terça-feira, 19 de dezembro de 2017
Leo "Bud" Welch morre aos 85 anos
A página do Facebook "Living Blues" cada de noticiar a morte de Leo Bud Welch. A nota do empresário Vincie Vernado diz que "é com o coração pesado e com profunda tristeza que eu anuncio a morte do grande Leo "Bud" Welch. Os preparativos para o funeral serão anunciados num futuro próximo. Suas preces são bem vindas".
Welch gravou pela primeira vez 2014, aos 82 anos. Em 2015 lançou o segundo trabalho, I Don't Prefer No Blues e nesse ano havia lançado um disco ao vivo.
Descanse em paz, Leo.
Melhores Álbuns de 2017: Parte I
41. Nação Zumbi - Radiola NZ, Vol. 1
Não tem como uma banda como Nação Zumbi fazer um álbum em
que presta homenagem a suas influências e ser ruim. A surpresa (ótima surpresa)
aqui é a versão de Nação para “Ashes to Ashes”, um dos clássicos de David
Bowie. Pelo jeito podemos esperar pelo volume dois.
42. Leo
Maier - I Choose the Blues
O blues brasileiro está representado por Leo Maier. E,
diga-se de passagem, muito bem representado. Disco de estreia, Leo Maier traz
um álbum já com personalidade bem formada em que apresenta seu estilo virtuoso.
Destaque para a divertida
“You’ve Been Drinking Too Much” e a faixa título, “I Choose the Blues”.
43. The Reverend Peyton's Big Damn Band - Front Porch Sessions
Não é só a figura do Reverend Peyton que chama a atenção
aqui, mas sua voz também é bem potente. Focado principalmente num blues
acústico e rural que, como sugere o disco, é ótimo para ouvir na varanda no
sítio ou algo assim. Peyton sabe o que está fazendo, seu estilo evoca Charlie
Patton, Bukka White, Blind Willie Johnson, David “Honeyboy” Edwards, dentre
outros mestres do country blues do Mississippi. Olha a figura no clipe oficial de “We Deserve a
Happy Ending”
44. Cesar
Valdomir - Working for The Blues
Pois é, no blog também
tem lugar para blues argentino. Isso mesmo. Cesar Valdomir é um
argentino tocando blues de primeira, mesclando algumas originais com a maioria
de covers. Mas a presença dele na lista foi assegurada mesmo com as versões de
“John The Revelator” e “Take the Bitter With The Sweet”. Vale a pena conferir.
45. Samantha Fish - Chills & Fever
O R&B e o Soul de Samantha Fish foi um dos pontos altos
do ano, chegando a lembrar um pouco de Amy Whinehouse em alguns momentos. Uma
mistura com elementos de rock, soul e blues que resulta num som charmoso e
sensual.
Enfim, o disco Everyday Seem Like Murder Here é o resultado
de três sessões que McMullan gravou com Wardlow entre 1967 e 1968, quase trinta
anos depois que ele tinha parado de tocar. Dessas sessões, 31 faixas estão em
qualidade boa para serem usadas no disco. O resultado é um autêntico registro
do Delta Blues, entrecortadas por conversações. O estilo de McMullan não mudou
nada: parece que está tocando diretamente dos anos 20, 30. Alguns dos destaques ficam com “Look-A Here
Woman Blues”, “Goin’ Away Mama Blues”, “Goin’ Where The Chilly Winds Don’t
Blow” e “Kansas City Blues”. Estamos diante de um registro histórico, que desenterra a
memória de apenas um dos talentosos músicos de blues que infelizmente foram
engolidos pela história.
47. Johnny Hooker – Coração
Johnny Hooker segue sua carreira com o seu segundo álbum,
Coração. Apesar de não beirar a perfeição como o disco de estreia, Coração
mantém o estilo provocativo, poético e lírico de Hooker, com algumas belas
canções, mesmo com algumas escorregadas pontuais, como se aventurando pelo axé,
por exemplo.
48. Taj Mahal & Keb' Mo' – TajMo
A reunião de dois grandes nomes do blues , Taj Mahal e Keb’
Mo’, para um álbum colaborativo foi uma grande novidade para 2017. Apesar de
ter potencial para um álbum ainda melhor, a dupla entrega um álbum com belas
músicas, numa corpagem mais comercial.
49. Altered
Five Blues Band - Charmed and Dangerous
A banda Altered Five Blues Band conduz um blues rock potente
no seu quarto lançamento, Charmed and Dangerous. O entrosamento da banda
transparece no seu som, que mistura influências do rock com o Delta blues.
50. Harrison Kennedy – Who U Tellin’?
A voz poderosa e rouca de Harrison Kennedy, o som do blues
rural e uma gaita intensa e raivosa acompanha todo o disco Who U Tellin’?
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domingo, 17 de dezembro de 2017
Playlist: OFilhoDoBlues-2017
Depois de um
longo ostracismo, o blog está de volta! E a época de final de ano é bem
sugestiva. Já retornamos com as listas de melhores músicas e álbuns de 2017.
Nesse ano, a predominância do blues foi absoluta. A morte de David Bowie, em
2016 e a queda de bandas heroicas, como Queens of The Stone Age e Arcade Fire
(que lançaram álbuns pífios em 2017) foram duros golpes no rock para mim.
Enfim, razões à parte, vamos à lista.
A lista de
músicas do ano selecionadas pelo Filho do Blues foi mais gorda do que a do ano
passado: temos 130 músicas, escolhidas a partir dos melhores álbuns do ano, dos
quais eram selecionadas duas ou três faixas por disco. (algumas músicas infelizmente não puderam fazer parte da lista, pois o Spotify não disponibilizou o álbum na sua plataforma, como Guy Davis & Fabrizio Poggy, The Blind Boys of Alabama e Eric Bibb)
Então curta o
que melhor rolou no ano:
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terça-feira, 12 de setembro de 2017
Resenha - Walter Trout - We're All In This Together
Depois da
tempestade, a bonança. Essa frase não poderia ser melhor aplicada do que o caso
do guitarrista de blues Walter Trout. A recuperação do corpo não é o bastante
quando a ferida atinge o âmago mais escuro da alma. Totalmente recuperado
fisicamente de um longo drama de saúde, Trout tratou de curar sua alma e
exorcizou seus demônios com o emocionante – e sofrido – disco Battle Scars, de
2015. Agora, dois anos depois, com a vida salva, a carreira retomada e saindo
em turnê novamente, Walter Trout está aproveitando cada segundo do tempo que
conseguiu garantir. Quando estamos felizes, queremos compartilhar essa
felicidade; chamamos os amigos e fazemos aquela festa. O seu novo disco, We’re All In This Together, é exatamente essa
festa que Trout andou preparando com seus amigos (baitas amigos!”). O álbum tem
quatorze faixas, cada uma com um convidado especial acompanhando Trout, que
compôs as faixas já pensando nos artistas que iriam acompanhá-lo. Assim, ele
tomou o cuidado de chamar figuras versáteis dentro do universo do blues e do
blues-rock, o que dá ao disco uma dinâmica bastante saudável. Trout conseguiu capturar a alma e a essência
tanto do estilo quanto do convidado. Mas, afinal, quem são esses convidados?
Vejamos: Kenny Wayne Shepherd, Sonny Landreth, Charlie Musselwhite, Mike Zito,
Robben Ford, Warren Haynes, Eric Gales, Edgar Winter, Joe Louis Walker, John
Nemeth, Jon Trout (filho de Walter), Randy Bachman, John Mayall e Joe
Bonamassa. Só isso, simplesmente os melhores do gênero blues-rock.
Devido
a isso, We’re In This Together tem de tudo, começando com aquelas clássicas
dirigidas principalmente pela guitarra, como a faixa de abertura, “Gonna Hurt
Like Hell”, com Kenny Wayne Shepherd, “Crash and Burn”, com Joe Louis Walker e
“Got Nothin’ Left”, com Randy Machman, nas quais a aceleração é mantida sempre
com ótimos solos de guitarra, além do mestre do slide zydeco, Sonny Landreth e
a instrumental “Mr. Davis”, com Robben Ford. Mas também tem gaita suficiente
aqui, como “The Other Side of The Pillow”, com o mestre da gaita Charlie
Musselwhite, que também pega emprestado os vocais em um dueto trágico-cômico
sobre mais uma das inúmeras histórias de traição no blues. John Mayall também
traz sua gaita para a incrível “Blues For Jimmy T.”, um delta blues somente com
Trout no violão e Mayall na gaita. Sensacional. Outra em que a gaita divide as
atenções com a guitarra é “Too Much To Carry”, com John Nemeth, um Chicago
blues empolgante.
No
disco também tem aquelas que transitam mais para o rock e pop, com um som mais
acessível e radiofônico, como “She Listens to The Blackbird Sing”, com Mike
Zito, ou “She Steals My Heart Away”, com um toque meio soul de Edgar Winter e
um pouco do funky blues de Eric Gales em “Somebody Goin’ Down”. Diante de um
time de joias como esse, Walter Trout faz anda o trabalho de casa, com seu
filho Jon, na faixa “Do You Still See Me At All”, com um ritmo bem dançante.
Como se não bastasse, tem uma versão incrível da clássica “The Sky Is Crying”,
com Warren Haynes. Para terminar com chave de ouro, Water Trout se une a Joe
Bonamassa, os dois maiores representantes do blues-rock na atualidade e nos
entregam o suprassumo do estilo: a faixa que dá título ao álbum “We’re All In
This Together”, quase oito minutos com o melhor que o gênero blues-rock tem a
oferecer.
We’re All In
This Together torna-se assim, além de um favoritos para o melhor disco do ano,
uma obra-prima do gênero blues-rock e coloca Walter Trout como seu maior
representante e compositor. O mais legal é que essas posições de nada importam:
ele consegue essa proeza num disco colaborativo em que os egos de cada um dos
convidados – e o dele próprio – são deixados de lado e o que transparece é
realmente a única coisa que importa de verdade: o amor pela música.
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
Confira a resenha de The Cash Box Kings - Royal Mint
The Cash Box Kings é uma banda colaborativa por essência. Criada em 2001 pelo gaitista, cantor e compositor Joe Nosek, foi em 2007 que o grupo recebeu mais um membro fixo, o vocalista Oscar Wilson, que contribuiu para o salto de qualidade na sonoridade da banda. Os demais membros são flexíveis, dependendo do talento e da direção que aqueles que estão envolvidos queiram seguir. Para o novo trabalho da banda, Royal Mint, tantos talentos e experiências diferentes alcançaram uma ótima síntese do blues, resgatando elementos do Chicago blues de Muddy Waters, Jimmy Reed, principalmente, mas flertando em momentos diferentes com o Piedmont blues, country blues e Delta blues, transitando naturalmente do tradicional para o novo, e vice-versa.
Os destaques de Royal Mint são vários, começando pela própria regularidade durante todo o disco, mantendo a pegada sem cair no desinteresse, na mesmice ou com fusões sonoras confusas e desnecessárias para, a priori, alcançar um público maior. Sem dúvida, e sem desmerecer os demais, as faixas que contam com Wilson nos vocais se destacam pelo vigor que os cantores de blues normalmente tem. Depois de um início empolgante com os boogies “House Party”, de Amos Milburn, e o clássico “I’m Gonna Get My Baby”, de Jimmy Reed, Oscar Wilson capricha demais na versão de "Flood", de Muddy Waters. Na verdade, Wilson soa como uma encarnação de Waters. Um slow blues sensacional, mérito também de uma ótima banda de apoio. Mas não é somente nas regravações que The Cash Box Kings faz um grande trabalho. A faixa seguinte é a original "Build That Wall", na qual o grupo destila ironia sobre a decisão do governo Trump de construir o muro e fala umas verdades, digamos assim, incômodas. A letra diz: “Go on build that wall/ mistreat people with brown skin but most of all: you can ignore what Jesus said /you know the poor are better off dead. /come on now USA let's build that wall.”
A faixa seguinte, "Blues for Chi-Raq", em uma encarnação agora de Albert King, também aborda uma problemática atual: o aumento da violência, principalmente por armas de fogo, especificamente nos bairros em Chicago. Mais uma vez a banda faz um trabalho incrível na regravação do clássico de Robert Johnson, "Travelin' Riverside Blues". Em seguida, o grupo toca numa questão que com certeza já foi problema para muita gente nesse mundo de relações virtuais em que vivemos. "If You Got a Jealous Woman, Facebook Ain't Your Friend". O título é autoexplicativo. A parte final do disco nos reserva ainda ótimos momentos, além de mais regravações, como "Sugar Sweet" e "All Night Long", conta ainda com "I Come All The Way From Chi-Town", focado no estilo Piedmont blues de Sonny Terry e a divertida "Don't Let Life Tether You", com um dançante solo introdutório de gaita.
Contando com regravações poderosíssimas e canções originais relevantes de quem vive o tempo presente, executadas por integrantes que conhecem profundamente os diferentes estilos do blues, The Cash Box Kings reafirmam a relevância do blues para a cena musical contemporânea. De fato, é como o próprio Oscar Wilson descreveu o disco: "um retorno à era dourada do blues.
Os destaques de Royal Mint são vários, começando pela própria regularidade durante todo o disco, mantendo a pegada sem cair no desinteresse, na mesmice ou com fusões sonoras confusas e desnecessárias para, a priori, alcançar um público maior. Sem dúvida, e sem desmerecer os demais, as faixas que contam com Wilson nos vocais se destacam pelo vigor que os cantores de blues normalmente tem. Depois de um início empolgante com os boogies “House Party”, de Amos Milburn, e o clássico “I’m Gonna Get My Baby”, de Jimmy Reed, Oscar Wilson capricha demais na versão de "Flood", de Muddy Waters. Na verdade, Wilson soa como uma encarnação de Waters. Um slow blues sensacional, mérito também de uma ótima banda de apoio. Mas não é somente nas regravações que The Cash Box Kings faz um grande trabalho. A faixa seguinte é a original "Build That Wall", na qual o grupo destila ironia sobre a decisão do governo Trump de construir o muro e fala umas verdades, digamos assim, incômodas. A letra diz: “Go on build that wall/ mistreat people with brown skin but most of all: you can ignore what Jesus said /you know the poor are better off dead. /come on now USA let's build that wall.”
A faixa seguinte, "Blues for Chi-Raq", em uma encarnação agora de Albert King, também aborda uma problemática atual: o aumento da violência, principalmente por armas de fogo, especificamente nos bairros em Chicago. Mais uma vez a banda faz um trabalho incrível na regravação do clássico de Robert Johnson, "Travelin' Riverside Blues". Em seguida, o grupo toca numa questão que com certeza já foi problema para muita gente nesse mundo de relações virtuais em que vivemos. "If You Got a Jealous Woman, Facebook Ain't Your Friend". O título é autoexplicativo. A parte final do disco nos reserva ainda ótimos momentos, além de mais regravações, como "Sugar Sweet" e "All Night Long", conta ainda com "I Come All The Way From Chi-Town", focado no estilo Piedmont blues de Sonny Terry e a divertida "Don't Let Life Tether You", com um dançante solo introdutório de gaita.
Contando com regravações poderosíssimas e canções originais relevantes de quem vive o tempo presente, executadas por integrantes que conhecem profundamente os diferentes estilos do blues, The Cash Box Kings reafirmam a relevância do blues para a cena musical contemporânea. De fato, é como o próprio Oscar Wilson descreveu o disco: "um retorno à era dourada do blues.
terça-feira, 18 de julho de 2017
Confira o clipe-manifesto "Build That Wall" de The Cash Box Kings
A banda The Cash Box Kings lançou um novo disco, Royal Mint. Para promover o lançamento, a banda publicou no Youtube um clipe da música "Build That Wall", em que ataca as decisões políticas do governo de Donald Trump, especificamente a ideia de construir um muro para impedir a entrada de imigrantes e a falta de engajamento do governo dos Estados Unidos nos debates sobre as mudanças climáticas. No vídeo, o grupo também faz um manifesto político:
"Se você acha que racismo e a brutalidade policial contra negros não existiam 'até o presidente Obama ser eleito', então esta música é para você. (Faça um favor a você mesmo: vá ler qualquer livro de 5º ano de História da América, ou pesquise no google sobre comércio de escravos, Jim Crow, linchamentos, ...)
Se você acha que porque é branco ou tem um sobrenome 'não-étnico', você está de alguma forma mais aberto às oportunidades econômicas e direitos civis do que qualquer outro americano, então esta música é para você.
Se você acha que está tudo bem gozar, diminuir ou denegrir alguém por causa da cor da pele, do gênero, sua origem étnica, capacidade mental ou física, crenças religiosas ou preferência sexual,então esta música é para você.
Se você acha que está tudo bem agarrar uma mulher sem consentimento, ou assediar sexualmente, então está música é para você
Finalmente, se você testemunhou algum desses atos falados acima acontecer e não se sentiu disposto a falar contra eles, então está música é para você."
Abaixo segue a letra da música:
Build That Wall
WelI our faces aren't the same
and I can tell by your last name
this country means more to me than it does to you
We need to get back to that space
Where people knew their place
And when we're done with that let's go and build a wall
Build a wall go on build that wall mistreat people with brown skin but most of all:
you can ignore what Jesus said
you know the poor are better off dead.
come on now USA let's build that wall
You can grab her where you like there,
got no use for women's rights,
And if the girl complains she's probably just a dyke,
this PC thing’s a bunch of crap,
now we can mock the handicapped.
And when we're done with that we’ll go and build a wall.
Build that wall go on build that wall mistreat people with dark skin but most of all:
you can forget what Jesus said
ignore the sick they’ll soon be dead.
come on now USA let's build that wall
Take your science and your facts
you can blow them out your ass
'Cause the unexamined life is where it's at
Climate change ain't all that bad,
you know it's just a passing fad.
come on now USA let's build that wall
Build that wall go on build that wall mistreat people with black skin but most of all:
we’re gonna go and lead the fight to save the red, blue and white.
quinta-feira, 6 de julho de 2017
Resenha de Rev. Sekou - In Times Like These
Mesmo com o movimento e a conquista dos direitos civis, a tensão racial
nos Estados Unidos nunca deixou realmente de existir, mesmo depois que o
primeiro presidente negro da história do país foi eleito, em 2008. Nos últimos
anos há uma nova escalada nos conflitos raciais, colocada em evidência pela
violência policial contra a população jovem negra, sempre as vítimas
preferíveis dos policiais. O caso emblemático que estourou a onda de protestos
pelo país e ligou o alerta para o movimento social negro norte-americano
aconteceu em 9 de agosto de 2014, em Ferguson, depois que um jovem de 18 anos
chamado Michael Brown foi baleado por um policial branco depois de um assalto a
uma loja de conveniência. O assassinato de Brown desencadeou várias ondas de
protestos entre novembro de 2014 e agosto de 2015, em que a população negra se
uniu para a situação da população jovem negra em relação à violência policial,
já que o caso em Ferguson não foi o único que um jovem morreu nessas
circunstâncias de violência desproporcional empregada pelas forças policiais.
Durante esses protestos em Ferguson, um pastor e ativista chamado Reverend
Osagyefo Uhuru Sekou foi preso depois que se ajoelhou para rezar entre os
policiais e os manifestantes. E é sobre ele que iremos falar agora, pois ele
transferiu sua energia, sua fé e seu protesto na forma de blues e gospel no
ótimo álbum In Times Like These, criando um dos mais impactantes
álbum-manifesto do gênero.
Essa tensão recente já foi
transplantada para a música em vários momentos, especialmente no que se refere
ao hip-hop. Já Mavis Staple também usou sua música como o reflexo desse momento
no seu ótimo disco Livin' On a High Note, de 2016. In Times Like These, de Rev.
Sekou, vem para acabar com o silêncio incômodo que pairava pelos novos
lançamentos no meio do blues.
O disco foi produzido por Luther
e Cody Dickinson, do North Mississippi Allstars, que recebem o crédito de unir
os elementos diversos em um som coeso e forte de gospel-blues-rock presente por
todas as faixas do disco. Mas o grande astro mesmo é Rev. Sekou, ou melhor, a
potência de sua voz que traduz toda a sua vitalidade e energia para lugar por
um mundo melhor. Esse vigor pode ser percebido já nos primeiros segundos do
disco, pois a faixa de abertura "Resist" tem trechos do discurso que
Rev. Sekou deu nos protestos de Ferguson. No refrão, o reverendo clama com toda força "We want freedom and we
want it now - Resist". Sekou ainda apela para a autodeterminação,
afirmando para sempre resistir quando dizem o que você pode ou não fazer, quem
você pode ou não amar, ou se você deve ou não voltar a estudar e coisas do tipo. A ideia é resistir, seja que hora for. A
banda grande e as músicas cheias de arranjos de metal bem posicionados também
chamam atenção. No final tem a continuação do discurso de Rev. Sekou nos protestos:
é dessa geração - que está resistindo, lutando, se colocando diante da
brutaidade policial - que a história irá falar depois.
Na faixa título, com uma batida mais para o funk,
Sekou continua o apelo pela mudança e a chamada para a contínua mobilização
social, pois percebe que não tem nenhum político ou algum santo ou heroi que
irá fazer com que suas reivindicações sejam ouvidas. É através da luta contínua
que um povo conquista e/ou amplia seus direitos. Ao mesmo tempo em que Sekou
situa a luta contemporânea da população negra, ele não esquece o histórico de
perseguição, violência e exploração que seu povo sofreu por séculos:
"Persecuted
but not forsaken
Been
400 years, and they still can't break us
Sometimes
I feel like giving up, I cannot lie
Too
busy working for my freedom, ain't got time to die.
In
times like these, we need a miracle,
Ain't
nobody gone save us, we're the ones we've been waiting for."
Na faixa seguinte, Sekou recria
a faixa "Burnin' and Lootin'", de Bob Marley, direcionando a música
para o campo do gospel e do blues. “Lord, I Am Running (99 ½ Won’t do)”, um
blues cheio de riffs e solos de guitarra, é mais um dos vários destaques do
disco. Para cantá-la, Rev. Sekou conta com a ajuda de Raina Sokolov-Gonzalez.
Na letra, Rev. Sekou recria a situação de milhares de afro-americanos que
tentava fugir das plantações correndo até a exaustão pela sua própria vida,
ouvindo o latido dos cachorros no seu rastro. A repetição da letra funciona
como se o corredor estivesse cantando para si mesmo, buscando forças para
completar os 100 porque 99 e meio não seriam suficientes. “Muddy and Rough” é
um blues cru e bem marcado, alternando solos de órgão e de guitarra, inclusive
com o melhor solo de guitarra do disco. A improvisação e a variação do vocal de
Rev. Sekou certamente é uma influência da sua vida de pregação na sua Igreja
pentecostal.
A tradição familiar entre blues,
gospel e soul, além de sua trajetória de vida como pastor, teólogo, poeta,
documentarista, também leva os temas do gospel para a mesa. “The Devil Finds
Work”. A estrutura da música é incrível. Começa com um blues arrastado, com uma
guitarra pesada acompanhando a música e depois, de súbito, muda totalmente para
um ritmo frenético de um spiritual. É quase como nos vermos dançando no meio da
congregação, com palmas e tudo. Incrível.
O momento iluminado do disco
continua com “Old Time Religion” acompanhado do órgão. “When The Spirit Says
Move” é mais um gospel animado para acompanhar batendo palmas. O disco
encaminha-se para o final com a balada soul “Loving You Is Killing Me” e a
balada no piano “Problems”.
In Times Like These é um álbum
daqueles que realmente só podem ser feitos em tempos como estes. Cheio de
tensão, revolta, paixão, dor, sentimento e, acima de tudo, esperança. Ainda de
quebra, Rev. Sekou nos leva a uma visita à Igreja. Aqui cabe um adendo:
independente da sua religião ou se não tem religião, mesmo assim, a música nos
leva a significativas experiências espirituais. Rev. Sekou, apesar de pastor de
uma Igreja pentecostal, sabe muito bem disso. Álbuns assim são os que curam a
alma. Estamos precisando.
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