músicas do trabalho pelos serviços de stream. Portanto, enquanto aguardamos o lançamento oficial do esperado disco de Taj Mahal em parceria com Keb’ Mo’, deixo aqui algumas das músicas que já viram a luz do dia. O primeiro é o lyric vídeo de “Don’t Leave Me Here” e o segundo é a apresentação ao vivo de “All Around The World” no The Late Show With Stephen Colbert. 







quinta-feira, 27 de abril de 2017

Confira o belíssimo clipe de "Far From The Cradle", de Hurricane Ruth


Hurricane Ruth acaba de lançar um vigoroso álbum, Ain’t Ready for The Grave, para o qual grava um clipe igualmente intenso para a mais emocionante faixa do disco. O vídeo de “Far From The Cradle” é denso, reflexivo e ainda nos faz pensar na passagem do tempo. Na belíssima letra, Ruth nos dá algumas dicas de como devemos enxergar esse movimento inexorável que não vai parar nunca: “We’re far from the cradle, but we ain’t ready for the grave”. Confira:


Confira Guy Davis & Fabrizio Poggi em ação Live Out Of The Woods


Guy Davis e Fabrizio Poggi lançaram um dos álbuns mais intensos do ano, o histórico Sonny & Brownie's Last Train, no qual se dedicam a homenagear dois grandes gênios do blues, Sonny Terry e Brownie McGhee. Confira agora dois vídeos em que os dois aparecem em ação tocando faixas do disco, "Louise, Louise" e "Walk On"





Resenha de Vin Mott - Quit The Women for the Blues



O disco de estreia de um artista tem que vir com alguns elementos que forneçam dicas sobre o que o ouvinte pode esperar. O título e a capa são aspectos importantíssimos para esse fim. É o que acontece, por exemplo, com o disco "Quit the Women for the Blues", do jovem estreante Vin Mott, de New Jersey. A capa é simples e mostra Mott em plena ação tocando gaita, enquanto o título do disco sugere que tenha muito, muito blues. E melhor, harmonica blues. Pois bem, é isso o que Vin Mott faz, inspirado pelos mestres tais como James Cotton, Little Water e pegando a tradição de Chicago blues de Muddy Waters, em cada uma das dez faixas do disco. Outra coisa que chama atenção e confere muito crédito a Mott e sua banda é que todas as dez faixas são originais e autorais.

A faixa de abertura e que dá título ao álbum foi construída sem dúvida com base em "Killing Floor", de Howlin' Wolf. Inicia o disco com grande estilo. "Make Up Your Mind" é um apelo para a garota se decidir logo. Aqui, bem como em vários outros momentos do disco, Mott mostra solos de gaita com grande desenvoltura. O humor ácido aparece em "Don't Make Me Laugh". A ótima "I'm a Filthy Man" é um dos pontos altos do disco, com Mott assumindo o papel do safadão da história.

Mas a grande estrela do álbum mesmo é "The Factory". No blues, as contradições da luta de classes aparece na maioria das vezes de forma indireta. Por ser um estilo que se desenvolveu num ambiente brutal e segregado, no qual os negros estavam sujeitos à violências por todos os lados, é natural que eles não se sentissem seguros o suficiente para escancarar tudo o que pensavam nas suas letras, exceto nos salões frequentados somente por membros do próprio grupo. Ainda assim, algumas gravações de cantores que tiveram coragem de colocar os pingos nos i's nas letras se destacaram. Por exemplo, "Take This Hammer", de Leadbelly, que serve quase como uma "dedada" para o capitão, ou, provavelmente a mais clássica, "Big Boss Man", de Jimmy Reed, alcança um momento em que ele fala na letra: "você não é tão grande, você só é alto, e isso é tudo". Big Bill Broonzy, J. B. Lenoir, Josh White e Nina Simone são alguns outros que se destacam por ter deixado essa luta de classes mais clara em algumas letras do blues. Pois bem, longe de colocar Vin Mott na mesma posição em termos de experiência de classe que os negros norte-americanos durante a praticamente toda sua história enquanto comunidade americana, mas "The Factory" sem dúvida retrata a esfera da luta de classe que foi transferida da zona rural para as fábricas. A música, um slow blues arrastado que representa a exaustão no final de um dia de trabalho, mostra uma letra que representa a realidade de muito trabalhador industrial pelo mundo afora. Típico de um morador de uma zona industrial. Representa também a indignação, a raiva por essas relações sociais de produção. Vale a pena transcrever um trecho da letra:

 I've been working / all around the clock (2x)
got stuck on the third shift / man, what a shock
I've been working / all around the clock
this living, ain't much living
I've been beaten down by the Factory.

 Gonna get me a pistol, gonna shoot the Boss (2x)
And I won't be sorry, for nobodies loss
Gonna get me a pistol, gonna shoot the Boss
This living, ain't much living
I've been beaten down by the Factory

Na verdade, em algum momento da vida, todos nós trabalhamos nessa fábrica que Vin Mott fala tão vivamente. Seja ela real ou não.



Mas como todo bom trabalhador, a vida não se resume a reclamar da exploração. Tem muita festa, namoro e diversão também. A coisa fica mais animada, inclusive sexualmente, com "Freight Train" e "Ol' Greasy Blues". Mas claro que teria que ter alguma música sobre problemas de relacionamento, com o "I Wanna Get Ruff With You". O álbum se encaminha para o final com "Livin The Blues", mas um ótimo lamento de quem realmente está vivendo o blues. "Living the blues, been misused, treated so bad". Isso é o blues. Para finalizar, uma divertida instrumental "Hott Mott's Theme", em que Mott usa pouco mais de dois minutos para se divertir com sua banda e sua gaita.


Então, seja utilizando o humor, o desejo sexual, a exaustão física, a raiva ou o ímpeto festeiro, "Quit The Women For the Blues" é um ótimo disco autêntico de blues. Não é qualquer um que estreia com um álbum totalmente com músicas autorais, principalmente no blues, um gênero que é tão comum ver regravações atrás de regravações. É rejuvenescedor, sem dúvida. Vale muito a pena ficar de olho nos seus próximos passos.